Assassinato e caos: João VIII

GUARDIÕES DAS CHAVES – 61

Assassinato e caos: João VIII

JOÃO VIII

(XIV.XII.872 – XVI.XII.882)

Um arquidiácono romano foi eleito o 107.º Pontífice Romano. João VIII foi um Papa do Século IX de temperamento forte e enérgico que, apesar das doenças e da idade avançada, conseguiu liderar a Igreja em tempos de instabilidade.

Como governante temporal dos Estados Pontifícios, teve de enfrentar desafios vindos do Sul (muçulmanos), do Norte (Império Ocidental), do próprio interior da Itália (Duque de Spoleto) e do Leste (Império Oriental/Bizantino). Lutou contra os invasores sarracenos, tentou ajudar os governantes carolíngios a manter o Império Ocidental de pé, resistiu às intrigas do Duque de Spoleto, negociou com o Império Bizantino em relação ao Cisma de Fócio e obteve a sua ajuda na luta contra os sarracenos.

Enquanto Bispo de Roma, ocupou-se de disputas eclesiásticas eslavas. Muitas vezes considerado um dos Papas mais competentes da sua época, João VIII foi, no entanto, envenenado – tal era a anarquia política, à época, na Itália.

Os sarracenos estavam a invadir a costa do Sul de Itália e avançavam para Norte. João VIII, que não podia contar com o apoio dos governantes francos, especialmente após a morte do imperador ocidental Luís II, dedicou grande parte do seu Papado à luta contra os muçulmanos. O Papa fortificou fortemente Roma, particularmente a área em torno da Basílica, construiu uma muralha defensiva em redor de São Paulo Fora dos Muros e fundou uma frota papal. Chegou mesmo a liderar as tropas no combate directo aos invasores, tendo a marinha papal conseguido repelir uma frota pirata sarracena. No entanto, para manter os sarracenos fora dos Estados Pontifícios, viu-se obrigado a pagar-lhes um tributo. Isto esvaziou os cofres papais e tornou-o impopular junto da elite romana.

Para reforçar ainda mais a sua posição política, manteve a tradição de coroar os governantes francos, especialmente à medida que o Império Ocidental continuava a desmoronar-se. Após a morte de Luís II (875), João coroou Carlos II, o Calvo (Rei da Frância Ocidental), como Imperador do Ocidente, na esperança de obter protecção militar. Mas dois anos após a sua coroação, Carlos II morreu. Assim, perto do fim do reinado de João VIII (881), o Pontífice coroou o governante carolíngio Carlos III, o Gordo (Rei da Frância Ocidental), como Imperador do Ocidente, numa nova tentativa de unificação. Carlos III teve sucesso inicialmente, mas a incompetência, a doença crónica e a sua incapacidade de lidar com ameaças externas resultaram na sua deposição e na fragmentação permanente do Império. É por isso que o Papa João VIII não podia contar de forma alguma com o Imperador do Ocidente na luta contra os sarracenos.

Os duques de Spoleto, parte da elite lombarda, representavam um poder regional ambicioso que procurava tomar o controlo dos Estados Pontifícios e de Roma. Os duques frequentemente confiscavam bens da Igreja e agiam de forma autónoma. Assim, frustraram os esforços do Papa João VIII para formar uma frente unida no Sul de Itália, com vista a defender-se dos ataques árabes.

“De Constantinopla, João recebeu mensagens a pedir-lhe que reconhecesse Fócio como patriarca. Após a morte de Santo Inácio [Patriarca de Constantinopla], Fócio tinha sido novamente nomeado patriarca. O Papa enviou legados a um sínodo realizado em 879-880” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 216). Este sínodo de 879-880 é considerado pela Igreja Ortodoxa Oriental como o verdadeiro 8.º Concílio Ecuménico (4.º Concílio de Constantinopla), e não o sínodo anterior de 869-870, que a Igreja Latina considera como o 8.º Concílio Ecuménico (ou 4.º Concílio de Constantinopla). Podemos chamar ao concílio de 869 de “Concílio de Inácio” (porque reconheceu Inácio como patriarca) e ao concílio de 879 de “Concílio de Fócio” (porque reintegrou Fócio como patriarca, após a morte de Inácio). Tanto o Concílio de Inácio como o de Fócio reconheceram a primazia do Papa, restaurando assim as relações entre Roma e Constantinopla. O Concílio de Fócio, no entanto, não aceitou o “Filioque” no Credo. O reconhecimento de Fócio foi uma concessão diplomática ao imperador oriental Basílio I, o Macedónio, de quem João precisava para obter apoio naval contra os sarracenos.

João VIII também teve de lidar com a oposição do clero alemão e franco na evangelização dos eslavos. (Recorde-se que o Império Carolíngio estava dividido em três: a Frância Ocidental, que deu origem à França moderna; a Frância Oriental, que deu origem à Alemanha moderna; e a Frância Média, um reino central que se estendia do Mar do Norte até à Itália.) Os irmãos Cirilo e Metódio estavam a traduzir as Escrituras porque os povos eslavos não possuíam uma língua escrita. Cirilo desenvolveu a escrita glagolítica – precursora do alfabeto cirílico – utilizando caracteres gregos e hebraicos para se adequar aos sons eslavos. Inicialmente, concentrou-se nos Evangelhos, nas Epístolas e nos Salmos, que eram utilizados na Missa. Após a morte de São Cirilo em 869, São Metódio continuou a sua missão na Morávia (a leste da Frância Oriental e sua vassala), mas foi preso durante cerca de três anos por bispos alemães que se opunham à liturgia eslava. O Papa João VIII conseguiu que Metódio fosse libertado em 873. O Pontífice confirmou Metódio como arcebispo da Panónia e da Morávia (aproximadamente a actual República Checa, Eslováquia e Hungria), fortalecendo a Igreja na região, independentemente do clero alemão.

Embora, por vezes, o Papa João VIII tenha ordenado a Metódio que não utilizasse a língua vernácula eslava na Missa, para agradar aos alemães, acabou por aprovar o uso do eslavo na liturgia, com a exigência de que o Evangelho fosse lido primeiro em Latim. Metódio continuou o seu trabalho missionário sob a protecção de João VIII até à sua morte em 885, altura em que já tinha traduzido grande parte da Bíblia para o eslavo eclesiástico.

O Pontificado de João VIII foi também marcado por lutas políticas internas nos círculos papais. Os interesses concorrentes fizeram com que nem todos estivessem satisfeitos com as medidas que o Papa estava a tomar em resposta às ameaças vindas do Norte, do Sul ou do Leste. Este facto conduziu à morte violenta do Papa. A 16 de Dezembro de 882, foi assassinado por membros da sua própria casa. Foi o primeiro Papa da História a ser assassinado. “Conta-se uma história horrível sobre a sua morte. Segundo um cronista alemão, um parente do Papa João deu-lhe veneno, mas, apesar de o Papa estar doente e velho, o veneno agiu lentamente. Impaciente, o vilão agarrou num martelo e espancou o Papa até à morte. Mas esta história não é de todo certa” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 216).

Pe. José Mario Mandía

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