GUARDIÕES DAS CHAVES – 73

GUARDIÕES DAS CHAVES – 73

O ponto mais sombrio e final da Idade das Trevas do Papado: João XII

JOÃO XII

(XVI.XII.955 – XIV.V.964)

O 130.º Papa era filho de Alberico II, que se tinha tornado governante absoluto em Roma depois de ter mandado prender a mãe, Marózia, em 932. Antes de morrer, “Alberico fez jurar (954) aos nobres romanos na Basílica de São Pedro que, na próxima vacância da cadeira papal, o seu único filho, Octávio, fosse eleito Papa. Após a morte do Pontífice reinante, Agapito II, Octávio, então com dezoito anos de idade [o Papa mais jovem de sempre], foi efectivamente escolhido como seu sucessor a 16 de Dezembro de 955 e adoptou o nome de João” (Kirsch, Johann Peter. “Papa João XII”. A Enciclopédia Católica. https://www.newadvent.org/cathen/08426b.htm). Ao fazê-lo, João XII tornou-se o quarto Papa da História a mudar de nome ao ser eleito para o Papado, depois de São Pedro (Simão), João II (Mercúrio, 533–535) e João III (Catelino, 561–574).

“Criado numa atmosfera de liberdade e descontracção, com dinheiro em abundância, Octávio era um jovem mais adequado para figurar nas fileiras da alta sociedade do que na Cátedra de Pedro. Com a morte do pai, herdou os seus títulos e poder” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 262). Com tal passado, podemos compreender a má reputação de que gozava em Roma. O Pontificado de João XII tornou-se infame devido à alegada depravação e mundanismo, embora algumas das acusações de corrupção moral possam ter sido exageradas pelo historiador e bispo Liutprando de Cremona (um aliado do rei Otão da Alemanha). Grande parte dos seus escritos baseava-se em rumores romanos, fofocas políticas e exageros retóricos deliberados para difamar os seus inimigos políticos. Era um crítico feroz não só do Papa João XII, mas também dos Pontífices que o precederam.

Do ponto de vista político, o Papa João XII teve de fazer um delicado equilíbrio entre o rei Berengário II de Itália e o rei Otão I da Alemanha (Otão, o Grande) para conseguir sobreviver. Berengário II e Otão I eram rivais pelo controlo dos Estados Pontifícios.

De facto, o rei Berengário II e o filho Adalberto tinham ocupado partes dos Estados Pontifícios, pelo que João XII recorreu ao rei alemão Otão I em busca de protecção. Em troca da ajuda de Otão, João coroou o rei alemão como imperador do Sacro Império Romano em 2 de Fevereiro de 962. O Sacro Império Romano teve, na verdade, início em 800 d.C., quando Carlos Magno foi coroado. A coroação de Carlos Magno reavivou o antigo título romano no Ocidente. Os historiadores, no entanto, consideram a coroação de Otão como o início oficial do Império Germano-Italiano, que perdurou até 6 de Agosto de 1806, quando o imperador Francisco II abdicou da Coroa após perder guerras contra Napoleão.

Otão prestou juramento de proteger o Papa e os Estados Pontifícios. Ambas as partes juraram fidelidade mútua e prometeram não formar alianças com Berengário ou Adalberto. Otão confirmou as propriedades fundiárias da Igreja através do “Diploma Ottonianum”. No mesmo documento, porém, Otão incluiu uma cláusula que exigia que os futuros Papas jurassem lealdade ao imperador antes da sua consagração. O Papa João XII considerou inaceitável esta tentativa de alargar a autoridade imperial e encarou-a como uma ameaça à independência papal. João XII decidiu mudar de lado.

O Pontífice iniciou negociações secretas com Adalberto (filho de Berengário). Recebeu Adalberto em Roma com todas as honras para consolidar a coligação contra Otão. Além disso, procurou a ajuda de outras partes. Enviou emissários com cartas para a Hungria e Constantinopla (o Império Bizantino) para incitar a guerra contra Otão. Os soldados de Otão conseguiram interceptar as comunicações secretas de João e, assim, revelaram a traição. Quando Otto marchou sobre Roma no final de 963 para afirmar o seu controlo, João XII e Adalberto fugiram juntos da cidade. Em vingança, Otto convocou um sínodo que depôs João XII sob acusações de perjúrio, homicídio e sacrilégio, colocando temporariamente Leão VIII no seu lugar – uma medida contra a qual João lutou violentamente até à morte repentina em 964. O seu Pontificado marca o fim do Saeculum Obscurum.

Apesar das lutas pelo poder e da sua conduta pessoal escandalosa, o Papa João XII conseguiu realizar algumas coisas em prol da Igreja. Estabeleceu as bases administrativas para a expansão do Cristianismo na Europa do Norte e Oriental. Aprovou a criação do Arcebispado de Magdeburgo e do Bispado de Merseburgo para apoiar os esforços missionários alemães entre os povos eslavos.

O Santo Padre aprovou os primeiros desenvolvimentos eclesiásticos na Polónia (o que lançou as bases para o Bispado de Poznań, estabelecido em 968).

Tal como os seus antecessores, o Papa João XII concedeu privilégios e protecção papal a importantes casas monásticas, apoiando, em especial, a crescente influência da influente Abadia de Cluny e o respectivo movimento de reforma.

Pe. José Mario Mandía

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