Uma Experiência Missionária
Sempre acreditei que a missão significa levar a Boa Nova às pessoas, guiando-as para um encontro com o amor de Deus. Estava ciente de que a graça do Espírito Santo estaria a actuar, movendo os corações para a conversão. Isso deu-me a confiança necessária para avançar com a convicção de que o Senhor providenciaria o que faltava.
No entanto, após a minha experiência de um mês na Índia, a minha perspectiva mudou profundamente. Sem deixar de lado o que pensava anteriormente, compreendo agora que o próprio acto de fazer missão é fruto de um encontro. A missão não se resume apenas a ter uma mensagem para proclamar; trata-se de nos deixarmos tocar, transformar e renovar pelas pessoas que encontramos. Trata-se de reconhecer que elas também têm uma mensagem para mim, que eu também sou uma peregrina, a caminhar com os outros, sempre necessitada de conversão e cura, que podem surgir inesperadamente, pois é a providência de Deus que permite que as coisas aconteçam. Daí a necessidade de estar aberta a receber ou a ouvir, a qualquer momento, o apelo à conversão.
A 24 de Abril de 2026, juntamente com outra Irmã da minha comunidade, cheguei a uma aldeia chamada Dudumpadar. Está rodeada por muitas árvores e campos de milho, que constituem o meio de subsistência da população local. No entanto, como não era época das chuvas, os campos estavam completamente secos. A população da aldeia é composta por cerca de vinte famílias. Após a chegada do Padre Matthew Vadasseri, SCJ, em 2020, a maioria delas tornou-se católica.
No ano anterior, em Setembro de 2025, o Padre Eduardo Emilio Agüero, SCJ, juntamente com uma Irmã da minha Congregação, visitou a missão do Padre Matthew, que é também o pároco. Durante a visita, o Padre Eduardo reparou que as crianças locais se aproximavam do Padre Matthew durante as refeições e que ele partilhava a sua própria comida com elas. Quando questionado sobre o motivo, explicou que não tinham comida suficiente em casa. Comovido pela compaixão ao regressar a Macau, o Padre Eduardo organizou uma actividade de angariação de fundos em Novembro desse mesmo ano. Graças à generosidade dos paroquianos das paróquias do Carmo e da Sé Catedral, foi angariada uma quantia em dinheiro que foi enviada ao Padre Matthew. Com esse montante, ele conseguiu iniciar um programa de alimentação para vinte crianças em Dudumpadar e trinta em Gamakapadar, localizadas no Distrito de Koraput, em Odisha, na Índia.
Embora o programa de alimentação tenha começado logo após a primeira visita, o Padre Matthews reservou a inauguração oficial para 26 de Abril, no início da nossa visita. Esse foi, para mim, o primeiro contacto com as crianças. Fiquei imediatamente cativada pelos seus rostos sorridentes e pelo seu comportamento; senti a ligação e a comunhão ocultas que nos uniam e que foram crescendo com o passar dos dias. Todas elas vieram buscar os seus pratos e sentaram-se no chão. O Padre Matthews rezou a oração de bênção da comida e elas esperaram até que as servíssemos. As crianças comportaram-se educadamente e, depois de receberem a comida, olharam para nós com gratidão expressa nos seus olhos brilhantes. No final, uma a uma, lavaram os pratos, pegaram na vassoura e no esfregão e limparam o local. E isto repetia-se todos os dias.
À medida que os dias passavam, percebi que não tinham quase nada – nem brinquedos, nem telemóveis, nem eletricidade em algumas casas, e o tempo estava muito quente! Fiquei espantada por conseguirem andar sem sapatos…! Todos os dias tínhamos missa às 7 horas e 30 da manhã e, à noite, a Adoração do Santíssimo Sacramento. Mal conseguia manter-me em oração, sentindo o meu corpo encharcado de suor, e à noite era difícil dormir porque, normalmente, não havia electricidade. Foi então que compreendi que precisava de uma forma de permanecer orientada pela fé, que desse sentido ao que estava a viver. A resposta surgiu rapidamente: oferecer-me totalmente a esta missão. O encontro pessoal tornou-se possível porque não opus resistência. Deixei-me levar e fiquei verdadeiramente comovida com o lugar, as pessoas, as crianças… com Deus, e a minha primeira perspectiva mudou.
Não nos foi possível aprender a língua deles. As crianças vinham aprender Inglês connosco e, apesar das limitações, conseguimos cantar, brincar, rezar, conviver e aprender juntos… Sinto que esta foi a mensagem que Deus queria que eu aprendesse: não fazer muitas coisas, mas amar e ser um deles, sem medo nem preconceitos. Tudo é graça de Deus, que nos move, nos abre e nos transforma.
Regressei a Macau com o coração cheio de tantas memórias lindas que não têm preço. E o meu desejo é que muitos possam vivenciar o que eu senti. O amor de Deus que as pessoas precisam de experimentar não se transmite apenas pela palavra. Este amor encarna-se nas nossas palavras, acções, silêncios, orações… com os seus nomes e rostos a acompanhar-nos como fruto desse mesmo amor.
Agora oficialmente lançada, a visão final do Padre Matthews é estabelecer este programa, apropriadamente denominado “Wheat and Wisdom” (“Trigo e Sabedoria”), em mais seis aldeias. Através deste serviço, o Padre procura integrar alimentação e educação, nutrindo tanto o corpo como a mente das crianças para lhes construir um futuro melhor.
Que a intercessão da Santíssima Virgem Maria, que foi visitar a sua prima Isabel apressadamente, nos ajude a ser discípulos fiéis que escutam a Palavra de Jesus e se tornam missionários. Que também nós nos apressemos a estar ao lado dos nossos irmãos e irmãs com uma atitude de serviço cheia de alegria e compaixão.
Irmã Veronica Cruz, LSMN

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