Peões de Teófilacto: Anastácio III e Lando
ANASTÁCIO III
(IV.911 – VI.913)
O 120.º Bispo de Roma “parece ter sido um homem excelente e um bom Papa (…). O seu epitáfio observa sucintamente que o túmulo guarda os ossos, mas não conseguiu conter os méritos deste Papa que governou bem a Igreja” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 242). Anastácio III era um homem de boa reputação, mas pouco pôde fazer durante o Saeculum obscurum que herdou do seu predecessor, Sérgio III. O conde Teófilacto I de Túsculo, que governava Roma, e a sua esposa Teodora, intervieram nos assuntos da Igreja e tiveram influência na eleição do Papa Anastácio III.
Outro desafio que Anastácio III teve de enfrentar foram as ameaças contínuas das forças sarracenas, que continuavam a assolar os territórios costeiros. Os ataques sarracenos anteriores eram basicamente operações de ataque relâmpago (como o infame e devastador ataque a Roma em 846). Na época de Anastácio, no entanto, os invasores muçulmanos tinham estabelecido uma base permanente fortemente fortificada na foz do rio Garigliano, localizada a sul de Roma. Isto permitiu-lhes projectar o seu poder mais para o interior da Itália. Controlavam as rotas comerciais e de peregrinação, e exigiam “dinheiro de protecção” a habitantes locais inocentes e até a facções opositoras.
O Papa Anastácio III concordou com a controversa decisão do seu antecessor, Sérgio III, de legitimar o quarto casamento do imperador bizantino Leão VI. Embora esta medida tenha melhorado as relações entre Roma e o imperador bizantino, teve o efeito oposto nas relações de Roma com o Patriarca de Constantinopla. A raiz do problema era a Controvérsia da Tetragamia (“Tetra”, do Grego “téttares” ou “téssares”, que significa “quatro”, e “gamia”, do Grego “gamos”, que significa “casamento” ou “união”).
Para compreender como tal aconteceu, é importante conhecer a doutrina ortodoxa relativa ao casamento, que proíbe estritamente um quarto casamento. Os casais sem filhos podiam contrair um terceiro casamento, mas um quarto era considerado um pecado grave, comparável ou pior do que a fornicação. Paradoxalmente, o imperador Leão tinha, na verdade, promulgado leis que proibiam não só os quartos casamentos, mas até mesmo os terceiros.
O problema era que o imperador Leão VI não tinha nenhum herdeiro legítimo do sexo masculino após três casamentos. Depois da sua amante, Zoe Karbonopsina, ter dado à luz um filho (o futuro imperador Constantino VII), Leão tentou casar-se com ela em 906 para legitimar a criança. Ir contra a sua própria lei minou naturalmente a sua autoridade moral e legal.
O Patriarca de Constantinopla, Nicolau I Mystikos, opôs-se veementemente à união. Proibiu o imperador de entrar na Hagia Sophia (Catedral Ortodoxa Oriental de 360 a 1453, que serviu como o coração espiritual e político supremo do Império Bizantino). Leão VI acabou por exilar o Patriarca Nicolau. E, como não conseguiu obter autorização do Patriarca Oriental, decidiu apelar directamente ao Papa Sérgio III, contornando o clero de Constantinopla. Sérgio III, como vimos, permitiu-lhe avançar. Esta medida afastou muitos bispos orientais, que se ressentiram profundamente com a interferência do Bispo de Roma. Quando o sucessor de Sérgio III, Anastácio III, seguiu a mesma política, a divisão entre as Igrejas Oriental e Ocidental aprofundou-se ainda mais.
As principais realizações do Papa Anastácio incluíram a organização das dioceses alemãs e a evangelização dos normandos. Apesar das dificuldades políticas em Roma, Anastácio trabalhou activamente para organizar e unificar as dioceses na Alemanha, trazendo o clero regional de volta ao seio dos ensinamentos romanos.
Durante o seu curto mandato, obteve avanços na evangelização dos nórdicos – especificamente dos normandos de Rollo na Frância Ocidental (França).
Uma vez que Teófilacto exercia poder secular em Roma sem qualquer consideração pelo Santo Padre, o Papa Anastácio concentrou-se discretamente em tarefas administrativas e diplomáticas, evitando assim mais caos durante uma era profundamente tumultuosa. Em vez de entrar em conflito com os nobres romanos ou facções vizinhas, trabalhou para preservar a estabilidade básica do cargo papal.
LANDO
(VII ou XI.913 – III.914)
Filho de um rico conde lombardo, o Papa Lando foi eleito no Verão de 913 d.C. Tal como o seu antecessor, Anastácio III, foi empossado no Papado graças à influência política do conde Teófilacto I de Túsculo e da esposa, Teodora.
O Papa Lando foi o último Papa da História a usar o seu próprio nome de nascimento. Além disso, foi o último a introduzir um nome papal completamente novo e inédito, até que o Papa Francisco fez o mesmo em 2013. Foi Papa durante apenas seis meses no Saeculum obscurum, época em que os Papas eram frequentemente destituídos ou morriam em circunstâncias misteriosas. O Papa Lando herdou os mesmos desafios que o Papa Anastácio III.
O Papa estava impotente perante Teofilacto e Teodora. “Teofilacto era um nobre romano que se tornou um alto funcionário ao serviço do Papa. Impulsionada pela ambiciosa esposa Teodora e suas vigorosas filhas, Teodora e Marozia, esta família assegurou uma posição tão dominante na política romana que reduziu o poder temporal do Papa a uma sombra” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 244). Juntos, o casal continuou a controlar o tesouro papal, a milícia romana e a ditar as nomeações papais durante anos. Teodora tinha o poder de nomear ministros, gerir assuntos judiciais e conduzir a diplomacia externa.
Os sarracenos, agora com uma fortaleza no rio Garigliano, devastaram partes da Itália Central. Os invasores árabes destruíram, entre outros, a catedral de San Salvatore que o Papa Lando estava a tentar restaurar na sua diocese natal. Na verdade, o acto mais notável e documentado do seu Pontificado foi uma generosa doação pessoal destinada à restauração desta catedral, também situada no centro de Itália.
Pe. José Mario Mandía
LEGENDA: Papa Anastácio III

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