IRMÃ MYRI, MONJA EM QARA, NA SÍRIA, EM DECLARAÇÕES À AGÊNCIA ECCLESIA

IRMÃ MYRI, MONJA EM QARA, NA SÍRIA, EM DECLARAÇÕES À AGÊNCIA ECCLESIA

«Os jovens cristãos querem emigrar porque não vêem futuro»

Religiosa portuguesa está na Síria desde 2008 e falou à ECCLESIA sobre o projecto que as Monjas da Unidade de Antioquia têm para «juntar jovens cristãos», ajudá-los a permanecer e a cuidar das raízes do Cristianismo.

A Irmã Myri, da Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia, actualmente no Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, na Síria, onde chegou em 2008, disse que os jovens cristãos querem emigrar porque não conseguem sonhar.

«Os jovens sentem muita instabilidade à volta e não vêem futuro. Têm medo, sentem muita insegurança. A questão económica também é muito difícil. Se não há uma visão para o futuro para os jovens, eles querem ir embora, querem ter um bocadinho de paz. Não estarem sempre preocupados com o que vão comer, como se vão aquecer. Percebem que têm necessidades que não conseguem satisfazer», contou a religiosa à ECCLESIA.

Neste momento, a comunidade do Mosteiro tem um projecto – «precisamos de ajuda monetária, para que os jovens cristãos se conheçam, se juntem e percebam a sua vocação».

«É muito importante juntar os jovens, fazer com retiros espirituais para que percebam a sua vocação cristã. Aqui, no Médio Oriente, é importante guardar as raízes da Cristandade. O Cristianismo aqui é muito grande. Mas é preciso dar essa consciência aos jovens que isso é muito mais importante que ter uma vida confortável», explicou.

A dez quilómetros da fronteira com o Líbano, a Irmã Myri vive com oito religiosas, dois padres e algumas pessoas que residem no Mosteiro, «para beber da vida da comunidade».

«O nosso dia-a-dia é muito marcado pela comunidade: tanto podemos fazer dias inteiros de silêncio, como só de manhã ou de tarde, dedicando também trabalho da comunidade no exterior. Chamamos a oração do coração – é a maneira oriental, tem muito a ver com as condições da comunidade. Neste momento a tendência é fazer dias de retiro, de silêncio», referiu.

Nascida no Milharado, em Mafra, no patriarcado de Lisboa, a religiosa dá conta de um crescimento na família «rico em relações» e de uma sede de Deus que não conseguia entender e que, «quase» a levou a afastar-se da Igreja, uma vez que a procura espiritual e as «perguntas intelectuais» não coincidiam.

Durante sete anos, a Irmã Myri viveu na Família Monástica de Belém, em Israel, até que sentiu que o seu caminho de discernimento poderia ser desenvolvido junto da Madre Agnès-Mariam de la Croix, da Congregação das Monjas da Unidade de Antioquia, que ajudou a restaurar o Mosteiro de São Tiago Mutilado, em Qara, procurando preservar a presença dos cristãos naquele local.

«Só na Síria consegui perceber a noite escura dos sentidos que atravessei e dar nome ao que sentia», revelou.

Chegada em 2008, a Irmã Myri conheceu a Síria antes, durante e depois da guerra, e diz que permanece naquele local porque «Deus assim o pede».

«Não se pode ter uma vida regular. Há sempre qualquer coisa que se passa. É sempre incerto. As dificuldades económicas são ainda muitas. Não está melhor que antes. Há uns dias houve alguém que nos disse que ia haver uma manifestação em Damasco porque as pessoas estão fartas de quase não ter como viver. O salário não chega para viver durante o mês. Os preços são altíssimos. Mesmo antes desta crise da guerra com o Irão», notou.

«Uma pessoa dizia-me há dias “a minha filha vê bananas no mercado e não lhe posso dizer sempre que não, mas é complicado”. Agora os preços são altos. Certamente que muitas vezes não têm para comer mais do que uma vez por dia, imagino», acrescentou.

Questionada como é viver em constante instabilidade, a religiosa explicou a habituação a anos de guerra. «Nós já estamos habituados. [A guerra] já esteve mais em cima das nossas cabeças. Fomos bombardeados várias vezes. Na última libertação, no fim de 2013, podíamos ter morrido todos. Eles podiam ter bombardeado o mosteiro todo. Para dizer a verdade, a guerra foi uma das coisas que me fez crescer espiritualmente. É preciso lançar-se nas mãos de Deus».

In ECCLESIA – texto editado

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