O que diz Macau?
Líder conciliador, doutrinalmente sólido e atento aos sinais dos tempos. Um ano depois de ter sido eleito Papa, o até então cardeal D. Robert Francis Prevost parece ter convencido os católicos de Macau. A’O CLARIM, três personalidades ligadas à Igreja local disseram que Leão XIV soube serenar a Igreja universal, ao mesmo tempo que a manteve aberta aos problemas do mundo.
O Papa Leão XIV celebrou na passada sexta-feira, 8 de Maio, o primeiro aniversário do seu Pontificado com uma deslocação ao Santuário da Bem-Aventurada Virgem Maria do Santo Rosário, em Pompeia (Itália). A data coincidiu com a Festa de Nossa Senhora de Pompeia, a quem Robert Francis Prevost invocou na sua primeira aparição pública, depois de ter sido eleito como sucessor de Pedro. Há um ano, na apresentação à multidão expectante que aguardava pelo anúncio da eleição pontifícia, Leão XIV dirigiu-se à cidade e ao mundo com a mais importante das saudações da fé cristã, “A Paz Esteja Convosco”.
Volvido um ano, a aclamação do Santo Padre, considera a Irmã Veronica Cruz, LSMN, ganha uma dimensão bem mais profunda. A religiosa da Congregação das Irmãzinhas de Maria de Nazaré considera que a defesa intransigente da paz é o aspecto mais marcante do primeiro ano deste Pontificado, o qual elogia por ter estabelecido desde cedo o rumo que pretende incutir aos destinos da Igreja.
«As primeiras palavras do Papa Leão XIV quando saiu para a varanda e se apresentou perante as multidões que estavam na Praça de São Pedro foram “Que a Paz Esteja Convosco”. Ao repetir a saudação que Cristo Ressuscitado endereçou aos seus discípulos, o Santo Padre estabeleceu de imediato a linha que tenciona incutir ao seu Pontificado», defende a Irmã Veronica Cruz. «Apesar de ser afável e gentil por natureza, Leão XIV mantém-se determinado perante os desafios internos e externos com que se depara a Igreja. Na sua primeira Exortação Apostólica, publicada a 4 de Outubro de 2025, o Papa dedicou uma atenção especial ao amor pelos pobres, ao mesmo tempo que ousou desafiar as elites económicas. Em muitas das suas intervenções, destaca o carácter sagrado da família. Acabou ainda por se revelar como um acérrimo oponente do conflito, ao considerar a paz “um dever universal” e ao instar o mundo a rejeitar a lógica da guerra», acrescenta.
A apologia, feita por mais de uma ocasião, de “uma paz desarmada e desarmante” é para Francisco Viseu Pinheiro uma das mensagens centrais do primeiro ano do Pontificado de Leão XIV. A oposição frontal ao conflito que grassa no Médio Oriente gerou tensões diplomáticas, nomeadamente com o Governo norte-americano de Donald Trump, mas o arquitecto e professor visitante da Universidade de São José considera que a defesa acérrima da paz reforçou a voz moral da Igreja, numa altura em que os povos do mundo assistem a uma corrida ao rearmamento. «A guerra é o grande desafio do nosso tempo. São vários os conflitos que estão a decorrer – na Ucrânia, no Sudão, no Congo e agora também no Irão – e o Papa tem insistido na necessidade de reconciliação e de diálogo, como alternativa à guerra. Tem feito a apologia de uma paz duradoura. O Papa tem vindo a falar de uma paz desarmante, de uma paz sem armas e tem vindo a erguer a voz contra as armas nucleares», salienta Francisco Viseu Pinheiro. «Leão XIV foi muito claro quando o presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou destruir uma civilização e bombardear o Irão, ao dizer que um passo dessa índole não é aceitável moralmente. Pessoalmente, acho que o Papa teve muita coragem ao dizê-lo ao Presidente dos Estados Unidos».
A OPINIÃO DO PADRE DANIEL RIBEIRO, SCJ
Sob o signo da conciliação
O primeiro ano de Leão XIV à frente dos destinos da Igreja Católica ficou também pautado por um apelo à reconciliação não apenas entre os povos, mas dentro da própria Igreja. O Pontífice realizou viagens apostólicas a zonas de tensão (Turquia, Argélia e Líbano, por exemplo) e a vários países africanos, onde criticou a exploração de recursos e incentivou os jovens a permanecerem no continente e a trabalharem em prol do desenvolvimento dos seus países de origem.
Para o padre Daniel Ribeiro, SCJ, a visita a Hipona, a cidade onde outrora viveu Santo Agostinho, foi um dos momentos que melhor definiram o primeiro ano de Pontificado. No entanto, há um outro aspecto a que o padre Daniel dá maior ênfase: «Demonstrou uma sensibilidade muito particular ao visitar África, nomeadamente a Argélia, região onde viveu Santo Agostinho. Muito possivelmente foi a primeira vez que um Papa lá esteve. Ao mesmo tempo em que se mostrou um Papa missionário, foi também extremamente conciliador. Existiam muitos conflitos e tensões internas na Igreja e ele soube lidar com elas». Mais – continuou – «manteve algumas das características do Papa Francisco, como sejam o diálogo com o mundo e o acolhimento dos que mais sofrem, também voltou a alguns dos valores que tinham sido ressaltados pelo Papa Bento XVI, como seja o respeito e o zelo pela Liturgia. É uma pessoa com uma posição muito clara, que não deixa dúvidas sobre aquilo que são os ensinamentos da Igreja. Deixou claro que a Igreja existe não para agradar o mundo, mas para apresentar a mensagem de Cristo».
Perante os desafios que a Igreja Católica enfrenta actualmente, o padre Daniel acredita que o Santo Padre já mostrou ser o homem certo no lugar certo. «Leão XIV teve a coragem de dizer as coisas certas e de continuar a motivar a unidade interna da Igreja. Estes são os maiores desafios: a questão dos conflitos que grassam no mundo e a capacidade para criar cada vez mais a unidade interna na Igreja, ouvindo a todos, sem deixar de defender e de pregar aquilo que é a doutrina real da Igreja», rematou o missionário dehoniano.
Marco Carvalho

Follow