JOÃO XVIII

GUARDIÕES DAS CHAVES – 79

Lidar com um cisma latente: João XVIII

JOÃO XVIII

(25.XII.1003 – VI ou VII.1009)

À semelhança de três outros Papas e dois antipapas antes dele, João Fasano tornou-se Papa através da influência da família Crescêncio. Mais dois Papas patrocinados pelos Crescêncios e um antipapa seguir-se-iam a João XVIII. Após a morte do sacro imperador romano-germânico Otão III e o consequente colapso da autoridade imperial em Roma, João Crescêncio III havia assumido o controlo da cidade. Crescêncio seleccionou o cardeal João Fasano e instalou-o como o 141.º Bispo de Roma.

O Papa João XVIII quase não tinha poder político em Roma. O seu reinado foi constantemente perturbado por conflitos militares contínuos entre o sacro imperador romano-germânico Henrique II e Arduíno de Ivrea, que reclamavam ambos o Reino de Itália. A nível local, Roma e os seus territórios circundantes foram fortemente afectados por surtos recorrentes de peste, enquanto os piratas sarracenos do Emirado da Sicília saqueavam rotineiramente as costas tirrenas de forma totalmente desimpedida.

Um Papa que não exerce poder político é vantajoso para a Igreja. João XVIII pôde focar os seus esforços na evangelização, na administração da Igreja e na diplomacia eclesiástica externa.

O Santo Padre conseguiu continuar o trabalho de expansão das Missões Esclavas. Apoiou o objectivo do imperador Henrique II de difundir o Cristianismo, autorizando a fundação da diocese de Bamberga em 1007. Esta diocese serviu como uma base estratégica vital para o trabalho missionário direccionado às populações esclavas. Também restabeleceu a Sé de Merseburgo para expandir a influência da Igreja.

João XVIII também foi capaz de defender a autoridade papal e os direitos monásticos. Quando o arcebispo de Sens e o bispo de Orleães ultrapassaram as suas competências em França – tentando forçar o abade de Fleury a queimar documentos papais e a ignorar os privilégios concedidos pelo Papa –, João XVIII interveio de forma enérgica. Ameaçou os bispos franceses com pesadas censuras eclesiásticas e convocou-os ao seu tribunal, defendendo com sucesso a autoridade suprema de Roma sobre os direitos monásticos.

Uma das conquistas mais importantes de João XVIII na unidade da Igreja foi o estabelecimento de uma paz e reconciliação temporárias entre as Igrejas Ocidental (Católica) e Oriental (Bizantina). Aquela época foi um período frágil entre dois Cismas – o Cisma de Fócio, no Século IX (quando Roma e Constantinopla estiveram divididas, de 863 a 867), e o definitivo Grande Cisma do Oriente de 1054 (quando a Igreja Latina e a Igreja Ortodoxa Oriental se separaram).

A tensão resultava de quatro pontos de discórdia:

O primeiro litígio era sobre o poder e a autoridade. Roma insistia no Primado Papal, argumentando que o Papa era o líder supremo de toda a Igreja Cristã global, detendo autoridade directa sobre todos os outros bispos. Por outro lado, a Igreja Bizantina e o imperador em Constantinopla viam a Igreja através do conceito da Pentarquia. Acreditavam que o mundo cristão deveria ser governado igualmente por cinco grandes Sés patriarcais (Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém). Reconheciam o Papa apenas como um primum inter pares (“o primeiro entre iguais”) e não como um governante supremo.

O segundo ponto de discórdia era teológico, centrado no Credo Niceno. A Igreja Ocidental tinha começado a inserir a palavra latina Filioque (“e do Filho”) no Credo, afirmando que o Espírito Santo procede tanto do Pai como do Filho. A Igreja Oriental rejeitou veementemente esta inserção, tanto por motivos teológicos (acreditando que o Espírito procede apenas do Pai) como por motivos canónicos, argumentando que o Ocidente não tinha o direito de alterar unilateralmente um Credo universal.

A isto somava-se o aprofundamento da fractura cultural e linguística. O Ocidente usava o Latim, enquanto o Oriente usava o Grego. Isto criou profundas barreiras de comunicação e uma suspeição mútua de heresia. Além disso, os dois lados divergiam regularmente sobre variadas disciplinas da Igreja. O Ocidente impunha o celibato clerical e usava pão ázimo (sem fermento) para a Eucaristia. O Oriente permitia que os sacerdotes casassem e utilizava estritamente pão levedado.

Por último, existiam confrontos geopolíticos no Sul de Itália. Esta era uma zona altamente disputada, onde as terras imperiais bizantinas faziam fronteira com os territórios ocidentais. Sempre que o Papa ou o sacro imperador romano-germânico tentavam expandir as dioceses latinas ou estabelecer bases missionárias perto de terras sob controlo bizantino, Constantinopla via tal realidade como uma invasão eclesiástica agressiva.

João XVIII escolheu sabiamente uma política de desanuviamento e diplomacia. Suavizou as posições agressivas de Roma em matéria de autoridade, resultando numa rara era de paz. Teve tanto sucesso na mitigação destas tensões que o Patriarca de Constantinopla restaurou o nome de João XVIII nos dípticos bizantinos (objectos de arte de dois painéis feitos de marfim esculpido, madeira ou metal, unidos por dobradiças como um livro; continham listas de nomes de bispos vivos e mortos, benfeitores e patriarcas, lidas em voz alta durante a liturgia como sinal de que essas pessoas faziam parte da comunhão). Isto significava que, durante uma breve janela de tempo, a Igreja grega reconheceu activamente o Papa como um Bispo de Roma legítimo e ortodoxo, rezando por ele durante as liturgias orientais – uma paz que se desmoronaria por completo apenas 45 anos mais tarde, em 1054.

Os registos históricos sugerem que João XVIII abdicou do Papado, possivelmente sob pressão ou força do cenário político instável em Roma. Retirou-se para o mosteiro de São Paulo Extramuros, onde viveu os seus restantes dias como monge e viria a ser sepultado.

Pe. José Mario Mandía

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