A ameaça dos Sarracenos e dos Vikings: Gregório IV e Sérgio II

GUARDIÕES DAS CHAVES – 57

A ameaça dos Sarracenos e dos Vikings: Gregório IV e Sérgio II

GREGÓRIO IV

(XIX.III.828 – XV.I.844)

O 101.º Papa, Gregório IV, nasceu numa família nobre e era conhecido pela sua erudição e piedade. Foi eleito pelo clero e pelo povo de Roma, que eram fortemente influenciados pela nobreza leiga. Como vimos nos dois Pontificados anteriores, o controlo dos nobres sobre o Papado estava a crescer.

Embora eleito por volta de Setembro de 827, a sua consagração foi adiada até 29 de Março de 828, em conformidade com a “Constitutio Romana” de 824 (o pacto entre o Papa Eugénio II e o co-imperador Lotário I), que exigia a aprovação imperial antes da consagração e um juramento de lealdade ao imperador.

O Papa Gregório IV teve de lidar com ameaças externas dos sarracenos (invasores árabes) no Sul e dos nórdicos (vikings) no Norte.

Os sarracenos constituíam a ameaça mais imediata para Roma durante o reinado de Gregório IV. Estavam em vias de conquistar a Sicília (a partir de 827) e começaram a lançar incursões frequentes na Itália continental. Os sarracenos estabeleceram fortalezas no Sul de Itália e, no início da década de 840, já estavam a atacar activamente as costas perto de Roma, preparando o terreno para o ataque em grande escala à Basílica de São Pedro em 846, dois anos após a morte de Gregório. “Organizou um poderoso exército sob o comando do duque da Toscana, que derrotou os sarracenos em África por cinco vezes. Estes, no entanto, tendo desembarcado em Itália, destruíram Civitavecchia e Óstia, e ameaçaram Roma” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”).

Os nórdicos, por outro lado, ameaçavam Roma a partir do Norte. Estavam a expandir-se para o território saxão. Para lidar com o perigo, o Santo Padre recorreu a uma abordagem mais espiritual. Em 831, o Papa Gregório IV instituiu o arcebispado de Hamburgo e elevou Santo Ansgário a “Apóstolo do Norte”, especificamente para supervisionar a cristianização da Escandinávia e reforçar as fronteiras cristãs contra a influência pagã.

Para além das duas ameaças externas, o Império Carolíngio (no qual Roma confiava para apoio militar) estava, no entanto, a ser dilacerado por disputas entre os filhos de Luís, o Piedoso. O Papa tentou trazer a paz, mas foi ignorado pelos francos. A situação complicou-se ainda mais com os ataques dos vikings (a norte), dos sarracenos (a sul) e dos magiares (a leste), que o governo central não conseguia travar eficazmente. À medida que a autoridade central enfraquecia, surgiram feudos menores e independentes. O Tratado de Verdum, de 843, dividiu oficialmente o império na Frância Ocidental (França), na Frância Oriental (Alemanha) e na Frância Média. Em 888, o império estava completamente fragmentado, com a linhagem carolíngia a perder poder, acabando por se extinguir no Ocidente em 987 e no Oriente em 911.

A fragmentação do império, complicada pela ameaça representada pelos sarracenos e pelos vikings, levou o Papa a dar prioridade à fortificação dos territórios romanos e à preservação das propriedades da Igreja.

A situação agravou-se pouco depois da sua morte, obrigando o sucessor, Leão IV, a concentrar-se inteiramente nas defesas navais e territoriais contra os sarracenos.

O Ocidente trouxe desgraças, mas o Oriente ofereceu consolo. Em 842, faleceu o imperador bizantino Teófilo, um forte iconoclasta que proibia a veneração de ícones. Contudo, a esposa, Santa Teodora, a imperatriz (815-867), venerava secretamente os ícones. Após a morte do marido, serviu como regente do seu filho Miguel III (que era menor de idade à época) de 842 a 855. Em Março de 843, viria a reverter as políticas do marido. Depôs o patriarca iconoclasta João VII e nomeou Metódio I, que apoiava a veneração de ícones. Teodora e Metódio convocaram um sínodo que restaurou formalmente os ícones na Hagia Sophia (Constantinopla), um evento celebrado anualmente na Igreja Ortodoxa Oriental no Primeiro Domingo da Grande Quaresma, como “Domingo da Ortodoxia”. A restauração da veneração de ícones e o fim do iconoclasmo bizantino são chamados de “Triunfo da Ortodoxia”.

SERGIO II

(25.I.844 – 27.I.847)

Mencionámos anteriormente que da família nobre do Papa Estêvão IV/V (816-817) vieram outros dois Papas. Um deles foi Sérgio II, um dos mais populares de entre os Pontífices, desde o Papa São Leão III (795-816) até Gregório IV. A eleição teria decorrido sem problemas, se uma multidão não tivesse proclamado Papa o diácono João e tomado o Palácio de Latrão. A nobreza conseguiu expulsá-los e eleger Sérgio.

“Sérgio foi consagrado sem esperar pela confirmação imperial. Quando o imperador Lotário soube disso, enviou um exército liderado pelo seu filho Luís para ensinar boas maneiras aos romanos. Embora o exército se aproximasse de Roma, enquanto incendiava e devastava, o Papa Sérgio saiu ao encontro de Luís e conseguiu acalmá-lo. O Papa não permitiu que Luís entrasse na Basílica de São Pedro até que este desse garantias da sua boa vontade. E mesmo assim, recusou-se firmemente a permitir que o exército destrutivo entrasse dentro das muralhas. O Papa Sérgio coroou Luís como rei da Itália, mas recusou permitir que os romanos lhe jurassem lealdade. O Papa e os romanos jurariam lealdade apenas ao imperador Lotário” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 206).

Em Agosto de 846, invasores sarracenos do Mediterrâneo lançaram um grande ataque a Roma, saqueando as basílicas indefesas de São Pedro e São Paulo – as duas igrejas ficavam fora das Muralhas Aurelianas do Século III, que haviam sido construídas para conter as invasões bárbaras. Os invasores muçulmanos foram expulsos de Roma, principalmente pelos exércitos lombardos. Além disso, uma tempestade fortuita destruiu os seus navios ao largo de Óstia e Nápoles.

Os atacantes não conseguiram capturar o centro da cidade, mas a invasão levou à criação da Cidade Leonina em torno do Vaticano, sob o Papa Leão IV.

Pe. José Mario Mandía

LEGENDA: Papa Gregório IV

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