DEPOIS DO VETO A BENTO XVI, PAPA LEÃO XIV VISITOU A UNIVERSIDADE LA SAPIENZA

DEPOIS DO VETO A BENTO XVI, PAPA LEÃO XIV VISITOU A UNIVERSIDADE LA SAPIENZA, A MAIOR DE ROMA

Santo Padre apela a uma aliança espiritual

Em 2008, o Papa Bento XVI quis visitar a maior Universidade de Roma, “La Sapienza”, mas a contestação de alguns professores (sobretudo um docente, particularmente violento e caluniador) impediu que a visita pudesse decorrer em paz. O Papa desistiu, mas publicou o discurso que tinha preparado, uma obra magistral de pensamento e espiritualidade.

Os alunos e os professores, praticamente a totalidade, queriam ter acolhido o Papa Bento XVI; agora, voltaram a convidar o Papa, desta vez, Leão XIV, que aceitou o convite. O Santo Padre passou uma manhã inteira no meio de multidões de universitários, rezou na capela nova da Universidade (uma igreja moderna, ampla) e falou no grande auditório. Nada fez recordar a agressividade de há uns anos.

A intervenção mais importante do Papa foi a da Aula Magna. Referiu a alegria de ter recebido um grande número de perguntas dos estudantes: centenas! «Obviamente, não é possível responder a todas, mas vou levá-las em conta, desejando a cada um que busque mais oportunidades de diálogo. É também por isso que existem na Universidade as capelanias, onde a fé encontra as vossas perguntas», disse Leão XIV.

A dignidade sublime da vida foi o ponto de inspiração das duas perguntas que deixou, uma dirigida especialmente aos estudantes, outra, sobretudo, aos mais velhos: «– Não somos a soma do que possuímos, nem uma matéria aleatoriamente reunida de um cosmos mudo. Somos um desejo, não um algoritmo! Justamente essa nossa dignidade especial me leva a compartilhar convosco duas perguntas».

Aos jovens, as oportunidades da vida, abrem-se em interrogações de vocação: «– A vós, jovens, (…) pergunta: “Quem és?”. Ser nós mesmos, de facto, é o compromisso característico da vida de cada homem e de cada mulher. “Quem és?” é a pergunta que fazemos uns aos outros; a pergunta que silenciosamente colocamos a Deus; a pergunta à qual só nós podemos responder, cada um por si, mas à qual nunca podemos responder sozinhos».

Este mundo de anseios grandiosos – somos um desejo, não um algoritmo!, sublinhou o Papa – põe-nos em contacto, porque «somos os nossos relacionamentos, a nossa linguagem, a nossa cultura: por isso, é ainda mais vital que os anos da Universidade sejam o tempo dos grandes encontros». Grandes encontros que desembocam numa «pergunta que silenciosamente colocamos a Deus».

A segunda pergunta foi, ao mesmo tempo, um apelo carregado de sofrimento: «– Aos mais velhos, o mal-estar juvenil lança a pergunta: “Que mundo estamos a deixar?”. Um mundo, infelizmente, deformado pelas guerras e pelas palavras da guerra. Trata-se de uma contaminação da razão, que (…) invade todas as relações sociais. (…) O drama do Século XX não deve ser esquecido. O grito “nunca mais a guerra!” dos meus Antecessores, tão em sintonia com o repúdio à guerra consagrado na Constituição italiana, impele-nos a uma aliança espiritual com o sentido de justiça que habita o coração dos jovens, com a sua vocação de não se fecharem entre ideologias e fronteiras nacionais».

Neste sentido, destacou alguns crimes particularmente graves: «– O que está a ocorrer na Ucrânia, em Gaza e nos territórios da Palestina, no Líbano e no Irão ilustra a evolução desumana da relação entre a guerra e as novas tecnologias, numa espiral de aniquilação». E pediu que todos se sintam implicados na defesa da vida: «– Que o estudo, a investigação e os investimentos sigam na direcção oposta: que sejam um “sim” radical à vida! Sim à vida inocente, sim à vida jovem, sim à vida dos povos que clamam por paz e justiça!».

Confrontada com tais palavras, a juventude universitária de Roma e os professores aplaudiram o Papa emocionados.

José Maria C.S. André

Professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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