A Natureza Humana

DOM DE DEUS QUE PRECEDE TUDO O MAIS

A Natureza Humana

Leão XIV publicou a sua primeira Encíclica, ainda só disponível em nove línguas no “site” do Vaticano, embora mais traduções estejam em curso.

As primeiras palavras da versão latina, “magnifica humanitas”, remetem para uma das ideias mais fortes do texto: a grandeza da natureza humana é um dom de Deus que precede tudo o mais. A primeira linha é “A magnífica humanidade criada por Deus…”. A tal ponto Deus é importante, que, sem Ele, a vida humana é incompreensível. O número 22 da Gaudium et spes do Concílio Vaticano II é citado duas vezes: “O mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”.

E a citação do número 24 da Gaudium et spes aprofunda o conceito: “O ser humano é chamado à comunhão com Deus e ‘não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo’”.

O fio condutor que inspira os comentários da Encíclica relativos a diversas circunstâncias da vida pessoal e comunitária é esta visão da natureza humana, entendida como dom e como vocação à comunhão com Deus com os outros.

A defesa muito firme dos Direitos Humanos radica no desígnio sublime de Deus em relação a nós. A natureza humana é grandiosa por vontade de Deus. Por exemplo, introduzindo a exposição dos Direitos Humanos, Leão XIV escreve: “No centro da visão cristã do ser humano está a grande afirmação segundo a qual o homem e a mulher são criados à imagem e semelhança do Deus trinitário (cf. Gn., 1, 26-27). Cada pessoa, constitutivamente feita para a relação, é pensada e desejada por Deus para entrar numa história de comunhão com Ele, com os outros e com a criação”.

Nada pode destruir a grandeza desta relação fundacional, nem sequer os nossos próprios pecados: “A dignidade [do Ser Humano] não depende das capacidades que possui, das riquezas ou da função que desempenha, de escolhas certas ou erradas, mas é um dom que a precede e a ultrapassa, concedido por Deus como expressão do seu amor que nunca falha”.

Em consequência desta dignidade infinita (o Papa explica, citando João Paulo II, por que é que ela é infinita), “os direitos humanos são invioláveis, por serem ‘inerentes à pessoa humana e à sua dignidade’. Por conseguinte, são universais e inalienáveis. (…) Entre estes, o primeiro direito humano é o direito à vida, desde a concepção ao seu fim natural, sem o qual é impossível exercer qualquer outro direito. Quando este direito fundamental é negado, como acontece no aborto provocado, no assassinato de inocentes e na eutanásia, deparamo-nos com escolhas que a Igreja considera gravemente ilícitas”.

As instituições públicas, nomeadamente internacionais, são exigências da dignidade humana. Escreve o Papa: “A história não se apresenta apenas como o catálogo das nossas violências, mas como a prova de que o ser humano é capaz de criar instituições capazes de proteger a vida em comum. Vemos isso (…) na Cruz Vermelha, (…) na Organização das Nações Unidas, na Declaração Universal dos Direitos Humanos (…)”.

É significativa a referência à escravatura: “(…) não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura. (…) Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios. É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.

É impossível espelhar aqui a delicadeza e convicção com que Leão XIV fala do respeito pela liberdade e pela consciência das pessoas, da força com que condena as manipulações e a mentira, as guerras e outras violências, a sua insistência no destino universal dos bens, o seu apelo à cooperação.

Esta Encíclica não se lê rapidamente, não tanto por ser extensa, mas por ser profunda e merecer ser lida com atenção, sublinhando-a e tirando apontamentos.

N.d.R.: Têm sido muitos os artigos que têm chegado a’O CLARIM sobre a Encíclica Magnifica Humanitas, a primeira redigida pelo Papa Leão XIV. Esta semana, publicamos a visão do Professor JOSÉ MARIA C.S. ANDRÉ.

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