Frei Francisco Manrique, o pioneiro da presença dos Agostinhos em Macau
Frei Francisco Manrique (ou Fray Francisco Manrique), da Ordem de Santo Agostinho (OSA), foi um frade missionário espanhol do Século XVI, pioneiro na fundação da presença agostinha em Macau. Natural de Espanha, pouco se sabe sobre os seus primeiros anos de vida. Entrou, em data desconhecida, na Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho e partiu para as Filipinas (então uma possessão espanhola) por volta de 1575. Nas Filipinas, destacou-se como vigário provincial da Ordem, cargo que exerceu com destaque no contexto da expansão missionária agostinha no arquipélago. Em Março de 1584, deixou o cargo de vigário provincial e embarcou para Macau num navio português pertencente a Bartolomeu Vaz Landeiro (tio de Vicente Landeiro). Devido a uma tempestade, o navio foi desviado para as costas do Japão, onde permaneceu cerca de dois meses. Chegou finalmente a Macau a 1 de Novembro de 1584. Regressou, acompanhado pelos confrades Diogo Despinal (ou Diego Despinal) e Nicolau Tolentino (ou Nicolau de Tolentim). Juntos, formaram a primeira missão agostinha espanhola na cidade.
A sua presença inicial em Macau foi marcada por tensões geopolíticas e religiosas. Na época, existia uma forte rivalidade entre portugueses (que controlavam Macau, sob “soberania” chinesa) e espanhóis (das Filipinas). Os portugueses e os jesuítas (predominantes na missão portuguesa na Ásia) viam com desconfiança a chegada de religiosos castelhanos, temendo intromissões na esfera de influência portuguesa e possíveis conflitos com as autoridades chinesas. Manrique foi obrigado a deixar Macau e dirigiu-se a Malaca.
Pouco depois da chegada, os agostinhos compraram uma casa (possivelmente perto do local onde viria a ser o Baluarte do Bom Parto) e fundaram um convento em honra de Nossa Senhora da Graça. Esta fundação enfrentou forte oposição local, mas foi concretizada no final de 1586. Em 1587, os três frades tentaram ainda entrar em Cantão (Guangzhou), mas foram obrigados a regressar a Macau.
Frei Francisco Manrique foi prior do convento agostinho de Macau. A 1 de Março de 1588, escreveu uma importante carta ao rei Filipe II de Espanha (que era também Rei de Portugal desde 1580, na União Ibérica), na qual relatava informações sobre o Reino do Japão, a sua viagem à China e as dificuldades que encontrou por parte dos portugueses e jesuítas. Esta carta é uma das principais fontes primárias sobre a sua actividade. Participou também em esforços para abrir missões em territórios vizinhos, incluindo tentativas de evangelização no Japão e na China continental, num período de grande expansão missionária ibérica no Extremo Oriente.
A presença espanhola no convento durou pouco tempo. A 22 de Agosto de 1589, por ordem de Filipe II, os religiosos espanhóis foram retirados de Macau para evitar conflitos com os portugueses. O convento foi entregue aos agostinhos portugueses – frei Pedro de Santa Maria, frei Pedro de São José e frei Miguel dos Santos –, que tomaram posse naquele mesmo dia. Mais tarde, em 1591, o convento foi transferido para o actual Largo de Santo Agostinho (na colina de Santo Agostinho), onde se construiu a igreja anexa.
Frei Francisco Manrique é considerado o fundador da presença agostinha em Macau, mesmo que o convento tenha passado rapidamente para os portugueses. A igreja e convento de Santo Agostinho (também conhecida como igreja de Nossa Senhora da Graça) tornou-se um dos mais antigos e importantes estabelecimentos religiosos da cidade, com uma história marcada por várias reconstruções (nomeadamente após incêndios e terramotos) e por episódios como a estadia do Patriarca Tournon no início do Século XVIII.
A figura de Manrique ilustra também as complexas dinâmicas da expansão missionária ibérica na Ásia: a rivalidade luso-espanhola, as tensões com os jesuítas, as dificuldades de inserção na China Ming e o papel dos religiosos como exploradores, diplomatas e informadores para as coroas ibéricas.
Não há informação precisa sobre a data e local da sua morte, que provavelmente ocorreu após 1588, possivelmente nas Filipinas ou noutro ponto da missão agostinha asiática.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa
LEGENDA: Igreja de Santo Agostinho em Intramuros (Manila, Filipinas)

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