O início da Idade das Trevas: Leão V e Sérgio III
LEÃO V
(VII.903 – IX.903)
Leão V, o 118.º Bispo de Roma, teve um Pontificado breve e trágico. Após a sua morte, seguir-se-ia o período de sessenta anos conhecido como Saeculum obscurum (Idade das Trevas).
“Auxílio, um escritor da época, afirma que ele segurou ‘o leme da Santa Igreja Romana’ durante trinta dias e que ‘era um homem de Deus, de vida louvável e santidade’. Excepto pelo facto de ter emitido uma bula isentando os cónegos de Bolonha do pagamento de impostos, nada sabemos sobre o que fez enquanto Papa. As circunstâncias da sua morte são tão obscuras quanto as da sua vida. Após um Pontificado de pouco mais de um mês, foi detido por Cristóvão, cardeal-sacerdote de São Dâmaso, e lançado na prisão. O intruso sentou-se imediatamente na cadeira de Pedro, mas foi logo depois destituído por Sérgio III” (Mann, Horace. “Pope Leo V”. The Catholic Encyclopedia, Vol. 9. https://www.newadvent.org/cathen/09159b.htm.).
Muitos acreditam que Leão V foi assassinado na prisão, seja pelas mãos do seu raptor Cristóvão, seja pelo Papa Sérgio III, que posteriormente tomou o poder.
Cristóvão foi, na verdade, considerado um Papa legítimo durante muitos anos, mas, não havendo provas de que Leão V tenha abdicado do trono, é agora considerado um antipapa.
SÉRGIO III
(XXIX.I.904 – XIV.IV.911)
Sérgio era um proeminente nobre romano e uma figura-chave na facção política que se opunha ao falecido Papa Formoso. A sua oposição a Formoso foi, aparentemente, a razão pela qual o Papa o nomeou bispo de Caere (uma antiga cidade perto de Roma), para manter os problemas à distância. Quando João IX (897-900) foi eleito Pontífice, Sérgio opôs-se à sua eleição. Sérgio foi expulso de Roma pelos apoiantes do Papa João IX, com o apoio do duque de Spoleto.
Depois de Cristóvão ter aprisionado o Papa Leão V e se ter entronizado como Pontífice Romano, Sérgio tomou o Papado com o apoio militar da poderosa família Teófilacto de Túsculo e lançou Cristóvão na prisão. Estudiosos históricos contemporâneos registam que Sérgio III também ordenou que tanto o antipapa Cristóvão como Leão V fossem estrangulados até à morte nas suas celas no início de 904.
A ascensão de Sérgio deu início a seis décadas de forte interferência nobre e corrupção nos assuntos papais, um período conhecido como Saeculum obscurum (Idade das Trevas). Esta situação tinha, na verdade, começado a gestar-se com a morte do Papa Formoso em 896. Alguns autores chamam a esta era “Pornocracia” ou o Governo das Prostitutas, devido à forte influência que as mulheres aristocráticas romanas abastadas exerciam sobre as eleições papais e a política do Vaticano. Chegou-se mesmo a espalhar o rumor de que o Papa João XI (931-936) era filho de Sérgio, que teve um caso amoroso com Marózia, filha do seu patrono, o conde Teófilacto I.
O ódio pelo Papa Formoso levou Sérgio a reverter a política de reconhecimento da validade das ordenações realizadas pelo Papa Formoso. Ameaçou prender aqueles que se recusassem a obedecer.
Apesar das suas acções questionáveis, “Sérgio parece ter sido um Papa trabalhador e, com excepção da sua infeliz política contra o partido de Formoso, bastante sensato. Demonstrou grande solicitude pelo bem-estar da Igreja ao promover a realização de vários sínodos. Defendeu a doutrina de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Trouxe a paz a Constantinopla ao declarar válido o quarto casamento do Imperador Leão. As outras três esposas estavam mortas, mas alguns gregos recusavam-se a considerar válido um quarto casamento, por mais livre que fosse o futuro noivo” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 240).
Uma das suas principais obras foi a reconstrução e rededicação da Basílica de São João de Latrão em 896, na sequência de um terramoto devastador.
Muitos historiadores observam que as acusações mais graves contra Sérgio provinham de facções rivais e de cronistas contemporâneos subjectivos: alguns dos rumores mais extremos podem ser exageros motivados por razões políticas.
Pe. José Mario Mandía

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