Conflitos externos e internos: Leão IV e Bento III
SÃO LEÃO IV
(X.IV.847 – XVII.VII. 855)
O saque de Roma pelos sarracenos, em 846, e a morte repentina do Papa Sérgio II, em Janeiro de 847, obrigaram o povo de Roma a encontrar rapidamente alguém que pudesse preencher o vazio de liderança, caso os sarracenos lançassem outro ataque. Assim, o Papa São Leão IV foi eleito por unanimidade e apressadamente, em Abril de 847, sendo consagrado imediatamente no dia 10 do mesmo mês, sem sequer esperar pelo consentimento imperial. No entanto, enviaram um emissário ao imperador franco Lotário a explicar-lhe a razão da decisão.
Antes da eleição como 103.º Bispo de Roma, Leão já tinha uma reputação de santidade, o que levou os Papas Gregório IV e Sérgio II a nomeá-lo para o serviço papal. Educado num mosteiro, era, contudo, um homem capaz de lidar com assuntos temporais.
Para lidar com a ameaça dos sarracenos, tomou duas decisões: protegeu Roma construindo a Muralha Leonina e liderou uma aliança marítima contra a frota sarracena.
A antiga Basílica de São Pedro (localizada fora das Muralhas Aurelianas, construídas entre 271 e 275) havia sido saqueada por invasores muçulmanos em 846. Para evitar futuras invasões, Leão IV empreendeu a construção de uma muralha com três quilómetros de comprimento entre 848 e 852. A muralha, em forma de “U”, estendia-se desde a margem do rio Tibre, junto ao Mausoléu de Adriano (mais tarde conhecido como Castelo de Sant’Ângelo), subia pelas encostas do Monte Vaticano, circundava a Basílica e descia novamente até ao rio. A área por ela delimitada ficou conhecida como Cidade Leonina. Actualmente, o território ocupado pela antiga Cidade Leonina é constituído pelo Estado da Cidade do Vaticano e pelo bairro romano de Borgo. Para levar a cabo esta imensa tarefa, Leão IV obteve financiamento dos francos e contou com a ajuda de trabalhadores dos Estados Pontifícios, habitantes das zonas rurais circundantes e até mesmo sarracenos que tinha capturado após a Batalha de Óstia, em 849. Quanto às antigas Muralhas Aurelianas, reparou e reconstruiu quinze torres que ficaram enfraquecidas em incursões anteriores. Reforçou as fortificações em Civitavecchia (Porto de Roma) para impedir novos desembarques na costa.
O Papa Leão IV também conseguiu reunir uma frota composta por navios dos Estados Pontifícios e do Império Bizantino (Nápoles, Amalfi, Gaeta e Sorrento) para enfrentar uma armada sarracena da Sardenha que pretendia atacar Roma, encorajada pelo sucesso do ataque muçulmano de 846 à Basílica de São Pedro. A frota do Papa enfrentou o inimigo ao largo da costa de Óstia. Providencialmente, uma tempestade dispersou os navios muçulmanos, o que levou à sua derrota e à captura de muitos homens que foram recrutados à força para construir as Muralhas Leoninas. A Batalha de Óstia é comemorada de forma célebre no afresco de Rafael, “Battaglia di Ostia”.
São Leão IV foi reconhecido pela sua liderança espiritual, ortodoxia e caridade. O Pontífice reparou as principais basílicas danificadas pelos ataques árabes, impôs uma disciplina eclesiástica rigorosa contra o clero rebelde, especialmente contra Anastasio Bibliotecário (“o Bibliotecário” do Vaticano), a quem excomungou. Fortaleceu os laços com a dinastia carolíngia, coroando Luís II (filho de Lotário) como co-imperador e, em 853, ungiu o futuro rei inglês Alfred, o Grande.

BENTO III
(29.IX.855 – 17.IV.858)
No Século XIII, um cronista chamado Martinho de Troppau popularizou uma lenda segundo a qual o Papa que se seguiu a Leão IV era uma mulher – a Papisa Joana – que teve um reinado curto. Conta-se que esta se fez passar por homem, foi eleita “Papa”, mas durante uma procissão deu à luz uma criança! Os historiadores modernos consideram-na uma figura mítica.
Após a morte de São Leão IV, o clero e o povo de Roma escolheram Adriano. Ele recusou o cargo. Escolheram então Bento, um cardeal-sacerdote erudito. Surgiram problemas no início do seu Papado devido ao ambicioso Anastácio, o tal que fôra excomungado pelo Papa Leão IV por insubordinação, abandono dos deveres clericais e manobras políticas para garantir o Papado contra a vontade de Leão. Altamente instruído, Anastácio era considerado um líder do partido imperial (favorável ao imperador franco Lotário I) em Roma. Tentara já usurpar o trono papal em várias ocasiões.
Seguindo o costume habitual, Roma enviou emissários para garantir a aprovação do co-imperador Luís II. Estes foram interceptados pelo bispo Arsenius de Orte, que os convenceu a apoiar, em vez disso, o seu sobrinho Anastácio. Os enviados imperiais chegaram e colocaram Anastácio no trono papal, arrastando Bento para a prisão. Felizmente, o povo de Roma e o clero apoiaram fortemente Bento. Recusaram-se a reconhecer Anastácio, forçando os representantes imperiais a abandonar o antipapa e a permitir que Bento fosse consagrado. O Papa Bento mostrou clemência ao restaurar Anastácio à comunhão com a Igreja. O incidente enfraqueceu o controlo do imperador do Sacro Império Romano sobre as eleições papais e aumentou a independência do povo romano.
Bento III era gentil, mas firme. Desempenhou um papel activo nas lutas políticas entre os sucessores de Lotário I (Lotário II, Luís II e Carlos da Provença). O Santo Padre escreveu aos bispos francos, culpando-os pela decadência e miséria no império causadas pelo seu silêncio, perante o caos local. Agiu ainda para conter o poder de Hubert, cunhado de Lotário II, que era acusado de abusar dos bens da Igreja e de violar as leis.
As relações com o mundo anglo-saxónico continuaram a crescer no Papado de Bento III. Durante o seu reinado, Ethelwulf de Wessex e o seu filho, o futuro Alfred, o Grande, visitaram Roma. Bento III concluiu a restauração da Schola Anglorum (a escola para anglo-saxões), antes destruída por um incêndio em 847.
O Papa Bento III deu continuidade ao trabalho do seu antecessor, Leão IV, na reparação das igrejas romanas que tinham sido danificadas no ataque sarraceno de 846.
Pe. José Mario Mandía

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