O Papa guerreiro: João X
JOÃO X
(III ou IV. 914 – V ou VI. 928)
O 122.º Pontífice Romano, João X, poderá ter tido laços de parentesco com Teodora, esposa de Teófilacto I de Túsculo. Foi, talvez, esta ligação que abriu caminho para que João se tornasse arcebispo de Ravena em 905. Revelou-se um administrador competente e enérgico. Quando o Papa Lando faleceu em 914, a facção aristocrática liderada por Teófilacto e Teodora em Roma conseguiu que João fosse entronizado como Papa. Consideravam João um aliado ferozmente leal, capaz de ajudar a coordenar alianças militares com outros governantes italianos para combater os sarracenos. Como vimos, estes invasores muçulmanos tinham estabelecido uma fortaleza junto ao rio Garigliano, de onde podiam atacar a Itália Central.
A ascensão do Papa João X ao Papado foi controversa. Um ponto de discórdia foi a sua transferência de outra diocese para Roma. Na verdade, não era a primeira vez que um bispo de outra diocese se tornava Bispo de Roma. Provavelmente, lembrar-nos-emos do caso do Papa Marino I (882-884) e de Formoso (890-896), que foram bispos de outra diocese antes de se tornarem Bispos de Roma. No entanto, a ascensão de João ao Papado não foi facilmente aceite.
Além disso, a investidura não tinha seguido o processo eleitoral tradicional. Mas o domínio político e militar da família de Túsculo durante o Saeculum obscurum garantiu que a investidura de João X não fosse contestada. As regras do conclave papal só seriam elaboradas três séculos mais tarde, em 1274, pelo Papa Gregório X.
Teófilacto e Teodora não ficaram desapontados com João X. O Pontífice não só abençoou e apoiou a campanha militar, como também se revelou um estratega perspicaz, um diplomata competente e um guerreiro ousado. Sabendo que só poderia lutar com um exército unificado, a primeira coisa que fez foi reunir, por meios diplomáticos, as diferentes facções de Itália: (1) os Estados Pontifícios, liderados pelo próprio João X; (2) o Império Bizantino; (3) os ducados lombardos; (4) as repúblicas marítimas (anteriormente aliadas aos sarracenos); e (5) o Reino da Itália (representado por Alberico I, duque de Spoleto).
Para conter a ameaça muçulmana, a primeira medida de João foi emboscar e destruir pequenos grupos de invasores sarracenos em áreas estratégicas-chave. Tal obrigou os muçulmanos a procurar refúgio na sua base principal, junto ao rio Garigliano. Assim que os sarracenos ficaram encurralados na sua base principal, a Liga Cristã impôs-lhes um cerco e bloqueou-os por todos os lados. Após três meses, os sarracenos, à beira da fome, fugiram para as colinas vizinhas. No final, foram completamente derrotados pela Liga Cristã. A vitória na Batalha de Garigliano, entre Junho e Agosto de 915, destruiu com sucesso um importante reduto pirata árabe que aterrorizou a Itália Central durante quase trinta anos.
Como era de esperar, o Papa João X regressou a Roma como um César vitorioso. O seu prestígio pessoal cresceu, assim como a influência política. Tal como a vitória de David (Saul matou milhares e David dezenas de milhares – 1 Samuel 18, 7), a derrota dos sarracenos despertou a inveja política da aristocracia romana. Uma década mais tarde, iriam silenciá-lo.
O Papa João X também utilizou as suas habilidades diplomáticas para expandir a autoridade papal por toda a Europa, particularmente sobre a França, a Alemanha, os eslavos do Sul e a Itália.
Em Itália, transformou Roma, que passava de vítima passiva de conflitos regionais no centro político dominante da Península Italiana. Conseguiu alcançar este objectivo na campanha contra os sarracenos. Além disso, coroou Berengário I do Friul como Imperador do Sacro Império Romano em Dezembro de 915. Esta acção restabeleceu o papel tradicional do Papado como árbitro supremo do poder imperial no Ocidente.
A Alemanha (França Oriental), na época de João X, encontrava-se instável. A dinastia carolíngia tinha desaparecido e os duques alemães estavam profundamente divididos. João X decidiu apoiar a dinastia saxónica em ascensão, o que lhe granjeou um forte aliado no Norte.
Entretanto, em França (França Ocidental), travava-se uma grande luta pelo poder entre a realeza carolíngia e os ambiciosos nobres regionais. O conde Herbert II havia capturado o rei Carlos, o Simples. Exigiu que, em troca da libertação do rei, o seu filho Hugo, de cinco anos, fosse nomeado arcebispo de Reims. Para quebrar o impasse político e garantir a libertação do rei Carlos, o Papa João X confirmou, com relutância, a controversa eleição do menino Hugo. Em troca, Herbert cumpriu a sua parte do acordo, libertando o rei. Como a eleição violou inúmeras leis eclesiásticas – incluindo requisitos de idade e a proibição da simonia –, foi posteriormente condenada por concílios eclesiásticos subsequentes.
Quanto aos eslavos, o Papa João X enfrentou o cisma da Dalmácia, que surgiu da luta feroz na Croácia e na costa da Dalmácia sobre a utilização da liturgia eslava (Missa na língua eslava eclesiástica antiga), em oposição à liturgia tradicional em Latim. Este movimento litúrgico foi fortemente influenciado pelo legado anterior dos santos Cirilo e Metódio, que traduziram a liturgia para a língua vernácula dos povos eslavos. Em 925, o Papa João X convocou um importante sínodo eclesiástico em Split. Para unificar as facções latina e eslava, colocou toda a Igreja da Dalmácia sob a autoridade do Arcebispado de Split e aboliu o Bispado de Nin. Este último tinha sido um bastião da liturgia eslava. Decretou que o Latim fosse adoptado como língua litúrgica, proibiu a ordenação de sacerdotes que não soubessem Latim e proibiu o uso da liturgia eslava (glagolítica), excepto quando houvesse escassez de sacerdotes. Deixou, no entanto, margem suficiente para que a língua vernácula sobrevivesse nas funções eclesiásticas de menor importância. Desta forma, manteve o rei croata Tomislav firmemente aliado ao Ocidente católico, em vez de o ser ao Oriente bizantino.
Teófilacto faleceu por volta de 924 ou 925. O poder passou de Teófilacto I para a sua filha, Marózia, entre 924 e 925 d.C. O seu reinado, que durou até à sua prisão pelo próprio filho, Alberico II, pode ser considerado um dos momentos mais sombrios do Saeculum obscurum. Marózia era a governante, de facto, de Roma e exercia grande influência sobre o Papado. Seis Papas históricos e um antipapa descendiam desta poderosa nobre romana: o Papa João XI (filho), o Papa João XII (neto, por parte do seu filho Alberico II), o Papa Bento VIII (trineto), o Papa João XIX (trineto), o Papa Bento IX (tetraneto) e o antipapa Bento X (descendente da sua linhagem). Além disso, um dos seus sobrinhos-netos também se tornou Pontífice: o Papa Bento VII.
Marózia sentia-se insegura com o sucesso de João X na administração da Igreja e na diplomacia. “Em 928, mandou matar Pedro, irmão do Papa, e lançou o próprio Papa na prisão. Quer tenha sido sufocado com uma almofada ou tenha morrido de ansiedade, João X não sobreviveu por muito tempo ao cativeiro” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 246).
Pe. José Mario Mandía

Follow