MENSAGEM DE PÁSCOA 2026

MENSAGEM DE PÁSCOA 2026

«Não tenhais medo! Eu venci o mundo» (João 16, 33)

Meus queridos irmãos e irmãs em Cristo,

Aleluia! Ele ressuscitou!

Hoje, a Igreja em todo o mundo exclama de júbilo. A caminhada quaresmal, com as suas cinzas, o seu jejum e a sua dolorosa caminhada para o Calvário, chegou ao seu destino glorioso. A pedra foi removida. O túmulo está vazio. Jesus Cristo, o Filho do Deus Vivo, venceu a morte e, pela sua vitória, concedeu a toda a humanidade um dom que o mundo não pode dar e que as potências das trevas não podem roubar: o dom da verdadeira paz e da alegria duradoura.

Nestes dias de Páscoa, somos convidados a fixar o nosso olhar no Mistério Pascal – a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor. No Jardim do Getsêmani, Ele assumiu sobre Si o peso da nossa ansiedade. Pela sua flagelação e coroação feita de espinhos, Ele carregou as feridas do nosso orgulho e crueldade. No madeiro da Cruz, Ele suportou a consequência última do pecado – a própria morte – para que o pecado morresse e nós vivêssemos. Mas a Cruz não foi a palavra final. A Ressurreição é a resposta definitiva de Deus. É a vitória do amor sobre o ódio, da misericórdia sobre a vingança e da vida sobre toda a forma de morte que aflige o nosso mundo.

É precisamente deste Senhor Ressuscitado que recebemos a paz e a alegria prometidas a toda a humanidade. Estas não são emoções passageiras dependentes de circunstâncias favoráveis. São os frutos da graça, plantados na alma quando abrimos o coração Àquele que venceu o mundo.

Um Tempo de Turbulência Global

No entanto, meus queridos fiéis, ao nos reunirmos na luz da Ressurreição, não podemos ignorar as sombras que ainda pairam sobre a família humana. Vivemos um tempo de profunda inquietação. O espectro da guerra mais uma vez lançou o seu manto sombrio sobre regiões inteiras. Ouvimos o rugido ensurdecedor das armas e testemunhamos a trágica loucura das nações que depositam a sua confiança em arsenais de dissuasão nuclear e na competição bélica cada vez mais crescente. Quantas mães choram por filhos perdidos nos conflitos? Quantas terras, outrora férteis de esperança, são agora queimadas pelo ódio e pela violência?

O nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV, recordou ao mundo que a proliferação de arsenais nucleares e a competição desenfreada por armamento avançado não são meramente falhas políticas; são pecados contra o futuro que Deus deseja para a humanidade. Apelou aos fiéis – na verdade, a todas as pessoas de boa vontade – para reconhecerem que a corrida ao armamento não é apenas uma questão política, mas uma profunda crise moral. Desvia recursos destinados aos pobres, gera suspeitas entre as nações e trata a vida humana como descartável. O Santo Padre implorou aos líderes mundiais que recuassem da beira do abismo, que escolhessem a diplomacia em vez da destruição e que compreendessem que a verdadeira segurança não pode ser construída sobre o fundamento do medo.

A sua voz ecoa o ensinamento de Cristo: «Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus» (Mateus 5, 9). Ser pacificador no nosso tempo exige coragem. Exige que resistamos ao cinismo que diz que a guerra é inevitável e que rejeitemos o desespero que afirma que os nossos esforços individuais não fazem diferença.

A Paz Começa no Coração

Mas se quisermos ser instrumentos de paz num mundo dilacerado pela violência, devemos primeiro permitir que o Senhor Ressuscitado estabeleça a sua paz nas profundezas dos nossos próprios corações. Este é o ponto de partida – o fundamento inegociável. Pois como podemos levar a reconciliação aos outros se permanecemos cativos da ira, do ressentimento ou de um espírito de vingança?

O Papa Leão XIV citou, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, que João XXIII foi o primeiro Papa a defender o “desarmamento integral”, que só pode ser alcançado através da renovação do coração e da mente. Na encíclica Pacem in terris, João XXIII escreve: “Todos devem estar convencidos de que nem a renúncia à competição militar, nem a redução dos armamentos, nem a sua completa eliminação, que seria o principal, de modo nenhum se pode levar a efeito tudo isto, se não se proceder a um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito, isto é, se não trabalharem todos em concórdia e sinceridade, para afastar o medo e a psicose de uma possível guerra. Mas isto requer que, em vez do critério de equilíbrio em armamentos que hoje mantém a paz, se abrace o princípio segundo o qual a verdadeira paz entre os povos não se baseia em tal equilíbrio, mas sim e exclusivamente na confiança mútua. Nós pensamos que se trata de objectivo possível, por tratar-se de causa que não só se impõe pelos princípios da recta razão, mas que é sumamente desejável e fecunda de preciosos resultados”.

