Leão VI, Estêvão VII/VIII, João XI e uma mulher dominadora
LEÃO VI
(V ou VI.928 – XII.928 ou I.929)
Leão VI foi entronizado Papa por Marózia, filha de Teófilacto e Teodora. O Pontificado do 123.º Bispo de Roma durou apenas sete meses, num período fortemente dominado pela política romana. Herdou os problemas decorrentes das lutas pelo poder entre poderosas famílias romanas, que minaram-lhe a autoridade e limitaram a capacidade de agir de forma independente.
O sucesso do antecessor, João X, junto dos muçulmanos, trouxe-lhe vitórias “na guerra contra os sarracenos e contra os ferozes húngaros” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”). Continuou também a ocupar-se das disputas eclesiásticas na Dalmácia (actual Croácia).
ESTEVÃO VII/VIII
(I.929 – II.931)
A nobreza romana continuou a exercer a sua influência após Leão VI. Tal como o seu antecessor, Estêvão VII/VIII também chegou ao Papado sob a poderosa influência de Marózia.
Apesar da sua falta de autonomia política, conseguiu confirmar e estabelecer privilégios para várias casas religiosas em França e Itália. Estes privilégios incluem o seguinte:
(1) Isenção monástica: colocou os mosteiros sob a autoridade directa do Papa.
(2) Imunidade judicial: proibiu os senhores seculares locais ou os bispos locais de interferirem em processos judiciais internos.
(3) Autonomia financeira: concedeu a retenção integral dos dízimos, oferendas e impostos locais cobrados nas terras monásticas.
(4) Livre eleição do abade: garantiu aos monges o direito de elegerem o seu próprio abade sem interferência da nobreza exterior.
(5) Direitos de propriedade protegidos: proibiu formalmente que qualquer pessoa confiscasse ou trocasse à força os bens ou terras do mosteiro (cf. Kriston R. Rennie. “The Normative Character of Monastic Exemption in the Early Medieval Latin West”. Medieval Worlds, n.º 6, 2017, págs. 71–77).
As guerras feudais que fragmentaram a França e a Itália durante a Idade das Trevas do Papado ameaçavam a Igreja. Estes privilégios papais proporcionaram vários benefícios práticos cruciais:
(1) Constituíram um escudo contra os senhores locais. Os senhores da guerra assaltavam habitualmente as igrejas ou nomeavam parentes sem qualificações como abades para roubar riquezas. Um decreto papal vinculava legalmente a propriedade a São Pedro, ameaçando com a excomunhão quem o violasse.
(2) Mantinham os bispos corruptos à distância. Muitos bispos regionais agiam como senhores seculares, tentando cobrar impostos ou reivindicar autoridade sobre abadias ricas nas proximidades. A isenção obrigava legalmente os bispos a manterem-se a uma “distância segura”.
(3) Os privilégios papais incentivaram as doações privadas. Os nobres abastados mostravam-se relutantes em financiar novas casas religiosas, caso os tiranos locais pudessem simplesmente confiscá-las. Estas protecções estabeleceram precedentes legais que incentivaram os nobres – como São Guibert da Lotaríngia – a fundar mosteiros totalmente novos com as suas próprias fortunas.
(4) Permitiram que a reforma espiritual se difundisse. Estas protecções coincidiram com a ascensão do movimento da Reforma Cluniacense, liderado por São Odo de Cluny. Ao garantir que os mosteiros permanecessem independentes da corrupção secular local, os monges podiam concentrar-se exclusivamente na oração, na educação, nos cuidados de saúde e na restauração da moralidade da Igreja (cf. Kriston R. Rennie. “The Normative Character of Monastic Exemption in the Early Medieval Latin West”. Medieval Worlds, n.º 6, 2017, págs. 71–77).
Além disso, o Papa Estêvão VII conseguiu impor a disciplina, especialmente entre o clero. Lutou contra a simonia (a compra ou venda ilícita de cargos eclesiásticos, privilégios ou objectos sagrados), o concubinato clerical (padres e bispos que violavam os seus votos de celibato para se casarem ou viverem com parceiras) e o laxismo geral (negligenciar os deveres pastorais diários ou levar estilos de vida seculares luxuosos financiados pelas terras da Igreja).
JOÃO XI
(III.931 – I.936)
João era filho de Marózia, a mulher mais poderosa de Roma e esposa do duque lombardo Alberico I de Spoleto naquela época. Marózia fez de tudo para que o seu filho fosse nomeado Papa. Tinha apenas 21 anos de idade. Por isso, o Pontificado de João XI foi dominado principalmente pela mãe e, mais tarde, pelo irmão Alberico II. O Papa João XI “tentou resolver as graves intrigas da família. Apesar de ter sido eleito com o seu apoio, lamentava haver falta de moderação da parte deles” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”). Para continuar a consolidar o poder, Marózia casou-se com Guy da Toscana (924/925), após a morte de Alberico I; quando Guy faleceu, casou-se com Hugo de Itália, em 932.
O casamento com Hugo não agradou a Alberico II. Este sentiu que o seu poder estava ameaçado devido a um pequeno incidente que ocorreu durante o casamento da mãe com Hugo.
Conta-se que, no sumptuoso banquete de casamento, Alberico estava a realizar o ritual habitual de derramar água sobre as mãos de Hugo. Alberico entornou acidentalmente um pouco de água e Hugo, furioso, esbofeteou-o em público por ser desajeitado.
Humilhado e acreditando que a sua posição na dinastia estava em perigo, Alberico, furioso, abandonou as festividades e mobilizou a multidão romana contra o novo padrasto.
Alberico II conseguiu expulsar Hugo de Roma. Tomou o poder, destronou a mãe e colocou-a na prisão, onde permaneceu até ao fim da vida. Também prendeu o Papa João XI. “Alberico governou Roma como um ditador. (…) Autodenominava-se senador, patrício e príncipe dos romanos. Usurpou completamente o poder temporal e permitiu ao seu irmão, o Papa, apenas o exercício das funções espirituais. Na verdade, interferia mesmo em assuntos espirituais” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 252). João XI morreu na prisão, com apenas 26 anos de idade.
João XI seguiu os passos de Estêvão VII/VIII no que diz respeito aos mosteiros. Concedeu privilégios oficiais à Abadia de Cluny e, mais tarde, autorizou o abade Odo de Cluny a reformar mosteiros no Norte de França e em Itália. Fundada em 910 d.C., pelo duque Guilherme I da Aquitânia, Cluny respondia directamente ao Papa, tornando assim possível erradicar a corrupção e implementar reformas morais em toda a Cristandade ocidental. Cluny acabou por se tornar uma vasta rede que governava mais de mil e 500 mosteiros e cerca de dez mil monges.
Em 931, o Papa João XI emitiu um privilégio papal histórico que permitia à Abadia de Cluny acolher monges provenientes de mosteiros desorganizados e menos disciplinados. Cluny podia acolher e reformar esses monges até que estivessem prontos para regressar às abadias de origem (cf. John T. McNeill. “Makers of Christianity from Alfred the Great to Schleiermacher”. Henry Holt And Company. Nova Iorque. 1935).
Pe. José Mario Mandía
LEGENDA: Na imagem, os retratos dos Papas abordados esta semana, à excepção do Papa Leão VII.

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