Alimentando os famintos: Sérgio IV
SÉRGIO IV
(31.VII.1009 – 12.V.1012)
O nome original do 142.º Papa era invulgar. Chamava-se Pietro Martino Buccaporci, que significa Pedro Martinho Focinho de Porco. Um historiador afirma que “Buccaporci” não parece ter sido o seu primeiro nome nem o seu apelido, mas sim uma alcunha que recebeu devido aos seus hábitos pessoais (cf. Alphonsus Ciaconius [Alfonso Chacón]. 1677. Agostinus Olduinus [ed.]. Vitae et res gestae pontificum romanorum: et S.R.E. cardinalium Vol. Tomus primus. Roma: P. et A. De Rubeis. Pág. 765).
O pai de Pietro, também chamado Pietro, era sapateiro. As suas origens humildes não foram obstáculo para que Pedro (o filho) subisse na hierarquia. Acabou por se tornar bispo da diocese suburbicária de Albano (as dioceses suburbicárias são sete dioceses católicas na área imediata que circunda Roma, tradicionalmente atribuídas como sedes titulares para os cardeais de mais alto escalão, chamados “Cardeais-Bispos”).
Após a abdicação do Papa João XVIII, no Verão de 1009, João Crescêncio III, que controlava Roma naquela época, escolheu a dedo e elevou Pedro ao trono papal. Uma vez eleito, Pedro adoptou o nome de Sérgio IV.
À semelhança dos seus predecessores, João XV (985-996), João XVII (1003) e João XVIII (1004-1009), o Papa Sérgio era praticamente um “fantoche” do clã dos Crescêncios, pois não tinha poder temporal independente. Apesar disso, o Papa resistiu discretamente ao controlo político absoluto de Crescêncio III, fortalecendo-se e alinhando-se com a facção política que favorecia o rei alemão (e Sacro Imperador Romano-Germânico) Henrique II.
Durante o seu breve Pontificado, Roma sofreu graves dificuldades económicas e uma escassez de alimentos avassaladora. Sérgio, conhecido pela sua piedade, inteligência e amor aos pobres, manobrou com habilidade em torno de Crescêncio para utilizar os recursos limitados que possuía para organizar e financiar pessoalmente os esforços de ajuda à população que passava fome.
Como antigo bispo de Albano, Sérgio IV utilizou as propriedades agrícolas e os celeiros controlados pela Igreja fora de Roma para garantir cereais e contornar os bloqueios dos nobres locais. Além disso, recorreu a redes monásticas para organizar cozinhas comunitárias locais e distribuir rações básicas directamente a viúvas, peregrinos e desamparados.
Finalmente, como vários nobres que não pertenciam ao clã dos Crescêncios colocaram voluntariamente as suas terras sob a protecção papal oficial para se protegerem de Crescêncio III, Sérgio IV usou a sua influência moral para garantir que estas propriedades ajudassem a alimentar a população faminta da cidade.
A 18 de Outubro de 1009, o califa fatímida Al-Hakim bi-Amr Allah ordenou, de forma chocante, a destruição da igreja do Santo Sepulcro (que alberga o túmulo onde o corpo de Jesus foi sepultado e é também o local da Sua Ressurreição) em Jerusalém. A notícia chegou a Roma durante o reinado de Sérgio, causando uma enorme onda de choque geopolítico em toda a Cristandade ocidental. Os cristãos foram proibidos de visitar o local em ruínas por quase quarenta anos. Em 1027-1028, o successor de Al-Hakim, Al-Zahir, chegou a um acordo com o Império Bizantino, permitindo a reconstrução da igreja. Um complexo menor e modificado foi concluído por volta de 1048. A destruição serviu como um grito de guerra para a Primeira Cruzada.
A exemplo dos seus predecessores, Sérgio IV continuou a apoiar os mosteiros, isentando vários deles do poder excessivo dos bispos locais. Com esta acção protegeu comunidades religiosas menores de senhores locais gananciosos e vinculou-as directamente à protecção da Santa Sé. Como já referido, estes mosteiros foram fundamentais para ajudar a aliviar o sofrimento durante a grave fome que assolou Roma.
No que concerne ao cisma latente entre as Igrejas Latina e Grega, as tensões com a Igreja Oriental aumentaram quando Sérgio IV concedeu privilégios especiais à arquidiocese de Benevento, um territorio que o Império Bizantino acreditava firmemente estar sob a sua própria autoridade imperial.
O Pontificado de Sérgio IV chegou a um fim repentino em Maio de 1012. Suspeitosamente, tanto o Papa Sérgio IV quanto João Crescêncio III morreram com apenas uma semana de diferença. Este momento altamente invulgar levou a uma ampla especulação histórica de que ambos os homens foram assassinados ou envenenados em resultado de um golpe político orquestrado pela facção rival dos Tusculanos, que assumiu imediatamente o controlo de Roma logo após a morte daqueles.
Pe. José Mario Mandía

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