MEDITAÇÕES SOBRE A QUARESMA – 4

MEDITAÇÕES SOBRE A QUARESMA – 4

Combater as tentações

As tentações são convites para praticar o mal, para cometer pecados: um pensamento de ódio, uma palavra insultuosa, não ajudar um próximo em verdadeira necessidade. As tentações fazem parte da nossa vida e acompanhar-nos-ão sempre – a todos. Kempis escreve: “A vida do homem na terra é uma tentação”. Todos nós somos tentados por três tentadores. Fora de nós: o diabo e o mundo (com os seus falsos valores). Dentro de nós: a carne (as paixões). Tentador número um: o diabo.

Abraão, Moisés, Jacob, David, os profetas… todos foram tentados – tal como nós. Jesus também foi tentado. Três vezes no deserto (pelo pão, pelo poder, pelas riquezas – cf. Lc., 4, 1–13). Satanás também o tentou através de Pedro, que lhe pediu para abandonar o caminho para o Calvário (cf. Mc., 8, 31–33). Quando estava na cruz, os transeuntes pediram-lhe que descesse da cruz (cf. Mc., 15, 29–32).

As tentações são solicitações para fazer o mal, mas também oportunidades para fazer o bem. As tentações ajudam-nos a tornar-nos fortes moralmente e espiritualmente. Além disso, alertam-nos para que tenhamos cuidado, pois sabemos que somos fracos e podemos cair. As tentações ajudam-nos a ser humildes perante Deus e a pedir a sua ajuda.

As tentações, se consentidas, são contrárias à verdadeira liberdade e ao amor – à felicidade. As provações abundam na nossa vida. De certa forma, precisamos delas: são como a madeira da nossa cruz pessoal, instrumentos para a pureza de coração e degraus para o céu, elementos da nossa conversão contínua. Santo Agostinho diz-nos: “Progredimos por meio da provação, e ninguém se conhece a si mesmo senão através da tentação, nem recebe uma coroa senão após a vitória, nem luta pela bondade senão contra um inimigo ou contra as tentações”.

Combatemos as tentações não dialogando com elas; fugindo delas o mais rápido possível, refugiando-nos na oração.

O Abade Sereno, pai do deserto, refere: “Devemos manter-nos inabaláveis em duas coisas: a primeira é que ninguém é jamais provado sem a permissão de Deus. A segunda é que tudo o que nos é enviado por Deus, quer pareça triste ou alegre no momento, é ordenado como por um Pai muito terno e um médico muito misericordioso para nosso benefício” (João Cassiano, “Conferências”).

Jesus, o Filho de Deus, caminha connosco. Nenhum homem pode defender-se das tentações que o assaltam. Só na companhia de Jesus podemos caminhar no mundo e manter as nossas vestes imaculadas. Sem Ele, estamos indefesos; com Ele, estamos a salvo (W. Barclay). Na companhia de Jesus, com o amor de Deus Pai e a graça do Espírito Santo, lutamos contra as nossas tentações. Também muito úteis: os Santos Sacramentos, a Penitência e as Penitências. Praticamos a vigilância e a oração: «Vigiai e orai, para que não caiais em tentação» (Mt., 26, 41).

Temos a certeza de uma coisa: Deus nunca permitirá que o diabo nos tente, a ti e a mim, para além das nossas forças. Além disso, Deus é fiel e «também nos dará a saída, para que possamos suportá-la» (1 Cor., 10, 13). Com a ajuda disponível de Jesus, rejeitamos o pecado e o mal, que são más companhias, e as mentiras ou “notícias falsas”. As tentações, tal como a maçã de Eva e Adão, “parecem boas para serem comidas”, mas produzem inevitavelmente – após um prazer desmedido – tristeza, remorso, trevas. Além disso, as tentações consentidas aumentam a nossa fraqueza e “conduzem ao pecado e à morte” (Catecismo da Igreja Católica n.º 2847). Com confiança, acreditamos firmemente que “a ajuda do Espírito Santo é maior do que o ataque do diabo invejoso” (São Tomás de Aquino, “Suma Teológica”).

A oração é uma das melhores armas para vencer a tentação: “A velha serpente irá tentá-lo e causar-lhe problemas, mas será posta em fuga pela oração; além disso, a porta principal ser-lhe-á fechada pelos exercícios úteis” (Kempis, “Imitação de Cristo”). Karl Rahner encoraja-nos: “Mantenha-se próximo de Deus, tenha cuidado com o círculo encantado do mal ‘que envenena’”. E acrescenta: o significado mais profundo da tentação é este: “um convite à oração; quem reza durante a tentação irá vencê-la”.

A oração humilde leva-nos ao jejum, e o jejum à esmola e ao perdão – à misericórdia. As três penitências tradicionais, em conjunto, são armas úteis para superar as nossas tentações.

A sexta petição do Pai Nosso: “Não nos conduzas à tentação” é literalmente incorrecta. Deus não nos leva à tentação: Deus «não tenta ninguém» (Tg., 1, 13). O Papa Francisco aprovou uma alteração na versão em Inglês do Pai Nosso: em vez de “não nos conduzas à tentação”, o Papa argentino aprovou “não nos deixeis cair em tentação”. Ele explicou: “Um pai não faz isso; um pai ajuda-te a levantar-te imediatamente. É Satanás que nos leva à tentação – essa é a sua função”. A alteração do Papa é, de facto, uma tradução do Espanhol “Padre Nuestro”: “No nos dejes caer en la tentación”, ou seja, “não nos deixeis cair em tentação”.

Um ponto adicional importante: somos constantemente convidados a resistir às tentações e a afastar as ocasiões pecaminosas: «Quem ama o perigo perecerá nele» (Ecl., 3, 26). “É algo perdido se não eliminarmos por completo todas as ocasiões de pecado” (Santa Teresa de Ávila).

Se usarmos as armas adequadas contra as tentações, venceremos, pois a ajuda divina está sempre disponível: “Não te desanimes, porque Ele [Deus] nunca te abandonará quando fores tentado” (São João de Ávila).

As tentações vencidas ajudam-nos a crescer em força moral e espiritual, em humildade, em amor, em santidade – em felicidade. Se as vencermos, chega-nos o consolo de Deus: «A quem vencer, darei a permissão de comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus» (Ap., 2, 7).

«O Senhor salva em tempos de desgraça» (Ecl., 2, 11). Se, infelizmente, caímos em tentação, recorremos ao nosso Pai omnipotente e misericordioso; pedimos perdão e aproximamo-nos do Sacramento da Penitência de forma adequada. Esperemos que estas tentações consentidas nos tenham ensinado a ser mais cuidadosos ao enfrentar futuras tentações – as quais virão!

E PARA CONCLUIR: Um conselho final de Kempis: “Tem coragem! Vamos avançar juntos, Jesus estará connosco. Por amor a Jesus, tomámos esta cruz; por amor a Jesus, perseveremos nela. Ele será o nosso ajudante, que é o nosso capitão e o nosso precursor” (“Imitação de Cristo”).

Pe. Fausto Gomez, OP

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