Prisioneiros no Castelo de Santo Ângelo: João XIII e Bento VI
JOÃO XIII (1.X.965 – 6.IX.972)
O 133.º Pontífice Romano foi eleito, por unanimidade, pelo clero e pelo povo romano, depois de o imperador do Sacro Império Romano, Otão I, o ter apoiado e de a nobreza romana ter concordado – ainda que com relutância – com a escolha do imperador. Assim, Otão I assegurou o controlo sobre Roma. No entanto, a situação instável causada pelo frequente braço-de-ferro entre a aristocracia romana local e Otão I continuou a atormentar o Pontificado de João XIII.
“João XIII, tal como João XII, era membro da casa de Teofilacto [a Dinastia fundada por Teofilacto I e pela esposa Teodora, a Velha, herdada pela filha Marózia e, mais tarde, pelo filho Alberico II. O filho de Alberico tornou-se o Papa João XII. João XIII era filho da irmã de Marózia, Teodora, a Jovem]. João XII poderia ter sido chamado de João, o Mau; João XIII foi chamado de João, o Bom. O pai de João XII, também chamado João, casara-se com Teodora, a Jovem, irmã da famosa Marózia. Mais tarde, tornou-se bispo. (…) O próprio João, ao contrário de João XII, foi criado de forma rigorosa e educado em Latrão com os jovens clérigos. Serviu na chancelaria papal, participou na condenação do seu parente, João XII, e depois na sua restauração. Com uma reputação de erudição e virtude, tornou-se bibliotecário papal e, posteriormente, bispo de Narni” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 268).
Como João XIII era o candidato escolhido a dedo pelo imperador Otão I, a nobreza romana via-o como um fantoche estrangeiro (tal como acontecia com Leão VIII). Os rebeldes capturaram e prenderam o Papa no Castelo de Santo Ângelo. João XIII conseguiu fugir para Cápua, onde reuniu forças leais. O imperador também veio em seu auxílio. Em 966, Otão I marchou sobre Roma com um exército imponente, restaurou João XIII no trono e executou brutalmente os líderes rebeldes.
João XIII era mais conhecido como reformador. A relação próxima com Otão proporcionou-lhe um período de estabilidade.
Tal como muitos Papas anteriores, o Papa João XIII continuou a apoiar a difusão das reformas cluniacenses, impondo uma adesão mais rigorosa à Regra de São Bento para combater a corrupção nos mosteiros.
Com o apoio do imperador, suprimiu os abusos da investidura laica, reduzindo o controlo que os senhores da guerra romanos locais e as famílias nobres exerciam sobre a escolha de bispos e funcionários da Cúria. Além disso, fez cumprir a disciplina canónica relativa ao celibato clerical e combateu a simonia (a venda de cargos eclesiásticos).
O Papa João XIII expandiu igualmente o alcance da Igreja na Europa, com a ajuda do imperador.
(1) Elevou Magdeburgo a uma poderosa Sé Metropolitana para consolidar o trabalho missionário entre os povos eslavos. Quando Otão I faleceu, em Maio de 973, o seu corpo foi sepultado na Catedral de Magdeburgo.
(2) Ajudou a organizar a hierarquia eclesiástica formal inicial na Polónia e na Boémia (actual República Checa), trabalhando em estreita colaboração com os governantes locais. Fundou o primeiro arcebispado na Polónia após a conversão de Mieszko I, em 966. Este ano é amplamente considerado o início do Estado polaco.
(3) Elevou as dioceses de Cápua e Benevento, no Sul de Itália, ao estatuto de arquidioceses metropolitanas, a fim de reforçar a influência cristã latina face às reivindicações eclesiásticas bizantinas na região.
O Papa João XIII também teve de se ocupar de questões políticas. No dia de Natal de 967, coroou Otão II (o filho de doze anos de idade do imperador) como co-imperador.
Passou também anos a negociar um tratado de paz com o Império Bizantino, o que culminou no casamento de Otão II com a famosa princesa bizantina Teófano, em Roma, no ano de 972. Com este casamento conseguiu colmatar a divisão política entre Roma e Constantinopla, entre a Europa Ocidental e a Europa Oriental.
Ao contrário de alguns dos seus antecessores durante este período, o Papa João XIII conseguiu manter o Papado por um período relativamente longo (sete anos) e teve uma morte tranquila.

BENTO VI
(XII.972., 19.I.973 – VII.974)
Bento era romano, cujo pai, Hildebrando, era de ascendência alemã. Nos últimos 35 anos, Otão, o imperador do Sacro Império Romano, um alemão, tinha sido uma figura determinante no Papado e na política italiana.
“Bento foi criado em Roma e era cardeal-diácono da igreja de São Teodoro na altura da morte do Papa João XIII, em Setembro de 972. Os potenciais eleitores estavam divididos entre a lealdade ao Império e à nobreza romana. Os eleitores que apoiavam o Império votaram em Bento. Os aristocratas romanos (anti-otónicos) viam Bento como um fantoche do imperador e nutriam ressentimento por ele. Foram necessários três meses para que a aprovação de Otão chegasse, antes de Bento VI ser consagrado a 19 de Janeiro de 973” (Debra Booton McCoy. “The Story of Pope Benedict VI”. https://www.catholic365.com/article/12539/pope-benedict-vi.html).
O Papa Bento VI contava com o apoio do imperador Otão I, mas este faleceu em Maio de 973. O filho do imperador, Otão II, de dezassete anos, que havia sido coroado co-imperador pelo Papa João XIII, estava ocupado com outros assuntos: acabara de se casar com a princesa bizantina Teófano para promover a paz com Bizâncio e estava a travar uma guerra contra Henrique, o Contendor, duque da Baviera. Não podia dedicar muita atenção à situação em Itália.
“Em 974, Crescêncio, irmão do falecido Papa João XIII, e um diácono intrigante chamado Bonifácio Franco, tomaram o controlo da cidade. Crescêncio autoproclamou-se Patrício; Bonifácio assumiu o Papado. Este autodenominou-se Bonifácio VII. Bento VI foi confinado no Castelo de Santo Ângelo” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 270). Em Julho de 974, foi enviado um padre para estrangular o pobre Papa, antes que o emissário do imperador Otão II pudesse intervir e libertá-lo.
O usurpador Bonifácio é considerado um antipapa.
Pe. José Mario Mandía

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