Santidade versus ambição: São Paulo I e Estêvão III/IV
SÃO PAULO I
(29.V.757 – 28.VI.767)
Seguindo a sequência numérica do Anuário Pontifício de 1961, chegamos agora ao 93.º Pontífice Romano, São Paulo I, que era irmão do Papa anterior (Estêvão II/III, 752-757) e, tal como ele, também foi educado no Palácio Lateranense pelos Papas São Gregório III (731-741) e São Zacarias (741-752). Estêvão enviou o seu irmão Paulo em missões diplomáticas, incluindo uma em que Paulo ajudou o rei Desidério dos lombardos a manter o poder contra Raquis (rei dos lombardos que em 749 decidiu tornar-se monge durante o Pontificado de São Zacarias). Raquis tentou recuperar o trono e Desidério apelou ao Papa Estêvão II/III para obter ajuda, prometendo paz em troca, uma promessa que não cumpriu. O rei lombardo chegou mesmo a pedir ao imperador bizantino que a ele se aliasse. Como Papa, Paulo provou, uma vez mais, ser um bom negociador: convenceu o rei franco, Pepino, a conseguir que o rei lombardo, Desidério, o ajudasse e lutasse contra o imperador bizantino. Além disso, o Santo Padre encorajou Pepino, que resistiu ao convite do imperador Constantino V (741-775), para abraçar a iconoclastia. Além disso, os bispos francos reafirmaram a sua adesão à doutrina correcta num sínodo em Gentilly, em 767.
Paulo I continuou as políticas do irmão nas relações de Roma com os três poderes seculares que a rodeavam. Herdou os Estados Pontifícios dados por Pepino ao Papa durante o Pontificado anterior e fortaleceu a aliança com o reino franco de Pepino para poder lidar com os lombardos na Itália e com o imperador bizantino e seu exarca em Ravena. As relações entre Roma e Constantinopla continuaram a deteriorar-se.
A política iconoclasta de Constantino V levou à perseguição dos monges no Oriente que a ela se opunham. Conhecido pela sua diplomacia e caridade, o Papa São Paulo I deu refúgio a estes monges gregos em Roma durante a década de 760, permitindo-lhes manter as suas tradições litúrgicas e concedendo-lhes liberdade para praticar o culto na própria língua.
O Papa Paulo I demonstrou veneração às relíquias, iniciando uma transferência significativa e em grande escala das relíquias das catacumbas fora de Roma para igrejas dentro das muralhas da cidade. Esta medida foi concebida para proteger os restos mortais dos mártires de danos, particularmente após o cerco lombardo de 756, e para torná-los mais acessíveis à veneração pública.
ESTÊVÃO III/IV
(7.VIII.768 – 24.I.772)
Vimos como Pepino, rei dos francos, entregou Ravena e alguns territórios ao Papa Estêvão II/III (752-757), tornando-o assim o primeiro dos monarcas papais (Papa-rei) e abrindo caminho para a criação dos Estados Pontifícios.
À primeira vista, este novo fenómeno do monarca papal e dos Estados Pontifícios parece vantajoso para a Igreja. Mas o poder e a posse tendem a atrair as ambições daqueles que não são tão espirituais. De facto, dois antipapas sucessivos surgiriam antes da eleição do próximo Pontífice Romano para suceder a São Paulo I. Estes antipapas foram eleitos em duas eleições privadas: a primeira, promovida por Toto, duque de Nepi; e a segunda, por Waldipert, um padre lombardo. Graças à intervenção de dois altos funcionários do falecido Papa São Paulo I – Cristóvão e seu filho Sérgio – ambos os usurpadores do Papado foram eliminados.
O duque Toto trouxe consigo um grupo armado e a eleição papal privada declarou Constantino como Papa. Constantino era irmão de Toto e nem sequer era clérigo. Os oficiais papais Cristóvão e Sérgio conseguiram fugir para buscar a ajuda de Desidério (756-774), último rei dos lombardos, que ajudou a expulsar Toto. Este último foi morto no processo.
A eleição privada convocada pelo padre lombardo Waldipert, por outro lado, escolheu um monge – Filipe – como Papa. Cristóvão também conseguiu removê-lo e, então, pôde convocar uma eleição legítima. Estêvão III/IV foi eleito. Ele havia trabalhado anteriormente com os papas São Zacarias e São Paulo I e era conhecido por sua bondade e gentileza. Alguns dos seus subordinados, no entanto, eram propensos à crueldade. Um deles, Paulo Afiarta, foi subornado pelo rei Desidério para tirar do caminho os oficiais papais Cristóvão e Sérgio. Afiarta mandou matá-los depois de lhes arrancarem os olhos. Apesar da sua santidade e gentileza, o Papado de Estêvão III/IV foi marcado pela crueldade daqueles que deveriam trabalhar com ele.
“Em 769, o Papa Estêvão realizou um sínodo em Latrão, no qual o [antipapa] Constantino, que não tinha olhos, foi condenado a ser espancado e expulso da Igreja. De forma mais construtiva, o sínodo decretou regulamentos muito sensatos para futuras eleições papais. O Papa deve ser escolhido entre os cardeais, ou seja, os mais importantes do clero romano. O clero deve eleger, e somente após a eleição, o exército romano; e o povo deve aclamar o Papa eleito. Os nobres fora da cidade não devem ter nada a ver com a eleição. (…) O sínodo também defendeu a veneração de imagens sagradas e condenou o concílio iconoclasta do imperador Constantino, em 754” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 190).
Pe. José Mario Mandía
LEGENDA: Papa Paulo I

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