MEDITAÇÕES SOBRE A QUARESMA – 2

MEDITAÇÕES SOBRE A QUARESMA – 2

Penitência e penitências

No Sermão da Montanha, Jesus convida os seus seguidores a praticarem as três práticas habituais de penitência dos judeus: oração, jejum e esmola (cf. Mt., 6, 2–7.16–18). Desde então e até hoje, as três práticas penitenciais tornaram-se para os cristãos as práticas tradicionais e clássicas, particularmente, do tempo litúrgico da Quaresma.

A VIRTUDE DA PENITÊNCIA

O objectivo radical da Quaresma é estar mais perto de Cristo, do Senhor crucificado e ressuscitado; deixar Cristo governar as nossas vidas: «É Cristo que vive em mim» (São Paulo). O objectivo é tornar-se mais profundamente um discípulo autêntico, ou seja, estar “sempre pronto a levar o amor de Jesus aos outros” (Evangelii gaudium n.º 127). Para poder levar o amor de Jesus aos outros, precisamos possuir o seu amor e, para que isso aconteça, precisamos estar arrependidos. A Quaresma é o tempo apropriado para nos arrependermos profundamente dos nossos pecados, para recebermos o perdão e o amor de Deus e, por sua vez, para darmos aos outros o nosso perdão e o amor de Jesus.

São João XXIII escreve no seu diário: Há dois caminhos para o paraíso: a inocência e a penitência. Perdemos a nossa inocência, por isso o caminho que se nos abre é a penitência. A Quaresma é o caminho da penitência para a celebração do grande mistério da nossa fé. A Quaresma é “um tempo propício para nos prepararmos para celebrar, de coração renovado, o grande Mistério da morte e ressurreição de Jesus” (Papa Francisco, Mensagem da Quaresma, 2020).

Ligada à virtude cardeal da justiça, a penitência é uma grande virtude: um bom hábito operacional ou uma forte disposição da alma que inclina quem a possui a realizar actos de penitência. A penitência visa a destruição do pecado como ofensa a Deus, a nós mesmos, ao próximo e à criação.

A virtude da penitência é uma atitude permanente da vida cristã. A Quaresma é o tempo especial da penitência. Durante quarenta dias, os cristãos são convidados pela sua fé, pela Igreja Mãe, a praticar de forma mais profunda o bom hábito da penitência, que é principalmente uma penitência interior centrada no arrependimento: uma disposição firme da alma para renunciar ao pecado e voltar para Deus, uma inclinação permanente para mudar as nossas vidas seguindo o caminho de Cristo, o caminho da sua vida, morte e ressurreição. A virtude da penitência renova os nossos corações, os nossos amores.

A penitência básica é uma maior fidelidade à nossa vocação e missão. “Se fores apenas o que deves ser, incendiarás o mundo inteiro” (Santa Catarina de Sena). A Constituição dos Dominicanos refere: ao imitarem São Domingos, os irmãos praticam a virtude da penitência, especialmente ao observarem, fielmente, tudo o que pertence à nossa vida. Para a Família Dominicana, para todos os discípulos de Cristo, na verdade, as principais formas de penitência são: a realização de exercícios espirituais, obras de mortificação ou abnegação e obras em benefício da comunidade.

Na jornada da Quaresma, o Papa Leão XIV recomenda-nos a cultivar a escuta (a Deus e aos necessitados), a jejuar desarmando a nossa linguagem (diminuindo as palavras ofensivas e aumentando o espaço para ouvir a voz dos outros) e a estarmos unidos (contribuindo assim para a construção da civilização do amor) – cf. Mensagem da Quaresma de 2026.

ORAÇÃO, JEJUM E ESMOLA

A penitência interior, “o hábito do coração”, inclina-nos a realizar penitências exteriores, que, por sua vez, aprofundam a penitência, o arrependimento nos nossos corações.

A virtude da penitência como conversão contínua dispõe-nos a praticar, em particular, as penitências tradicionais da oração, do jejum e da esmola. Estas penitências ajudam-nos a restabelecer e a fortalecer a nossa relação com Deus por meio da oração, connosco mesmos pelo jejum e a abstinência, e com os outros através da esmola ou da misericórdia.

