Viver num Império Ocidental restaurado: Estêvão IV/V e Pascoal I
ESTÊVÃO IV/V
(22.VI.816 – 24.I.817)
O 97.º Bispo de Roma provinha de uma família nobre romana. A sua eleição foi a primeira a realizar-se sob o Império Ocidental restaurado. Imediatamente após a morte de Leão III, o clero romano escolheu rapidamente o diácono Estêvão e consagrou-o à pressa, sem dar oportunidade ao novo imperador, Luís, o Piedoso, de interferir de forma alguma. De facto, desde o tempo do Papa Zacarias (741-752) que Roma já não procurava a confirmação do imperador bizantino (Oriental) ou do exarca (o seu representante em Ravena).
Luís, o tal Piedoso (814–840), era filho de Carlos Magno e sucedeu como governante dos francos após a morte do pai em 814. Seguiu-lhe os passos e reforçou a aliança entre o Papado e o Império Carolíngio.
Quanto ao novo Papa, Estêvão, nasceu numa família da qual viriam a surgir outros Papas: Sérgio II (844–847) e Adriano II (867–872). Estêvão IV/V foi formado pelo Papa Adriano I e ordenado diácono por Leão III. Era muito estimado e conhecido pelo seu zelo, o qual reforçara pela sua virtude, a sua atitude amável e o seu amor pela paz. Assim, apesar de ter sido eleito e consagrado sem o mandato do imperador, demonstrou boa vontade para com Luís. Logo após a eleição, Estêvão IV/V exigiu que o povo romano prestasse um juramento de fidelidade ao imperador Luís. “Ele tentou evitar motins internos e rebeliões através da instituição de um juramento ao imperador, sujeito à lealdade deste último para com o Papa” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”). Além disso, “enviou uma delegação a Luís, o Piedoso, para notificar o imperador da sua eleição e para marcar uma entrevista” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 196).
Em Outubro de 816, o Papa Estêvão IV/V atravessou os Alpes e encontrou-se com Luís em Reims. O novo imperador demonstrou grande deferência, prostrando-se perante o Papa e oferecendo-lhe muitos presentes, incluindo uma propriedade em França. Por sua vez, Estêvão coroou Luís como imperador na Catedral de Reims. Também coroou a esposa deste, Ermengarda (Irmengarde), como imperatriz. Tal ajudou a cimentar os laços entre Roma e a Dinastia Carolíngia.
Para demonstrar ainda mais o seu apoio, Estêvão concedeu o pálio a Teodulfo, bispo de Orleães e um dos principais conselheiros do imperador.
O Papa Estêvão conseguiu persuadir Luís a libertar os prisioneiros políticos romanos exilados pelo Papa Leão III. Estes prisioneiros haviam estado envolvidos numa conspiração contra Leão III e foram perdoados por Estêvão.
“No regresso a Roma, Estêvão visitou Ravena, cujo arcebispo, Martinho, tinha causado alguns problemas a Leão III. Mas agora tudo era harmonia, e o Papa celebrou missa na catedral e exibiu uma relíquia, muito preciosa, se autêntica – as sandálias de Cristo. Estêvão entrou em Roma em Novembro, trazendo consigo os prisioneiros políticos libertados” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 196).
SÃO PASCOAL I
(25.I.817 – 11.II.824)
O Papa Pascoal I era um romano formado no Seminário de Latrão. O Papa Leão III ficou impressionado com a sua piedade e nomeou-o superior do mosteiro de Santo Estêvão. Foi eleito por unanimidade e, tal como o seu antecessor, foi consagrado sem esperar pela confirmação imperial.
Era conhecido por ser um homem bondoso e prestava especial atenção aos peregrinos pobres e aos monges do Oriente que fugiam da perseguição iconoclasta. Também resgatou prisioneiros pobres capturados pelos sarracenos (muçulmanos).
Seguindo o exemplo dos Papas Adriano I e Leão III, embelezou e restaurou igrejas (especialmente as basílicas de Santa Prassede, Santa Cecília e Santa Maria em Domnica – Roma), e encomendou belos mosaicos onde também aparecia. Os mosaicos serviam para enfatizar a veneração das imagens, em contraste com a heresia iconoclasta. Além disso, demonstrou profunda devoção pelos primeiros mártires cristãos, procurando os seus restos mortais nas catacumbas romanas e transferindo-os para igrejas novas ou restauradas. Conseguiu encontrar as relíquias de cerca de dois mil e 300 mártires.
No entanto, no final do Papado, o seu governo em Roma foi por vezes considerado severo, o que gerou ressentimento entre a população romana.
Durante o segundo período iconoclasta, sob o imperador bizantino Leão V (813–820), opôs-se veementemente à destruição de imagens religiosas. Manteve correspondência não só com o imperador Luís, o Piedoso, mas também com líderes orientais, incluindo o abade São Teodoro Estudita, para defender a veneração das imagens e resistir à iconoclastia. Escreveu também ao imperador Leão V e enviou legados numa tentativa frustrada de pôr fim à heresia.
São Pascoal era firme e, por vezes, intransigente, especialmente ao lidar com o Império Franco. Logo após a sua eleição, em 817, enviou uma embaixada a Luís, solicitando a confirmação e a prorrogação dos acordos alcançados com o Papa Estêvão IV/V. Esta iniciativa resultou no “Pactum Ludovicianum”, um documento que reforçou a autonomia do Papa nos Estados Pontifícios e consolidou o papel do imperador carolíngio como protector da Igreja Romana. Confirmou também o direito dos romanos de eleger o Papa sem interferência imperial.
A relação entre Pascoal e o imperador Luís nem sempre foi harmoniosa. A determinado momento, o Papa foi acusado de envolvimento na cegueira e no assassinato de dois altos funcionários romanos que pertenciam ao partido pró-franco (estes funcionários favoreciam o controlo imperial). O imperador Luís enviou investigadores para apurar os homicídios. O Papa Pascoal I negou qualquer envolvimento nos assassinatos, mas recusou-se a submeter a sua casa a inquérito imperial, afirmando que não prestava contas a ninguém além de Deus. Esta tensão, juntamente com a sua impopularidade, fez com que, após a sua morte em 824, fosse tão desprezado por alguns que lhe foi negado o enterro na Basílica de São Pedro, apesar da sua santidade.
Pe. José Mario Mandía
LEGENDA: Papa Pascoal I

Follow