Um equilíbrio delicado: Marinho I

GUARDIÕES DAS CHAVES – 62

Um equilíbrio delicado: Marinho I

MARINHO I

(XVI.XII.882 – XV.V.884)

O Papa Marinho I foi o primeiro bispo de outra diocese (Caere, a actual Cerveteri) a ser eleito Bispo de Roma. Pelo menos desde o Concílio de Niceia (325) até aquele momento, os Papas eram escolhidos de entre diáconos ou padres, mas não bispos. O artigo 15.º do Concílio decretou que um bispo não deveria mudar de uma Sé (Diocese) para outra. Tal era visto como uma violação do seu “casamento espiritual” com a sua diocese original. “E se alguém, após este decreto do santo e grande Sínodo, tentar tal coisa, ou continuar em tal caminho, os seus actos serão totalmente nulos, e será reintegrado na Igreja para a qual foi ordenado bispo ou presbítero”, determinou o Concílio. Assim, a eleição do 108.º Pontífice Romano foi altamente controversa e considerada um desvio da lei eclesiástica tradicional. Um Papa posterior, Formoso (890-896), viria a enfrentar o mesmo problema.

Marinho I, no entanto, não era um estranho em Roma. Foi ordenado subdiácono pelo Papa Leão IV e feito diácono pelo Papa Nicolau I. Também havia servido como diplomata em Constantinopla sob vários Papas.

Tal como o seu antecessor João VIII, o Papa Marinho I teve de enfrentar os mesmos múltiplos desafios, tanto internos como externos.

Em primeiro lugar, teve de lidar com o faccionalismo interno em Roma. Revogou algumas políticas de João VIII, como o levantamento da excomunhão do bispo Formoso, que vivia no exílio.

Formoso fôra excomungado devido a rivalidades políticas, acusações de traição e violação do Direito Canónico. Quando cardeal-bispo de Porto [N.d.R.: Não confundir com a cidade portuguesa do Porto], Formoso aliou-se ao duque carolíngio Arnulfo da Caríntia contra o parceiro do Papa João VIII, Lamberto de Espoleto (Spoleto), nas lutas pelo poder no Sacro Império Romano. Foi acusado de abandonar a sua diocese (desafiando o Concílio de Niceia), o que os seus inimigos interpretaram como parte da ambição pessoal de se tornar arcebispo da Bulgária. Infelizmente, a decisão do Papa Marinho I de restabelecer Formoso como bispo de Porto não sanou as divisões em Roma. Surpreendentemente, Formoso foi eleito Papa em 891, mas o seu Papado foi assolado por conflitos, culminando no “Sínodo do Cadáver” póstumo de 897, o qual abordaremos mais tarde.

Além disso, Marinho I teve de continuar a lidar com duas ameaças militares: uma proveniente de Guido II, duque de Espoleto, que confiscou propriedades da Igreja e ameaçou os Estados Pontifícios; e os invasores sarracenos, que destruíram o famoso mosteiro de Monte Cassino (Montecassino), em 883. Como vimos no Pontificado anterior de João VIII, já não se podia contar com os governantes carolíngios para ajudar a defender Roma. De facto, o Papa Marinho I foi consagrado em Dezembro de 882, sem esperar pelo consentimento de Carlos, o Gordo, o que reflectia a crescente independência do Papado em relação à supervisão franca.

Quanto ao problema com Fócio no Oriente, Marinho I repudiou as concessões feitas pelo Papa João VIII relativamente ao Concílio de 879-880 (Concílio de Fócio), que tinha reconhecido Fócio como o Patriarca legítimo. Marinho sustentou que a ascensão de Fócio era ilegítima, defendendo as decisões do Concílio de 869-870 (Concílio de Inácio), que anteriormente havia deposto o Patriarca. O Santo Padre enviou uma carta e legados ao imperador bizantino Basílio I, com o objectivo de garantir os interesses da Sé Romana contra a influência fotiana.

Da mesma forma, o Papa Marinho I continuou a defender a jurisdição romana sobre a recém-convertida Igreja na Bulgária, o que constituía outro ponto de discórdia no Cisma de Fócio.

Do lado positivo, vale a pena notar o que o Pontífice Romano fez pela Schola Anglorum. A Schola Anglorum (Escola dos Anglos/Ingleses) ou Schola Saxonum (Escola dos Saxões) era uma comunidade e hospício do início da Idade Média, localizada em Roma, especificamente para peregrinos, estudantes e visitantes anglo-saxões. Estava tradicionalmente associada ao rei de Wessex, que se diz tê-la fundado na década de 720. Era um vibrante “bairro inglês”, situado no Monte Vaticano (na zona agora conhecida como Borgo).

A pedido do rei Alfredo, o Grande, de Wessex, o Papa Marinho I isentou a Schola de todos os tributos e impostos, aliviando a comunidade de um fardo significativo.

Além disso, como sinal de respeito e amizade para com o rei Alfredo, o Papa Marinho I enviou um pedaço da Verdadeira Cruz ao rei Alfredo, reforçando deste modo a relação diplomática e espiritual entre Roma e a Inglaterra anglo-saxónica.

Pe. José Mario Mandía

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