Acontecimentos bizarros: Formoso e Bonifácio VI

GUARDIÕES DAS CHAVES – 64

Acontecimentos bizarros: Formoso e Bonifácio VI

FORMOSO

(VI.X.891 – IV.IV.896)

O 111.º Bispo de Roma foi Formoso, antigo bispo de Porto (Portus-Sancta Rufina, uma das sete antigas dioceses suburbicárias situadas nas imediações de Roma, em Itália). A vida do Papa Formoso foi uma sucessão de altos e baixos. “É um dos Papas mais enigmáticos. Os seus amigos descrevem-no em termos elogiosos – a sua castidade, a sua austeridade, a sua oração e a sua bondade para com os pobres; e, mesmo que o testemunho dos seus amigos possa ser posto em causa, permanece o facto de que lhe foram concedidas grandes honras e responsabilidades pelo grande São Nicolau, de que foi encarregado de missões importantes por vários Papas, e de que Boris, rei dos búlgaros, o admirava tanto que insistiu em ter Formoso como arcebispo dos búlgaros e ficou muito descontente quando os seus pedidos não foram atendidos”.

“Por outro lado, João VIII destituiu-o da sua Sé, excomungou-o e obrigou-o a jurar que não regressaria a Roma. E os mesmos elogios e críticas acompanharam-no mesmo após a morte. É possível que, como acontece frequentemente com homens bons, Formoso tenha sido aproveitado por malfeitores. É certo que ele foi um centro de tempestade na política romana” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 224).

O Papa São Nicolau, o Grande (858-867), nomeou-o cardeal-bispo de Porto e enviou-o como legado papal à Bulgária para apoiar o rei Boris I, encarregando-o de missões diplomáticas à França e aos reinos da Francofonia Oriental, onde conseguiu estabelecer laços estreitos.

Os problemas surgiram quando o rei Boris I pediu ao Papa que nomeasse Formoso como bispo dos búlgaros. O Papa Nicolau I e os Papas subsequentes recusaram, invocando o artigo 15.º do Concílio de Nicéia (ano de 325), que proibia os bispos de se transferirem de uma diocese para outra. O Papa João VIII utilizou este incidente como pretexto para acusar Formoso de tentar usurpar o Papado e de abandonar a sua diocese.

Depois de apoiar a facção carolíngia, Formoso fugiu de Roma em 876, temendo João VIII. Este acusou-o, a ele e aos seus associados, de conspiração e traição contra o Papa. Em 876, um sínodo liderado pelo Papa João VIII excomungou Formoso. Embora a excomunhão tenha sido eventualmente levantada em 878, foi sob a condição de Formoso prometer regressar à sua diocese e nunca mais entrar em Roma.

Formoso permaneceu exilado de Roma até João VIII ter sido assassinado em 882. No ano seguinte, foi reintegrado como bispo de Porto pelo Papa Marinho I.

Em 891, após a morte do Papa Estêvão V/VI, Formoso foi eleito – por unanimidade (!) – como 111.º Papa. A sua eleição foi provavelmente motivada por uma combinação da sua respeitada reputação de santidade, da sua experiência diplomática e do desejo das autoridades romanas de estabilizar o Papado após uma série de Pontificados curtos e turbulentos. A eleição colocou-o em oposição à poderosa família de Spoleto, que dominava a política italiana e já tinha exercido pressão sobre o Papado.

Ao assumir o cargo, Formoso foi imediatamente pressionado a reconhecer Guido III de Spoleto e o seu filho Lambert como co-imperadores do Sacro Império Romano. Isto não impediu que o Papa convidasse secretamente o carolíngio Arnulfo da Caríntia a invadir Itália, o que levou à coroação de Arnulfo por Formoso em 896. Arnulfo foi, assim, em determinado momento, rei da Frância Oriental (887-899), rei de Itália (894) e imperador do Sacro Império Romano (896-899). É o último imperador carolíngio da linha masculina a governar o reino da Frância Oriental. Os carolíngios eram geralmente considerados os principais “defensores” do Papado contra invasores romanos e italianos locais. Entretanto, Lambert tornou-se um inimigo acérrimo de Formoso. Após a morte de Formoso, Lambert convenceu o Papa Estêvão VI/VII a convocar um bizarro julgamento do cadáver exumado de Formoso (o famoso “Sínodo do Cadáver”).

Apesar da instabilidade, o Papa Formoso destacou-se por implementar reformas, combater a simonia e fortalecer o clero. No entanto, aquando da sua morte, a tempestade que se abateu sobre o seu Papado ainda não havia passado. De facto, eclodiram violentos motins imediatamente após a sua morte.

BONIFÁCIO VI

(XI.IV.896 – 26.IV.896)

O Papa Bonifácio VI é a pessoa mais idosa a ter sido eleita Papa: tinha noventa anos de idade na altura da eleição. O seu Pontificado de quinze dias é o segundo mais curto de todos os Pontificados, sendo que o Papa Urbano VII (1590) detém o recorde de treze dias (sem contar com o Papa eleito Estêvão II, que faleceu quatro dias após a sua eleição, em 22 de Março de 752).

O Pontificado de Bonifácio VI, em Abril de 896, ocorreu durante um dos períodos mais caóticos da história papal, que conduziu ao “Saeculum Obscurum” (Idade das Trevas; “Pornocracia” ou “Governo das Prostitutas”, entre 904 e 964).

Roma caracterizava-se por motins, insatisfação popular, anarquia política, facciosismo violento e intensa pressão externa, com o próprio Papado reduzido a uma ferramenta de famílias nobres rivais e de potências estrangeiras. Duas facções principais disputavam o controlo da cidade: os apoiantes de Lambert, duque de Spoleto (o partido de Spoleto), e os de Arnulfo da Caríntia, rei dos francos (que tinha sido coroado imperador do Sacro Império Romano por Formoso). Entretanto, o Norte de Itália encontrava-se num estado de quase anarquia, com as cidades a sofrerem mudanças frequentes e violentas de Governo. E na maior parte da Península Italiana, os distritos rurais estavam fortemente infestados de bandos de salteadores armados, tornando as viagens perigosas. Os altos dignitários da Igreja tinham frequentemente de pagar grandes subornos para garantir imunidade contra roubos e violência, e o próprio Papado tornou-se alvo de pilhagem.

O Papado havia-se tornado um peão dos nobres italianos locais e das forças germânicas invasoras, o que levou a uma rápida sucessão de Papas fracos e de curta duração. Um bom número de Papas durante este período morreu de “gota”, o que provavelmente significava assassinato. O Senado Romano, que ainda existia, considerou necessário aprovar decretos que proibissem o suborno nas eleições papais. Durante este período, o Papado perdeu autoridade espiritual devido ao seu envolvimento na política temporal e em violentas lutas pelo poder.

Bonifácio VI foi “eleito em 896 pela facção romana num tumulto popular, para suceder a Formoso. Tinha sido condenado duas vezes à privação de ordens, enquanto subdiácono e enquanto sacerdote. No Concílio de Roma, realizado por João IX em 898, a sua eleição foi declarada nula. Após um Pontificado de quinze dias, alguns dizem que morreu de gota, outros que foi expulso à força para dar lugar a Estêvão VI, o candidato do partido de Spoleto” (Oestereich, Thomas. Papa Bonifácio VI. A Enciclopédia Católica. https://www.newadvent.org/cathen/02661b.htm).

Pe. José Mario Mandía

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