GUARDIÕES DAS CHAVES – 54

GUARDIÕES DAS CHAVES – 54

Restauração do Império Romano Ocidental: Leão III

SANTO LEÃO III

(26.XII.795 – 12.VI.816)

O 96.º Pontífice Romano foi eleito no mesmo dia do funeral do seu antecessor, Adriano I. Leão não era de origem nobre, mas foi clérigo desde a juventude. Quando Adriano faleceu, era já um alto funcionário papal, sendo conhecido pela sua bondade e devoção.

Como vimos, o poder temporal que o Papado vinha adquirindo, inadvertidamente, ao longo dos anos, abriu as portas para a ambição e a sede de poder dentro da Igreja. Consequentemente, Leão III teve de enfrentar conspirações severas e violentas, orquestradas principalmente pela nobreza romana, que o desprezava. Os conspiradores consideravam Leão III um usurpador ilegítimo da classe baixa. Tendo acusado, falsamente, Leão de perjúrio e adultério, conspiraram para destruir a sua autoridade e removê-lo do poder, culminando num violento ataque físico.

Em 25 de Abril de 799, enquanto participava numa procissão, Leão foi emboscado por homens armados liderados por parentes do seu antecessor Adriano I. Os agressores eram motivados principalmente pela inveja, ambição e crença de que o Papa deveria ser escolhido entre a nobreza romana. Os conspiradores atiraram-no ao chão e tentaram arrancar-lhe a língua e os olhos, acções destinadas a incapacitá-lo fisicamente e torná-lo inadequado para o Papado. Ensanguentado, foi arrastado para a igreja de São Silvestre, onde tentaram cegá-lo novamente. Em seguida, levaram-no para o Mosteiro de Santo Erasmo.

Milagrosamente, Leão recuperou o uso dos olhos e da língua. O Santo Padre escapou com a ajuda dos oficiais de Carlos Magno e mais tarde viajou para Paderborn, na Alemanha, para pedir protecção ao imperador. Este último recebeu-o com honra e simpatia.

Em 800, Carlos Magno viajou para Roma a fim de realizar um julgamento na Basílica de São Pedro. Os bispos, é claro, recusaram-se a julgar o Papa, mas o próprio Leão subiu ao ambão e jurou que era inocente das acusações. Carlos Magno queria que os conspiradores fossem executados, mas o Papa apelou por um pouco de clemência. Carlos Magno acabou por condenar os detractores ao exílio.

“Dois dias depois, na Missa de Natal, o Papa colocou uma coroa com joias na cabeça de Carlos Magno, enquanto a Basílica de São Pedro ressoava com o grito de alegria: ‘A Carlos, o mais piedoso Augusto, coroado por Deus, ao nosso grande e pacífico imperador, vida e vitória!’” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 194). A coroação de Carlos Magno como “Imperador dos Romanos” pelo Papa Leão III restaurou formalmente o Império Romano Ocidental, que havia terminado em 4 de Setembro de 476, após quinhentos anos de domínio romano no Ocidente. Além disso, este acto confirmou o papel de Carlos Magno como protector do Papado e da Igreja Católica.

A restauração do Império Romano Ocidental uniu grande parte da Europa Ocidental e Central. Criou um novo império cristão politicamente unificado que abraçava as tradições germânicas, romanas e cristãs. O título Imperator Romanorum (Imperador dos Romanos) indicava que Carlos Magno era o sucessor dos antigos imperadores romanos, combinando a sua autoridade com o favor divino. Para alguns, a coroação de Carlos Magno marcou o início do Sacro Império Romano-Germânico, embora a coroação de Otão I, em 962 d.C., seja mais amplamente considerada como o seu início.

Carlos Magno ficou assim conhecido como o “Pai da Europa”, pois lançou as bases para as estruturas políticas e religiosas da Idade Média europeia.

A restauração do Império Romano Ocidental foi um afastamento ainda maior e um desafio ao Império Bizantino (Império Romano Oriental), que tecnicamente governava o Ocidente.

Além disso, Carlos Magno apoiou a criação de escolas, bibliotecas e o renascimento dos estudos latinos, provocando um renascimento cultural e religioso. “Fundou a Escola Palatina [Escola do Palácio], da qual derivou a Universidade de Paris” (Caporilli, “Os Pontífices Romanos”). A escola forneceu a estrutura académica fundamental, os padrões intelectuais e educacionais que prepararam o terreno para o surgimento das escolas catedrais e abaciais. Estas acabaram por se fundir para formar a Universidade de Paris e tornaram-se o modelo para as Universidades medievais.

Carlos Magno também concedeu ajuda financeira ao Papa, que a utilizou para ajudar os pobres e embelezar igrejas. São Leão III é conhecido por ter construído ou restaurado 160 igrejas. Deste modo, deu continuidade ao legado de Adriano I de conter a decadência de Roma.

Após a morte de Carlos Magno, o Papa Leão III teve que enfrentar uma nova conspiração, mas, porque foi avisado com antecedência, ordenou a prisão dos perpetradores e mandou executá-los.

Pe. José Mario Mandía

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *