Papas Bento VII e João XIV

GUARDIÕES DAS CHAVES – 76

A resistência a Bonifácio VII e à família Crescentii: Papas Bento VII e João XIV

BENTO VII

(X.974 – 10.VII.983)

O antipapa Bonifácio VII teve dois reinados breves, em 974 e, depois, de 984 a 985. Apoiado pela poderosa família Crescentii (descendentes e rivais políticos da família Teófilacto), Bonifácio é famoso por ter alegadamente mandado estrangular o Papa Bento VI (973-974). Da mesma forma, aprisionou e deixou morrer de fome o Papa João XIV (983-984).

De facto, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Otão II, enviou o conde Sicco a Roma, em 974, para garantir a libertação do Papa Bento VI, que se encontrava preso. Em vez de o entregarem, os captores estrangularam o Pontífice. O povo ficou indignado e Sicco obrigou posteriormente o antipapa Bonifácio VII a fugir da cidade para Constantinopla, levando consigo uma vasta fortuna do tesouro do Vaticano.

“O imperador Otão II e a sua mãe, Santa Adelaide, desejavam que Maiol, abade de Cluny, assumisse o trono papal. Mas Maiol recusou firmemente. Considerava que era seu dever, bem como sua preferência, continuar a governar o rebanho monástico que lhe fora confiado. Otão escolheu então Bento, o bispo de Sutri” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 272).

O 135.º Pontífice Romano era um “homem de grande virtude. Tentou conter a devassidão e a vergonhosa ignorância que imperavam na Itália e no mundo cristão” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”).

Depois de Bonifácio ter fugido para Constantinopla, Bento convocou um sínodo para excomungar o antipapa.

Em 980, Bonifácio aproveitou a ausência de Bento para lançar um golpe e retomar, por breves momentos, o Latrão. Bento apelou ao imperador Otão II, que enviou tropas para Roma em 981, obrigando Bonifácio a fugir de volta para Constantinopla.

Contar com um poder secular tem sempre os seus prós e contras. Embora o imperador Otão II tenha proporcionado protecção e segurança ao Papado, por vezes o Papa também teve de ceder aos desejos imperiais em detrimento da difusão da Fé. Em Setembro de 981, o Papa Bento VII suprimiu e dissolveu a diocese alemã de Merseburgo num Sínodo do Latrão, instado pelo imperador Otão II e seguindo as ambições do bispo Gisiler de Merseburgo. Este pretendia tornar-se arcebispo de Madeburgo, o que exigia a dissolução de Madeburgo. Os historiadores consideram a supressão um grave erro que prejudicou o trabalho missionário cristão entre os eslavos. Esta medida perturbou a infraestrutura missionária local, enfraqueceu a supervisão eclesiástica regional entre os eslavos polábios e sorábios, e desencadeou uma grave instabilidade política que contribuiu para a Grande Revolta Eslava anticristã de 983. Pouco mais de vinte anos depois, por volta de 1004, o Papa João XVIII restaurou a diocese de Merseburgo a pedido do rei alemão Henrique II, na sequência da morte do arcebispo Gisiler.

Ainda em 981, o Papa Bento VII convocou um sínodo que emitiu um decreto rigoroso e uma carta encíclica proibindo a simonia (a cobrança de dinheiro em troca de ordens sagradas) e que abordou a degradação da disciplina eclesiástica. “O Papa acrescentou que, se algum bispo eleito não pudesse ser consagrado sem pagar dinheiro ao metropolita, poderia vir a Roma e ser consagrado lá” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 272). Sacramentalmente e por ordenação, um metropolita é igual a qualquer outro bispo, mas tem um papel de supervisão e coordenação sobre as dioceses vizinhas na sua área.

Bento VII continuou a defender o monaquismo, concedendo muitos privilégios aos mosteiros e apoiando a reforma monástica. A sua preocupação paternal levou-o a responder aos apelos desesperados de comunidades cristãs como Cartago (que há muito se encontrava sob domínio muçulmano), consagrando um bispo para ajudar a revitalizar a Igreja enfraquecida no Norte de África.

JOÃO XIV

(XI ou XII.983 – 20.VIII.984)

Após a morte do Papa Bento VII, o imperador Otão II escolheu Pedro Canepanova, antigo bispo de Pavia e chanceler do Reino de Itália, como sucessor. Tal foi feito sem a tradicional consulta ou eleição formal pelo clero e pelo povo de Roma. Pedro adoptou o nome papal “João” para evitar usar “Pedro”. “Apesar de ser um homem de grande energia e virtude, foi eleito em resultado de intrigas” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”).

No entanto, poucos dias após a consagração de João XIV, o imperador Otão II faleceu em Roma. Isto deixou João XIV sem um patrono e protector. Enfrentou então uma oposição feroz por parte da poderosa família Crescentii.

O antipapa Bonifácio VII aproveitou rapidamente a oportunidade para regressar de Constantinopla em Abril de 984, trazendo consigo ouro e dinheiro para garantir a sua posição. Bonifácio destituiu João XIV e lançou-o nas masmorras do Castelo de Santo Ângelo. Morreu de fome após quatro meses de prisão.

Pe. José Mario Mandía

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