Gravitando em direcção ao Ocidente: Adriano I
ADRIANO I
(9.II.772 – 25.XII.795)
Vimos os resultados profanos da ascensão da figura do monarca papal e dos Estados Pontifícios: foi uma tentação ao poder e à posse. A luxúria pela influência política na Igreja resultou em violência e crueldade.
O 95.º Pontífice Romano (cf. Anuário Pontifício de 1961), Adriano I, foi eleito rapidamente, silenciosamente e por unanimidade, mas o Pontificado esteve longe de ser pacífico. Apesar disso, o seu reinado de 23 anos foi o mais longo de qualquer Papa em mais de mil anos.
A este Pontífice coube “restaurar as muralhas de Roma e os antigos aquedutos”, sendo que também a ele se devem “a estátua dourada do túmulo de São Pedro e o pavimento de prata em frente ao altar da Confissão” (Caporilli, “Os Romanos Pontífices”).
Apesar de ter nascido numa família nobre, Adriano praticava “uma piedade austera mesmo antes de se tornar clérigo”. Como Papa, “era um verdadeiro pai para o seu povo. Não se contentando em ajudar os necessitados e aflitos, visitava-os pessoalmente” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 192).
A primeira ameaça veio de Paulo Afiarta, um dos altos funcionários de Roma que trabalhava sob o comando do Papa anterior, Estêvão III/IV. Lembramos que foi subornado pelo rei Desidério dos lombardos para eliminar Cristóvão e o seu filho Sérgio, dois funcionários que trabalhavam para o Santo Padre.
Paulo Afiarta opôs-se à eleição do Papa Adriano I. Quando este assumiu o cargo, Afiarta foi implicado no assassinato de rivais políticos e, posteriormente, preso e executado pelo arcebispo de Ravena, apesar das tentativas iniciais de Adriano de poupá-lo.
O rei Desidério continuou a sua campanha para assumir o controlo de Itália, tendo invadido os territórios papais logo após a eleição de Adriano I. Consequentemente, Adriano pediu ajuda a Carlos Magno. O imperador respondeu ao apelo do Papa e invadiu Itália, derrotando Desidério após um longo cerco à então capital, Pavia, em 774. Carlos Magno expulsou Desidério para a Abadia de Corbie, em França. Em seguida, autoproclamou-se “Rei dos Lombardos”, o que levou ao desaparecimento do reino lombardo, constituindo um importante ponto de viragem na história italiana. Consolidou ainda a aliança entre o Papado e o reino franco, e transferiu o poder do Império Bizantino para este último. Com a ajuda de Carlos Magno, o Papa Adriano I manteve e expandiu os Estados Pontifícios.
Adriano I também trabalhou arduamente para que Constantinopla voltasse à unidade com a doutrina católica, continuando o apelo dos Papas anteriores ao imperador bizantino para que se arrependesse. Em 780, o imperador Leão IV (775-780) morreu; era um iconoclasta bizantino que continuara as políticas dos seus antecessores, mas a esposa, Irene, acreditava na veneração de imagens. Leão IV deixou o filho Constantino VI e a imperatriz Irene para governar. Constantino VI ainda era menor de idade na época. Assim, a mãe, Irene, actuou como regente e mais tarde tornou-se sua co-governante. Entre outras medidas, reverteu as políticas iconoclastas, permitiu a veneração de imagens e atendeu ao pedido do Papa Adriano I de convocar um concílio – o Sétimo Concílio Ecuménico (Segundo Concílio de Nicéia) em 787.
Infelizmente, os francos interpretaram mal os actos do Segundo Concílio de Nicéia e publicaram os “Libri Carolini” (Livros Carolinos). “A obra teve a sua origem numa versão latina muito defeituosa dos actos gregos do Sétimo Concílio Geral (Segundo de Nicéia), que a negligência dos copistas romanos desfigurou ainda mais; num texto crucial, por exemplo, a partícula negativa foi omitida e, noutro [texto latino], o Concílio foi levado a afirmar que as imagens deviam ser adoradas como a própria Trindade, enquanto o texto grego genuíno é bastante ortodoxo. Esta versão foi severamente criticada por uma assembleia de teólogos francos na qual Carlos Magno participou” (Shahan, Thomas. “Caroline Books (Libri Carolini)”. The Catholic Encyclopedia. http://www.newadvent.org/cathen/03371b.htm.) O Papa explicou pacientemente o significado dos decretos do Concílio, mas a Igreja franca condenou formalmente a posição do Concílio de Nicéia no Concílio de Frankfurt, realizado em 794.
Com o Segundo Concílio de Nicéia, o Papa Adriano I conseguiu aproximar espiritualmente Constantinopla de Roma, embora a divisão política se tenha acentuado à medida que Roma se inclinava mais para os francos.
Além da heresia iconoclasta, o Papa Adriano I também condenou uma doutrina cristológica conhecida como “adopcionismo”, uma forma de neo-nestorianismo. Elipando de Toledo e Félix de Urgel lideraram a controvérsia. Ambos argumentavam que Cristo era o Filho “adoptivo” de Deus, de acordo com a sua humanidade; e ao mesmo tempo o Filho natural de Deus, de acordo com a sua divindade.
O Sínodo de Regensburg (792) obrigou Félix de Urgel a retratar as suas opiniões perante Carlos Magno. Foi enviado para Roma, onde o Papa Adriano o manteve prisioneiro até que assinasse uma confissão de ortodoxia.
O Concílio de Frankfurt (794), que havia condenado erroneamente o Segundo Concílio de Nicéia, também condenou Elipando, mas ele manteve a sua opinião até à morte. O adopcionismo foi posteriormente revivido no Século XII por Pedro Abelardo e condenado mais uma vez pelo Papa Alexandre III.
Pe. José Mario Mandía

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