Um bispo invisível
D. Juan Abelardo Mata Guevara, de oitenta anos de idade, bispo emérito de Estelí, na Nicarágua, foi detido pelo Governo do seu país no final de Junho e a comunidade internacional continua sem notícias do seu paradeiro. O argumento da prisão é o facto de ter referido numa homilia a falta de liberdade religiosa na Nicarágua. Não fosse alguém pensar que D. Juan Abelardo falava de cor, a polícia prendeu-o e fê-lo desaparecer, reforçando com mais este exemplo de que tinha razão.
Muitos padres e leigos têm sofrido este destino na Nicarágua, mas prender um bispo e fazê-lo desaparecer chama particularmente a atenção.
Ao fim de um mês do desaparecimento, o Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, interpelou formalmente o Governo da Nicarágua: «Estou preocupado pelas notícias de repressão contra a Igreja católica e outros grupos religiosos, nomeadamente a falta de informação oficial acerca do destino, do paradeiro e do estado de saúde de D. Juan Abelardo Mata Guevara, bispo de oitenta anos, que foi detido a 29 de Junho».
Volker Türk protestou contra a repressão na Nicarágua: «Exorto as autoridades a libertarem imediatamente todas as pessoas detidas arbitrariamente e a garantirem que todos os detidos sejam tratados com humanidade e dignidade, conforme as obrigações de Direito Internacional da Nicarágua em matéria de Direitos Humanos».
Depois de Daniel Ortega informar há poucos dias que não haveria mais eleições na Nicarágua (tomaram o poder há 47 anos), as Nações Unidas “apelaram às autoridades para que permitam a participação cívica e restabeleçam o Estado de direito. As pessoas de todas as opiniões políticas devem poder votar e candidatar-se a cargos públicos, em conformidade com as obrigações internacionais do Estado da Nicarágua em matéria de Direitos Humanos”.
Segundo a ONU, “pelo menos 46 pessoas continuam detidas arbitrariamente por razões políticas”.
A Conferência de Bispos da América Central apelou ao Governo para que deixasse um médico atender D. Juan Abelardo, já com oitenta anos, com problemas de diabetes e de visão, e com um “pacemaker” por causa de deficiências cardíacas.
Como é típico dos regimes comunistas, a ditadura da Nicarágua continua a servir-se do terror como instrumento de intimidação. D. Juan Abelardo não é a única vítima deste regime, nem é a primeira vez que o atacam. Por exemplo, já em Julho de 2018 um pelotão paramilitar disparou contra o automóvel de D. Juan Abelardo.
Nalgumas regiões do mundo, ser católico tem um preço elevado.
Agora, deixo um desafio aos leitores: a Comunicação Social deu a esta notícia o relevo que merece?
José Maria C.S. André
Professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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