Não nos deixemos acomodar na tepidez
«Aconteceu que um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ao encontro dos chefes dos sacerdotes e lhes propôs: “O que me dareis caso eu vo-lo entregue?”. E lhe pagaram o preço: trinta moedas de prata. E, desse momento em diante, procurava Judas uma ocasião apropriada para entregar Jesus» (Mateus 26, 14–16). A partir daquele momento, Judas estava preocupado com uma única coisa: entregar Jesus aos seus inimigos. E Jesus sabia-o: «“Com toda a certeza vos afirmo que um dentre vós me trairá”» (Mateus 26, 21). Quanto deve ter doído a Nosso Senhor, tão amoroso e tão misericordioso, revelar esta triste realidade: “Um de vós!” Não um inimigo, não um rival, mas um dos seus. No entanto, o Mestre continuaria a lavar os pés de Judas e deixá-lo-ia participar na sua refeição pascal. Dar-lhe-ia, a Judas, uma oportunidade de se arrepender e mudar de ideias.
Sabemos que a traição de Judas não aconteceu sem motivo. Ela vinha a fermentar no fundo do seu coração. São João narra-nos um incidente que lança luz sobre os motivos do traidor. Quando Maria ungiu os pés de Jesus com «um litro de óleo perfumado e caro, feito de nardo aromático genuíno» (João 12, 3), Judas ficou indignado. «Aquele que o iria trair, disse: “Por que não se vendeu este óleo por trezentos denários e se deu aos pobres?”. Disse-o não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão e guardava a bolsa, e costumava roubar as contribuições» (cf. João 12, 4–6). Judas começou com pequenos furtos, pequenas quantias inofensivas que não prejudicavam ninguém. Ele seguia Jesus, mas secretamente reservava somas insignificantes para si mesmo. Estava a deixar o fogo do amor esfriar. Estava a começar a sentir-se confortável. Estava a acomodar-se na tepidez.
O que é a tepidez? É o estado de uma alma que “perdeu o seu primeiro amor” (cf. Apocalipse 2, 4). É muito semelhante ao que diz aquela canção de há décadas: “Não me trazes flores | Não me cantas canções de amor | Já quase não falas comigo | Quando entras pela porta | No fim do dia”.
Uma pessoa morna mantém uma aparência respeitável, evitando “exageros” nos seus compromissos espirituais. É um cristão “decente”. “Já sei que evitas os pecados mortais. – Queres salvar-te! – Mas não te preocupa esse contínuo cair deliberadamente em pecados veniais, ainda que sintas o chamamento de Deus para te venceres em cada caso” (São Josemaría Escrivá, “Caminho”, n.º 327).
Quais são os sinais da tibieza? Aqui estão alguns deles: “És tíbio se fazes preguiçosamente e de má vontade as coisas que se referem ao Senhor; se procuras com cálculo ou ‘manha’ o modo de diminuir os teus deveres; se só pensas em ti e na tua comodidade; se as tuas conversas são ociosas e vãs; se não aborreces o pecado venial; se ages por motivos humanos” (Caminho, 331). Uma pessoa tépida deixou de lutar pela excelência e contentou-se com a mediocridade.
O problema da tibieza é que ela nos leva a pensar que já ultrapassámos a fase inicial da vida espiritual e que atingimos a idade da reforma. Faz-nos acreditar que, a partir de um certo ponto, não há necessidade de nos esforçarmos demasiado para sermos santos. Mas o caso de Judas deve lembrar-nos que pequenas infidelidades abrem caminho para a traição, tal como os vírus podem causar epidemias generalizadas. «Considerai como uma grande floresta é incendiada por uma pequena faísca» (Tiago 3, 5).
O que devemos fazer para evitar esta armadilha espiritual? Uma vez que a tibieza começa em pequenas coisas “insignificantes”, uma forma é prestar mais atenção aos pequenos detalhes nas nossas responsabilidades diárias em casa, no trabalho, na igreja ou na sociedade. Certifiquemo-nos de as cumprir da melhor forma possível, pelo amor de Deus e pelo serviço aos outros.
Períodos regulares e frequentes de oração também nos ajudam a viver constantemente na presença de Deus e inspiram-nos a realizar cada pequena tarefa não para nós mesmos, mas para Ele e para os outros.
Além disso, precisaremos também da ajuda dos Sacramentos, especialmente da Sagrada Eucaristia e da Penitência. No Sacramento da Penitência, Jesus lava os nossos pés enlameados. Na Eucaristia, Ele, o Criador de toda a graça, dá-nos luz e força para recomeçar.
Pe. José Mario Mandía

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