Os Padres (Pais) da Igreja, representantes proeminentes da Tradição Cristã, falam com veemência das três expressões clássicas da penitência, nomeadamente, a oração, o jejum e a esmola. Para eles, a oração é apresentada como direccionada para o jejum e a esmola. São Cipriano (200-250) fala da oração frutífera e infrutífera. As orações que não produzem frutos são orações sem boas acções: “A oração sem boas obras não é eficaz. A oração é boa com o jejum e a esmola. Pois Aquele que no dia do juízo final recompensará as boas obras e a esmola, hoje também escuta favoravelmente as orações que provêm das boas acções”.

Para ser uma boa acção, o jejum deve ser acompanhado pela esmola ou pela misericórdia. O jejum sem esmola é inútil no caminho para o céu. É insuficiente, como nos dizem João Crisóstomo, Ambrósio e Agostinho. São Pedro Crisólogo (406-450) escreve: “A oração, a misericórdia e o jejum constituem uma única coisa, e fertilizam-se mutuamente. O jejum é a alma da oração, a misericórdia é a força vital do jejum (…). Não podem ser separados. Portanto, se reza, jejue; se jejua, mostre misericórdia; se quer que as suas petições sejam ouvidas, ouça as petições dos outros(…). Quem não jejua pelos pobres, engana Deus. Dê aos pobres e estará a dar a si mesmo”.

Hoje precisamos de uma nova expressão de jejum: o jejum tecnológico para combater o vício tecnológico. Este tipo de jejum é necessário, pois contribui para ter mais silêncio interior, “oração em segredo” – como Jesus nos recomenda. No silêncio, podemos ouvir a voz de Deus.

O jejum não é apenas abstinência de comida e bebida, mas principalmente abstinência do pecado. Manifesta-se na prática da sobriedade e da austeridade para poder ter – como diz Santo Agostinho – o corpo sob o espírito, o espírito sob Deus; e as paixões sob a vontade, e a vontade sob a vontade de Deus.

Somos peregrinos a caminho da vida eterna. No caminho para a felicidade, para a santidade, para a alegria da Páscoa, três coisas são essenciais: a oração, o jejum e a esmola. Frei Luís de Granada (1504-1588) explica que precisamos das três coisas nas nossas vidas: a oração porque nos liga a Deus; o jejum ou a mortificação porque põe ordem nas nossas vidas e a esmola porque nos liga aos nossos vizinhos, em primeiro lugar aos necessitados e aos pobres. Podemos acrescentar que a penitência também nos liga à criação de Deus, que temos de cuidar e cultivar e não explorar ou destruir.

ESMOLA E PERDÃO

O Senhor diz: “Perdoai, e sereis perdoados; dai, e vos será dado” (cf. Lc., 6, 37-38). A compaixão ou misericórdia – um efeito da caridade, com paz e alegria – é a virtude mais importante em relação aos outros. A misericórdia compreende não só a obra corporal da misericórdia, mas também a obra espiritual da misericórdia. Assim, Santo Isidoro de Sevilha (560-636) fala de dois tipos de misericórdia: corporal, ou dar aos necessitados o que se pode; e espiritual, ou perdoar quem nos ofende. São Isidoro comenta: a primeira, ou seja, a obra corporal da esmola, é praticada com os indigentes; e a segunda, ou seja, a obra espiritual de perdoar os outros, é praticada com os pecadores. Assim, ele conclui: “você sempre poderá dar algo: se não for dinheiro, pelo menos o perdão”.

Qual é o tipo de penitência, de jejum, que o Senhor quer que façamos? O Senhor continua a responder-nos através do seu profeta Isaías: Deus quer um jejum que quebre as correntes da injustiça, que partilhe a comida com os famintos, que traga para a sua casa os necessitados sem abrigo, que vista o homem que vê nu e não se afaste dos seus parentes (cf. Is., 58, 6-7).

Neste contexto, recordamos as parábolas de Jesus sobre o homem rico e o pobre Lázaro (cf. Lc., 16, 19–31) e sobre o juízo final (cf. Mt., 25, 31–46): tive fome e destes-me de comer…

Que a oração, o jejum e a esmola aprofundem a virtude da penitência nos nossos corações e nos levem a aproximar-nos do Sacramento da Penitência ou Reconciliação. A virtude da penitência implica “a vontade de receber o Sacramento do perdão dos pecados” (K. Rahner), os nossos pecados contra Deus, contra nós mesmos, contra o próximo, contra o próximo pobre e contra a criação.

Pe. Fausto Gomez, OP

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *