GUARDIÕES DAS CHAVES – 63

GUARDIÕES DAS CHAVES – 63

Fome, sarracenos e húngaros: Adriano III e Estêvão V/VI

SÃO ADRIANO III

(XVII.V.884 – VIII/IX.885)

O 109.º Pontífice Romano herdou os problemas de instabilidade política interna e externa, e foi escolhido com a esperança de que pudesse restaurar alguma ordem. Era visto como um reformador que se opunha à facção aristocrática.

Adriano III foi eleito numa época de graves vinganças e agitação civil, agravadas pela fragmentação dos governantes carolíngios e pelas ameaças representadas pelos sarracenos, que vinham atacando a parte sul da Península Itálica há mais de cinquenta anos.

Para resolver os problemas internos, Adriano III combateu a corrupção da nobreza romana, o que lhe rendeu popularidade entre o povo. Reprimiu a facção aristocrática em Roma, liderada pelo bispo Formoso de Porto, que frequentemente se opunha ao Papado, prendendo os membros mais violentos do grupo de Formoso. O Papa João VIII baniu-os de Roma mas, sob o Papa Marinho I, regressaram.

Um dos membros-chave do grupo de Formoso foi um sacerdote chamado João do Aventino. Este havia cometido homicídio pelo menos duas vezes e sido exilado pelo Papa João VIII, embora tivesse sido autorizado a regressar pelo Papa Marinho I. Sob o Pontificado de Adriano III, Jorge foi julgado, condenado e cegado.

Outro problema que agravou a situação foi a grave fome causada por um período de clima mais frio e seco que se prolongou aproximadamente entre 870 e 884. O Papa enfrentou esta situação garantindo alimentos para os cidadãos dos Estados Pontifícios. Assim, apesar do seu curto reinado, Adriano III foi reconhecido pela sua compaixão para com os mais vulneráveis. Foi canonizado pelo Papa Leão XIII em 1891.

O imperador Carlos, o Gordo, convidou o Papa Adriano para uma assembleia imperial formal em Worms, na Alemanha, para discutir a questão da sucessão imperial. Adriano nomeou João, bispo de Pavia, para governar Roma enquanto ele estivesse ausente. A caminho da Alemanha, adoeceu e faleceu em Nonantola (Norte de Itália), tendo sido sepultado nesse local.

ESTEVÃO V/VI

(IV.IX.885 – XIV.IX.891)

Após a morte do Papa Adriano III, a Igreja Romana elegeu, por unanimidade, Estêvão para o Papado, devido à sua reputação de santidade e virtude. Estêvão era um sacerdote romano, nascido numa família nobre romana. Foi nomeado cardeal-sacerdote de Santi Quattro Coronati (“Quatro Mártires Coroados”) pelo Papa Marinho I. Santi Quattro Coronati é um antigo complexo monástico fortificado em Roma, situado entre o Coliseu e São João de Latrão, dedicado a quatro soldados martirizados sob o imperador Diocleciano por se recusarem a participar no culto pagão.

O imperador Carlos III (Carlos, o Gordo) não aceitou a eleição de imediato e enviou um legado para destituir Estêvão V/VI. Mas mesmo sem o consentimento imperial imediato, Estêvão foi consagrado, em Setembro de 885. Quando o legado do imperador constatou que a eleição havia sido unânime, a objecção foi retirada e Estêvão aceite.

Estêvão V/VI foi eleito quando a Itália estava sitiada, a sul, pelos sarracenos e, a norte, pelos magiares ou húngaros (“magiar” e “húngaro” referem-se ao mesmo grupo étnico e língua: “magiar” é o nome usado pelo próprio povo, enquanto “húngaro” é o nome usado pelos estrangeiros).

A chegada e os primeiros ataques das tribos magiares à Bacia dos Cárpatos estavam a emergir como um novo e formidável perigo para as fronteiras do Império Franco, da Itália e do território bizantino. Os húngaros eram arqueiros nómadas a cavalo, conhecidos pela sua incrível velocidade. Atacavam sem aviso prévio e saqueavam territórios antes que as defesas pudessem ser organizadas. Os seus ataques tinham como alvo os mosteiros cristãos, igrejas e aldeias, causando pânico generalizado em áreas como o Norte de Itália e as regiões circundantes. A situação tornou-se mais problemática quando vários líderes cristãos na Europa, incluindo em Itália, os contrataram para as suas próprias lutas internas pelo poder. O tempo do Papa Estêvão V/VI marcou o início da sua presença permanente na região, o que os estabeleceu como uma principal ameaça militar para o mundo pós-carolíngio.

A fome, causada pela seca e pelos gafanhotos, continuava a assolar Roma. O Papa Estêvão V/VI, entretanto, encontrou o tesouro papal vazio. O Santo Padre não hesitou em utilizar a própria herança pessoal para alimentar a população. Recorreu também ao dinheiro da sua família para pagar a libertação de cativos dos invasores sarracenos e para reparar igrejas afectadas pelos ataques e saques.

Seguindo os passos dos seus antecessores desde São Nicolau I (com excepção de João VIII), o Papa Estêvão V/VI recusou-se a reconhecer Fócio como o Patriarca legítimo de Constantinopla. Este último continuou a reivindicar jurisdição sobre a Igreja Ortodoxa Eslava e sobre a Bulgária. Imediatamente após ascender ao trono em 886, o imperador bizantino Leão VI (também chamado “Leão, o Sábio” – 886-912) exilou Fócio e restabeleceu as relações com Roma. O Papa Estêvão V/VI também conseguiu obter a assistência militar de Leão VI (navios de guerra e soldados) para repelir os ataques dos sarracenos no Sul de Itália e nos Estados Pontifícios durante cerca de cinco anos.

A morte de Carlos, o Gordo, exigiu um novo imperador, mas o império tinha-se fragmentado em cinco ou seis partes. Para trazer estabilidade à Itália, o Papa Estêvão V/VI adoptou Guido III de Spoleto “como seu filho” e coroou-o imperador em 891.

No que diz respeito aos assuntos da Igreja, o Pontífice impôs o celibato clerical e apoiou padrões morais rigorosos no seio do clero e dos mosteiros.

Em 887 ou 888, emitiu um decreto estabelecendo que os escravos cristãos de muçulmanos que tivessem sido mutilados pelos seus captores podiam, ainda assim, ser ordenados sacerdotes. Também os isentou de culpa por terem matado os seus senhores sob coação.

Estêvão revogou a autorização anterior concedida pelo Papa João VIII para o uso da língua eslava na Liturgia e nos Sacramentos. A motivação política era manter o apoio dos francos. A proibição restringiu o uso do Eslavo apenas aos sermões. Os discípulos de São Metódio foram perseguidos, presos e expulsos da Morávia (parte oriental da República Checa). Ao recusar-se a permitir uma língua nativa, Roma alienou a população eslava, o que acabou por ajudar a empurrar estas áreas para o Rito Bizantino e, com o tempo, aumentou a separação entre o Cristianismo oriental e ocidental.

Pe. José Mario Mandía

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