Situação dos cristãos bengalis continua delicada
D. Subroto Boniface Gomes, bispo auxiliar da arquidiocese de Daca, ao comentar as eleições parlamentares de 12 de Fevereiro, mostrou-se positivamente impressionado com o facto de o escrutínio ter decorrido de forma completamente pacífica. «Não houve vítimas, nem violência relacionada com as eleições: isto é inédito na história do Bangladesh. O ambiente geral era muito bom, caracterizado por um grande entusiasmo», disse, em declarações à Imprensa.
No decorrer do processo eleitoral foram implementadas fortes medidas de segurança, com soldados a guardar as mesas de voto e as áreas circundantes –, tendo a eleição resultado na vitória do Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP). «Pelo que pude constatar, este é um partido geralmente apreciado pelas minorias do Bangladesh, pela sua postura moderada em relação aos partidos islâmicos. Noto que os cristãos do Bangladesh, em geral, estão satisfeitos com a história do BNP e têm grandes esperanças para o futuro», notou o prelado.
O líder do BNP, Tarique Rahman, convocou uma jornada nacional de oração para o dia após o acto eleitoral e deixou claro que a nação precisa de paz e estabilidade, e que todos seus habitantes têm de trabalhar em conjunto para o conseguir. «Como cristãos, partilhamos desta abordagem», assegurou o bispo auxiliar.
O BNP conquistou a maioria nas primeiras eleições do País desde os protestos estudantis de Agosto de 2024, que puseram fim aos quinze anos de Governo da dirigente política exilada Sheikh Hasina. O BNP obteve 212 dos trezentos lugares no Parlamento, uma maioria de mais de dois terços, enquanto a coligação de grupos islâmicos liderada pelo partido Jamaat-e-Islami conquistou apenas 76 lugares.
O novo chefe de Governo, Tarique Rahman, hoje com sessenta anos de idade, regressou ao Bangladesh após dezassete anos de exílio no Reino Unido. É filho da ex-Primeira-Ministra Khaleda Zia, que faleceu a 30 de Dezembro de 2025.
Os eleitores haviam já aprovado, de forma inquestionável, várias reformas institucionais e as eleições foram um alívio face à corrupção, à agitação e à insegurança. O dia das eleições, marcado pela liberdade e pelo optimismo, demonstrou que o povo pode realmente contribuir para o futuro do País quando lhe é dada a oportunidade: as pessoas votaram livremente e em segurança.
Recorde-se que, antes das eleições, D. Subroto Gomes, em entrevista concedida à agência noticiosa FIDES, demonstrara pouco entusiasmo no que respeitava à sociedade bengalesa e ao futuro do País.
Paralelamente às eleições parlamentares foi realizado um referendo constitucional, por meio do qual a população expressou opinião acerca das alterações à Constituição. A esse respeito, sublinhou D. Subroto Gomes: «O problema é que a votação não foi inclusiva, uma vez que a Liga Awami, partido da ex-Primeira-Ministra, foi banida e não pôde apresentar as suas próprias listas de candidatos. Isto gerou um amplo descontentamento na população e também um sentimento de injustiça». Além disso, a população não compreendeu totalmente, nem está consciente dos efeitos e consequências do referendo constitucional: teria sido necessária uma explicação mais ampla e detalhada. E como o referendo resultou num voto “sim”, ou seja, numa vitória para aqueles que apoiam a reforma, o novo Parlamento actuará como Assembleia Constituinte. Durante os primeiros 180 dias dedicar-se-á à aprovação de alterações à Constituição. Outros factores a considerar, observou o bispo, são «a presença do partido estudantil que liderou os protestos, novo no panorama político», bem como «o ressurgimento geral de partidos islâmicos como o Jamaat-e-Islami, que ressurgiram com a sua agenda política, sem dúvida prejudicial para minorias como as mulheres, os grupos tribais e as comunidades religiosas hindus e cristãs».
Segundo o prelado, «o partido estudantil declarou-se inicialmente firmemente democrático, mas depois forjou alianças em várias circunscrições com representantes do Jamaat-e-Islami, o que é motivo de preocupação». Além disso, acrescentou, «o partido estudantil recebeu o apoio do Primeiro-Ministro interino Yunus, que poderá aspirar a tornar-se Presidente do País no futuro», também graças ao apoio directo ou indirecto dos partidos islâmicos.
Neste contexto, num país com uma grande maioria muçulmana, onde os quinhentos mil católicos representam uma pequena minoria – 0,3 por cento dos cerca de 180 milhões de habitantes – a situação das comunidades cristãs mantém-se muito delicada: o ressurgimento dos partidos islâmicos pode criar-lhes dificuldades; por isso, nos últimos dois anos, sempre defenderam a necessidade de preservar o pluralismo e a democracia.
«A Igreja Católica», concluiu o bispo auxiliar, «não participa directamente na actividade política, mas declarou publicamente, a todos os níveis, que promove a dignidade e a liberdade de cada pessoa, os Direitos Humanos e a boa governação, bem como valores como o bem-comum, a fraternidade, a justiça e a paz para todos os cidadãos, sem discriminação em função da cultura, da etnia ou da religião».
Joaquim Magalhães de Castro

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