A subjugação do Papado por Alberico II: Leão VII e Estêvão VIII/IX

GUARDIÕES DAS CHAVES – 71

A subjugação do Papado por Alberico II: Leão VII e Estêvão VIII/IX

LEÃO VII

(III.I.936 – XIII.VII.939)

O 126.º Pontífice Romano, Leão VII, foi provavelmente um monge beneditino antes da sua investidura no Papado por Alberico II (filho de Marózia e Alberico I de Spoleto e irmão do Pontífice anterior, o Papa João XI). Alberico II tornou-se ditador de Roma entre 932 e 954. Para além de limitar o poder do irmão, o Papa João XI, às questões espirituais, nomeou os quatro Papas que se seguiram a João XI (Leão VII, Estêvão VIII, Marino II e Agapito II). Após a morte de Alberico II em 954, o seu filho viria a tornar-se o Papa João XII.

A autoridade política de Leão VII sobre os Estados Pontifícios ficou, assim, severamente diminuída. Apesar da perda do poder secular, o Papa conseguiu, no entanto, resolver a crise provocada pelo cerco destrutivo, embora infrutífero, a Roma, por parte de Hugo (rei de Itália e padrasto de Alberico II), entre 933 e 936. O Papa Leão VII convidou o abade São Odo de Cluny para o ajudar a resolver o conflito. Odo conseguiu garantir a paz ao organizar um casamento estratégico entre Alberico II e a filha de Hugo, Alda.

Leão VII continuou a apoiar a Abadia de Cluny, emitindo numerosas bulas papais que concediam terras e privilégios à Ordem. Trabalhou em estreita colaboração com o abade Odo para reformar mosteiros em declínio em Roma (tais como São Paulo Fora dos Muros e Subiaco) e elevar os padrões morais e espirituais.

Foi uma sorte que Alberico II partilhasse a preocupação do Papa Leão VII com os mosteiros. Foi Alberico II (e não o Papa) quem convenceu São Odo “a assumir a supervisão de todos os mosteiros nos arredores de Roma. Ele também doou a sua antiga casa, onde tinha nascido, para que se tornasse um mosteiro em honra de Nossa Senhora. Até aos dias de hoje, o mosteiro de Nossa Senhora no Aventino subsiste como um memorial à piedade do príncipe Alberico II” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 254).

Naquela época, também na Alemanha, o rei Henrique I, o Caçador (919-936), e o filho Otão I (936-973) estavam a trabalhar para reorganizar a Igreja, uma vez que servia os seus objectivos de garantir a ordem política. O rei Henrique estava a construir cidades fortes e fortificadas (Burgen). Ele sabia que as estruturas materiais não bastavam para construir uma comunidade. Assim, centrou a vida cívica, militar e económica em torno de catedrais, mosteiros e bispados, lançando as bases físicas e administrativas para a vida urbana na Alemanha.

Otão I concedeu terras reais e deveres feudais (actuando como diplomatas e líderes militares) a clérigos de alto escalão. Foi uma jogada astuta: como os bispos eram celibatários, a coroa recuperava as suas propriedades após a morte, impedindo a sucessão hereditária.

O Papa Leão VII nomeou o arcebispo Frederico de Mainz como vigário papal para a Alemanha (cerca de 937-939), encarregando-o de colaborar com o rei na renovação moral da Igreja na Alemanha. Muitos padres e clérigos tinham-se desviado dos ensinamentos eclesiásticos rigorosos e da disciplina monástica. O Papa Leão concedeu a Frederico amplos poderes para investigar, destituir e disciplinar quaisquer clérigos transgressores ou corruptos, de todas as categorias, em todos os reinos germânicos.

Surgiu também um conflito entre a população cristã e as comunidades judaicas na Alemanha. Por um lado, o Papa Leão VII proibiu firmemente Frederico de baptizar judeus à força. Por outro lado, permitiu ao arcebispo expulsar judeus das cidades alemãs, caso estes se recusassem a converter-se ao Cristianismo para “evitar todo o contacto com os inimigos de Deus”, escreveu o Papa na sua directiva a Frederico.

ESTEVÃO VIII/IX

(XIV.VII.939 – X.942)

O Papa Estêvão VIII/IX foi eleito Papa durante o reinado de Alberico II, o que significava que tinha pouco controlo sobre os Estados Pontifícios. Apesar da sua falta de poder secular no próprio território, conseguiu, no entanto, ajudar a restabelecer a ordem em França (Frância Ocidental). Baseou-se na tradição do Século VIII que conferia ao Papa o poder de legitimar a monarquia franca.

Por que razão e de que forma interveio? Em 936, os senhores francos, liderados por Hugo de Frância (Hugo, o Grande), trouxeram de volta o rei Luís IV do seu exílio em Inglaterra (foi por isso que lhe chamavam “Luís d’Outremer” ou “Luís do Ultramar”). Luís IV tinha quinze anos de idade e estava no exílio desde 922, depois de o seu pai, Carlos, o Simples, ter sido deposto por estes senhores francos. Para proteger o jovem Luís, a sua mãe, a rainha, levou-o para Inglaterra a fim de procurar a protecção do irmão (que era, à época, o rei anglo-saxónico).

Os senhores liderados por Hugo de Frância pensaram em colocar Luís IV como rei-fantoche, uma vez que era jovem, inexperiente e, por isso, fácil de manipular. Contrariamente às suas expectativas, Luís IV recusou-se a ser manipulado e começou a agir como um verdadeiro rei. Transferiu a sua base de poder, revogou o título de duque a Hugo e passou a tratá-lo por conde, tendo ainda forjado uma aliança com o seu próprio irmão, Otão I de Frância Oriental (Alemanha). Naturalmente, os senhores não gostaram destas medidas e conspiraram, intrigaram e rebelaram-se contra Luís.

Toda esta situação levou o Papa Estêvão VIII/IX a ir em auxílio do monarca. Enviou legados que ameaçavam os senhores com a excomunhão, a menos que prestassem apoio a Luís IV. Os senhores deram ouvidos à advertência: abandonaram a revolta, consolidando assim o domínio do rei.

O Papa Estêvão VIII/IX deu continuidade à promoção da vida monástica iniciada pelos antecessores, trabalhando em estreita colaboração com o abade São Odo de Cluny. Confirmou igualmente os privilégios de várias casas religiosas em França e Itália, o que facilitou a fundação e a construção de mais mosteiros.

Perto do fim do seu Papado, Estêvão viu-se envolvido em dissensões políticas e em conspirações de assassinato contra Alberico II. Quando a conspiração falhou, um Alberico paranóico mandou prender e torturar o Papa, o que acabou por levar à morte de Estêvão em Outubro de 942.

Pe. José Mario Mandía

LEGENDA: Papa Estêvão VIII/IX

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