Reconciliação entre comunidades
A reconciliação entre as diversas comunidades do Sri Lanka e a cura das feridas deixadas por quase trinta anos de guerra civil são agora parte integrante da missão da Igreja Católica no Sri Lanka. Pelo menos esta é a opinião do padre Nayagam Roy Clarence, sacerdote da diocese de Kandy e director nacional das Obras Missionárias Pontifícias (OMP) no Sri Lanka. Recordou um conflito que abalou o País durante 26 anos (de 1983 a 2009) e que ainda deixa profundas consequências sociais e políticas.
«Tanto os tâmiles como os cingaleses», observou o padre Clarence à agência FIDES, «sofreram profundamente durante o conflito. Ainda hoje, existem comunidades marcadas pela dor, viúvas, famílias que perderam entes queridos, pessoas à espera da restituição das suas terras e de uma solução política estável. Neste contexto delicado e ferido, a Igreja continua a ser um lugar de encontro, diálogo e reconciliação». «Na comunidade católica», continuou o director nacional das OMP, «os tâmiles e os cingaleses vivem lado a lado. Por esta razão, a Igreja desempenhou, e continua a desempenhar, um papel fundamental na construção da paz, acompanhando as pessoas no caminho da cura dos traumas da guerra».
Organizações como a Cáritas do Sri Lanka, as Obras Missionárias Pontifícias e inúmeras Congregações religiosas têm promovido programas de diálogo, apoio e reconciliação. «O perdão e a reconstrução de relações tornaram-se parte essencial do nosso testemunho cristão», afirmou o sacerdote. Durante a guerra, existia uma espécie de muro entre o Norte e o Sul do País, impedindo o encontro entre as pessoas. Após o conflito, a liberdade de circulação fomentou novas relações e uma maior compreensão mútua. A este respeito, o padre Clarence partilhou a sua experiência pessoal: «Eu era seminarista quando a guerra terminou. Os seminaristas do Norte puderam ir para o Sul e vice-versa. Desta forma, vivemos em primeira mão a dor alheia e compreendemos o sofrimento de muitas famílias. Desta consciência, nasceu o perdão e a cura das relações». Segundo ele, muitos jovens cingaleses disseram: «Os tâmiles não são como imaginávamos». E os jovens tâmiles disseram o mesmo sobre os cingaleses: «Hoje, como os cingaleses, um só povo. Continuamos a aprender com a nossa história e com os nossos erros. Queremos construir uma nação pacífica, baseada na coexistência harmoniosa e no respeito mútuo».
Dez anos após o fim da guerra civil, o País sofreu outra ferida profunda: os atentados da Páscoa de 21 de Abril de 2019. «A Igreja sempre clamou por transparência e justiça», sublinhou o padre Clarence, acrescentando: «O cardeal D. Malcolm Ranjith, arcebispo de Colombo, juntamente com todos os bispos do País, abordaram a questão com grande determinação. Continuamos a exigir que toda a verdade seja revelada». De acordo com o entrevistado, após os ataques, o risco de uma espiral de violência era muito elevado. «Os líderes da Igreja», recordou, «colocaram-se em risco para evitar qualquer forma de vingança». Apelaram, pois, à calma entre a população e tornaram-se instrumentos e símbolos da paz. Desenvolveu-se também um significativo compromisso inter-religioso, envolvendo líderes muçulmanos, budistas, hindus e representantes de outras denominações cristãs.
Hoje, o caso continua bem visível, assim como a vontade de continuar na busca da verdade e da justiça. Novas investigações estão em curso e espera-se que produzam resultados concretos. As vítimas eram pessoas inocentes: crianças, jovens, famílias inteiras atacadas durante as celebrações da Páscoa. Têm direito à verdade e à justiça. Todo o País aguarda a conclusão das investigações.
Nos últimos anos, o Sri Lanka enfrentou também uma grave crise económica e, em Novembro de 2025, o devastador Ciclone Ditwah, que o atingiu duramente, especialmente a região-centro e a diocese de Kandy. «Muitas famílias perderam tudo e estão a reconstruir do zero», lembrou o padre Clarence. «A situação social continua a ser difícil: as pessoas lutam diariamente pela sua subsistência». Há uma lenta melhoria em comparação com há três anos, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
O novo Governo, liderado pelo Presidente Anura Kumara Dissanayake, está a tentar resolver os problemas, mas os desafios continuam a ser numerosos, e nesta fase de recuperação a Igreja está sempre ao lado do povo. Durante a crise económica e pós o ciclone, a Igreja ofereceu assistência imediata: «Acompanhámos as famílias mais vulneráveis com artigos de primeira necessidade, apoio espiritual e psicológico. Desta forma, muitas pessoas não se sentiram abandonadas». Entre os problemas sociais persistentes, o padre destacou as desigualdades regionais (as regiões Norte e Leste são as mais desfavorecidas), as tensões étnicas, o desemprego e o aumento da emigração devido à falta de oportunidades.
«No meio de todas estas provações, a chama da fé nunca se apagou», notou ainda o padre Clarence. A Igreja quer continuar a ser um sinal de esperança e um instrumento de unidade para todo o povo do Sri Lanka. Esta «chama» tem raízes antigas e uma história cristã rica em testemunhos de fé e resiliência, que serve de inspiração para o presente: embora seja comum pensar-se que o Cristianismo chegou com os portugueses no início do Século XVI, algumas descobertas arqueológicas, como uma cruz nestoriana, atestam uma presença cristã anterior. Contudo, foi com a chegada dos portugueses que a fé experimentou um forte impulso missionário, mas também passou por momentos difíceis.
Durante o subsequente domínio holandês, a partir de meados de mil e 600, o Catolicismo foi proibido, os padres foram expulsos e o País permaneceu sem Sacramentos durante quase trinta anos. De facto, as autoridades calvinistas da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC) restringiram severamente o Catolicismo, favorecendo a Igreja Reformada Holandesa. No entanto, o povo nunca abandonou a fé: foram sobretudo os leigos que a mantiveram viva. Um momento decisivo foi a chegada de São José Vaz (1651-1711), o “segundo fundador” da Igreja Católica no Sri Lanka, que veio de Goa, na Índia, com apenas um assistente. Graças à sua coragem e à dos padres que o seguiram, a comunidade católica conheceu um renascimento.
«Aprendendo com esta história da Providência, sabemos que Deus não nos abandona e seguimos em frente com fé e esperança», acentuou o padre Clarence. A concluir, revelou confiança para o futuro: «O Sri Lanka é uma ilha pequena e bela. O nosso povo é pacífico e acolhedor. A esperança é que, mantendo-nos unidos e solidários, possamos continuar a viver em paz e prosperidade».
Joaquim Magalhães de Castro

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