A paz no coração leva à paz na família. Nos nossos lares somos chamados a ser testemunhas de paciência e reconciliação. Que os maridos e as esposas se perdoem uns aos outros, como Cristo perdoou a Igreja. Que os pais ensinem os filhos, não apenas com palavras, mas pelo exemplo de um lar onde a misericórdia reina. Que as famílias sejam igrejas domésticas, irradiando a alegria da Ressurreição a todos que se aproximam. É a isto que o Papa Leão XIV chama de paz desarmante.

Quando as famílias estão em paz, tornam-se o fermento que transforma as sociedades. Nas nossas vizinhanças, locais de trabalho e comunidades, somos chamados a ser artesãos da fraternidade. Significa rejeitar o discurso divisionista que coloca um grupo contra o outro. Significa estender a mão aos solitários, aos marginalizados e ao estrangeiro no nosso meio. Significa construir uma cultura onde a dignidade humana seja honrada desde a concepção até à morte natural.

O Caminho para a Paz Mundial

À medida que a paz se espalha dos corações para as famílias e para as sociedades, ela pode então enraizar-se nos países e entre as nações. Aqui, a tarefa é exigente. Somos chamados a rezar e a trabalhar por líderes que governem com justiça e compaixão. Somos chamados a defender políticas que elevam os pobres e protejam os vulneráveis. Somos chamados a ser vozes da razão em era de extremismos ideológicos.

O Santo Padre pediu um compromisso renovado com o diálogo, com o desarmamento e com a construção de estruturas internacionais que sirvam ao bem-comum. Ele pediu para jejuarmos e rezarmos pela paz, especialmente nas regiões onde o conflito parece intratável. Ele exortou-nos a recordar que todo o acto de violência é uma ferida no Corpo Místico de Cristo.

Cristo, a Nossa Única Esperança

Irmãos e irmãs, sejamos claros: não podemos alcançar esta paz apenas com as nossas próprias forças. Os esforços humanos, por mais nobres que sejam, fracassarão se não forem sustentados pela graça. É por isso que nos voltamos, repetidas vezes, para Cristo com os seus ensinamentos. É a sua Palavra que nos guia. É o seu exemplo que nos inspira. É a sua Paixão que nos mostra a profundidade do amor de Deus. É o seu sofrimento que O une a toda a pessoa que suporta violência e opressão. É a sua morte que destrói o poder do pecado. E é a sua Ressurreição que nos assegura que o amor tem a palavra final.

O Papa Leão XIV recordou-nos que a busca da paz entre as nações exige uma conversão da nossa imaginação colectiva. Devemos deixar de ver as outras nações como potenciais inimigas e passar a vê-las como membros de uma única família humana. A corrida aos armamentos, a acumulação de armas nucleares, a proliferação de tecnologias militares avançadas — estes não são o caminho para a segurança. São um fardo para os pobres, uma ameaça à criação e uma ofensa contra Deus, que deseja a vida, e não a morte, para os seus filhos.

Através do seu Mistério Pascal, Cristo derrama sobre nós a graça de que precisamos para nos tornarmos pacificadores. Esta graça não é uma promessa distante; é nos oferecida aqui, nos Sacramentos. Na Eucaristia, recebemos o Pão da Vida, o próprio Senhor Ressuscitado, que nos fortalece para a caminhada. Na Confissão, somos purificados dos pecados que nos separam de Deus e uns dos outros. Nestes dons sagrados encontramos a força para viver como filhos da Ressurreição.

Chamamento à Testemunha Alegre

Portanto, meus queridos fiéis, exorto-vos: que esta Páscoa seja um ponto de viragem. Não permiteis que a alegria da Ressurreição se confine apenas a estes cinquenta dias. Levai-a para o mundo. Sede testemunhas da paz numa cultura de conflito. Sede arautos da misericórdia numa sociedade muitas vezes marcada pela dureza. Sede sinais de esperança num mundo que às vezes parece ter perdido o rumo.

Rezemos diariamente pelo nosso Santo Padre, o Papa Leão XIV, para que o Senhor o sustente no seu incansável trabalho pela paz. Rezemos pelos líderes das nações, para que escolham o caminho do diálogo e do desarmamento. Rezemos por aqueles que sofrem com a guerra e a violência, para que conheçam a consolação de Cristo Ressuscitado.

E peçamos a Nossa Senhora, a Mãe do Príncipe da Paz, que interceda por nós. Ela, que esteve aos pés da Cruz, conhece as profundezas do sofrimento humano. Ela, que se alegrou diante do túmulo vazio, conhece a plenitude da vitória divina. Que ela nos guie, nos proteja e nos conduza sempre ao seu Filho.

Ele ressuscitou! Verdadeiramente, Ele ressuscitou!

Que a paz e a alegria de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam convosco todos, agora e para sempre.

Dada na Solenidade da Ressurreição do Senhor,

no ano do Senhor de 2026.

D. Stephen Lee Bun Sang

Diocese de Macau

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