Dois antipapas que se tornaram Papas legítimos: Leão VIII e Bento V
Este período marca um momento único na História da Igreja Católica, em que dois antipapas consecutivos – LEÃO VIII (VI.XII.963 – XXVI.II.964 como antipapa; XXIII.VI.964 – I.III.965 como Papa) e BENTO V (XXII.V.964 – XXIII.VI.964) – se tornaram posteriormente, ou foram considerados, sucessores legítimos de São Pedro. Caracteriza-se pelos Pontificados confusos e sobrepostos de Leão VIII e Bento V. A forma como isto se desenrolou demonstra o quanto o Papado estava à mercê dos poderes seculares. O desenrolar complexo dos acontecimentos pode ser resumido da seguinte forma:
Dezembro de 963: Através de um sínodo, o imperador Otão destitui o Papa João XII e entroniza Leão VIII. João XII foge.
Fevereiro de 964: O Papa João XII regressa com um exército e obriga Leão VIII, o homem de Otão, a fugir para salvar a vida. Mas João XII morre repentinamente.
22 de Maio de 964: Os romanos rejeitam Leão VIII, apoiado pelo imperador exilado, e elegem o cardeal Bento V.
23 de Junho de 964: O imperador Otão I regressa, destitui Bento V, apoiado pelos romanos, e restabelece a sua escolha original, Leão VIII. Otão leva Bento V consigo para a Alemanha. Bento V morre a 4 de Julho de 965.
Março de 965: Leão VIII morre e o imperador Otão I nomeia o Papa João XIII para garantir a sua influência sobre Roma, consolidando o controlo imperial desta época.
Vimos no artigo anterior como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Otão I marchou sobre Roma para punir o notório Papa João XII por ter conspirado contra ele. O imperador convocou um concílio de bispos que destituiu João XII e elegeu Leão VIII como sucessor, em Dezembro de 963. Na verdade, o sínodo não tinha poder para destituir o Papa. Além disso, Leão era apenas um leigo e teve de ser submetido a todas as Ordens clericais, menores e maiores, num único dia antes da sua consagração (cf. Ferdinand Gregorovius, “A História de Roma na Idade Média”, Vol. III, 1895, pág. 348). A eleição de Leão foi problemática: uma vez que um Papa válido não pode ser canonicamente destituído enquanto ainda estiver vivo, o povo romano via Leão como um fantoche imperial e um antipapa. Revoltaram-se e tiveram de ser reprimidos à força.
O imperador Otão I partiu de Roma pouco depois de entronizar Leão, e João XII aproveitou a oportunidade para regressar à cidade, obrigando Leão a fugir para salvar a vida. João XII não foi tão brando com os inimigos. Na verdade, vingou-se violentamente daqueles que se lhe tinham oposto e ordenou a mutilação dos rivais. A 26 de Fevereiro de 964, convocou um sínodo que revogou os decretos do sínodo anterior que o tinha destituído. O concílio também declarou Leão VIII um antipapa, excomungou-o e anulou os seus decretos. João XII recuperou então o Papado. Antes que Otão I pudesse regressar a Roma para reafirmar o controlo, João XII morreu a 14 de Maio de 964, aos 27 anos. Os relatos históricos divergem quanto à causa da morte, mas esta não foi, certamente, nada edificante, para dizer o mínimo. Os historiadores contemporâneos relatam que foi acometido por paralisia (ou um AVC) no acto de cometer adultério ou espancado até à morte por um marido enfurecido.
Apesar da morte de João, os romanos continuaram a recusar-se a reconhecer Leão VIII como seu sucessor. Em vez de Leão, elegeram Bento V (um diácono de grande erudição) como novo Papa, em Maio de 964, desafiando o imperador Otão. Esta decisão enfureceu naturalmente Otão, que invadiu Roma, sitiou e capturou a cidade, levando os habitantes à fome. Bento não teve outra escolha senão render-se. O Papa Bento V foi levado perante um sínodo presidido por Leão VIII. Foi despojado das vestes sacerdotais, o pálio foi-lhe arrancado e o seu báculo pastoral foi partido sobre a cabeça pelo próprio Leão. Otão permitiu que Bento continuasse a ser um humilde diácono, mas exilou-o para Hamburgo e colocou-o sob os cuidados do arcebispo. Com a morte de Leão VIII, em Março de 965, o imperador “Otão I, devido à pressão dos francos, alemães e romanos, reconheceu a validade da sua (de Bento) investidura” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”). Mas, muito pouco tempo depois, faleceu a 4 de Julho de 965.
“O arcebispo [Adaldag] acolheu-o com grande honra até à sua morte; pois dizem que era tanto santo como erudito e digno da Sé Apostólica. (…) E assim, levando uma vida santa entre nós e ensinando os outros a viver bem, acabou por falecer feliz, precisamente quando os romanos tinham vindo pedir ao imperador que fosse reintegrado” (Mann, Horace K., “The Lives of the Popes in the Early Middle Ages”, Vol. IV: “The Popes in the Days of Feudal Anarchy”, 891-999, ano 1910, pág. 277).
Leão VIII e Bento V foram Papas ou antipapas?
Leão VIII é oficialmente reconhecido pela Igreja Católica como antipapa durante o período em que João XII esteve vivo, mas como Papa legítimo desde Junho de 964 até à sua morte, em 965.
Curiosamente, Bento V é listado no site oficial do Vaticano como o 132.º Pontífice Romano, de V.964 a IV.VII.964 ou 965 (https://www.vatican.va/content/vatican/en/holy-father.html).
O Anuário Pontifício, o directório anual oficial da Santa Sé e da Igreja Católica, observa que é impossível determinar a legitimidade exacta entre Leão VIII e Bento V de forma estritamente autoritária ou definitiva. Ambos tinham reivindicações concorrentes, baseadas em diferentes interpretações do Direito Canónico e da autoridade imperial da época. Consequentemente, o Vaticano inclui tanto Leão VIII como Bento V nos seus catálogos históricos, reconhecendo simultaneamente a ambiguidade histórica e canónica subjacente.
Pe. José Mario Mandía

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