Bispo convida à “Adoração pela Paz”
O que está a acontecer no mundo? É esta a questão que levanta o bispo D. Jean-Marie Chami, vigário patriarcal geral greco-católico melquita do Egipto, Sudão e Sudão do Sul, em jeito de desafio a todos os líderes cristãos, judeus e muçulmanos, e a “todos aqueles que falam em nome da sua fé e religião”. A estes, lembra-lhes que as tradições espirituais nos recordam – continuamente – que “a Paz é a vontade de Deus”. Fá-lo, pois, com uma “carta-apelo”, em que a todos convida “à Adoração pela Paz”.
Na missiva, D. Chami cita passagens dos livros sagrados de várias comunidades religiosas que testemunham o amor pela paz. Enquanto a Torá recorda o preceito de “oferecer” a paz primeiro (“Quando te aproximares de uma cidade para a combater, primeiro oferecer-lhe-ás termos de paz”), na Bíblia, numa passagem do Livro dos Números, encontramos a invocação/bênção também adoptada por São Francisco: “Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e volte para ti o seu rosto, e te dê a paz”.
Ao citar a oitava sura do Alcorão (“Se eles se inclinam para a paz, então inclinai-vos também para ela e confiai em Deus. Em verdade, Ele é Aquele que ouve e sabe”), recorda também o anúncio do profeta Miqueias sobre o tempo em que os homens “transformarão as suas espadas em arados e as suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem apreenderá mais a guerra”. Todas estas frases e referências tornam o enigma das guerras desencadeadas e justificadas pelo recurso a argumentos e linguagem religiosa ainda mais perturbador e insuportável.
“Hoje”, continua o prelado, “as famílias estão a abandonar os seus lares. Os povos vivem em angústia e exílio. As crianças estão a perder a sua infância”. E como Jesus ensina no Evangelho segundo Marcos, este tipo de demónio não pode ser expulso “a não ser pela oração e pelo jejum”.
Na conclusão da missiva, D. Chami invoca o dom da paz, confiando-se à intercessão de São Francisco, de Santa Maria de Jesus Crucificado (Padroeira da Terra Santa e do Médio Oriente), e também dos muitos “Santos Inocentes” que derramam o seu sangue nas novas guerras e “morreram inocentemente”.
Em 2024, a Igreja Greco-Católica Melquita celebrou o Ano Jubilar especial pelos trezentos anos da restauração da plena comunhão com a Igreja de Roma, em 1724.
O programa do Ano Jubilar incluiu celebrações litúrgicas, conferências de estudo, publicações e estudos históricos, teológicos e ecuménicos aprofundados, bem como exposições sobre o património espiritual e artístico preservado pelas comunidades melquitas no Médio Oriente. Intitulada “A Igreja Greco-Católica Melquita: uma viagem ecuménica 1724-2024” a efeméride foi inaugurada com uma liturgia solene presidida pelo Patriarca na Catedral Patriarcal de Nossa Senhora da Dormição, em Damasco.
Com mais de 1,5 milhões de fiéis, a Igreja Greco-Católica Melquita é uma das maiores Igrejas Orientais em comunhão com Roma, remontando as suas raízes à antiga Sé de Antioquia, onde os seguidores de Cristo foram chamados pela primeira vez de cristãos.
Foram muitas as disputas teológicas e as divisões que ao longo da história dividiram as comunidades eclesiais nascidas da primeira pregação apostólica. Os cristãos que seguiram as decisões do Concílio de Calcedónia, em 451, foram chamados melquitas (“Homens do Rei”), palavra derivada do antigo termo siríaco para rei – “Malko” –, porque aceitavam uma compreensão de Jesus Cristo partilhada pelo Imperador.
No Médio Oriente, a partir do Século XVII, os missionários católicos ocidentais procuraram sanar a ruptura e alcançar a unidade desejada entre o Patriarcado de Antioquia e a Igreja de Roma. Este esforço transformou-se num “movimento de reunificação”, que juntamente com outros factores importantes levou a novas divisões dentro da própria Igreja de Antioquia.
Em 1724, o Patriarca Cirilo VI de Antioquia reafirmou a união da Igreja Melquita com Roma, que existia durante o primeiro milénio do Cristianismo. Desde então, a Igreja “Melquita” de Antioquia foi formalmente dividida entre ortodoxos gregos (não unidos a Roma) e católicos gregos (unidos a Roma). Com o passar do tempo, o termo “melquita” passou a ser associado exclusivamente aos católicos.
Apesar das divisões, as Igrejas de Antioquia cumpriram a missão de preservar a fé cristã e superaram todos os momentos críticos que viveram. Actualmente, graças à vontade dos responsáveis, as relações entre estas diferentes Igrejas continuam a ser de respeito mútuo, amor fraterno e colaboração ao serviço do único Evangelho, sendo que os fiéis de todas elas têm muitas vezes a experiência privilegiada de se reunirem sob o mesmo tecto, mesmo que vindos de diferentes denominações, para dar um testemunho claro da sua pertença a Cristo.
Para além do movimento ecuménico, um factor que tem unido cada vez mais os cristãos no Médio Oriente, nos últimos anos, tem sido a perseguição que têm sofrido às mãos de jihadistas, como o grupo Estado Islâmico.
A Igreja Melquita está activa na Síria, no Líbano e noutros países do Médio Oriente, mas devido à emigração ao longo dos anos há eparquias na Europa, Américas e Oceânia. A eparquia de Newton, em Massachusetts, nos Estados Unidos, por exemplo, tem mais de cinquenta paróquias e missões em todo o País.
Joaquim Magalhães de Castro
LEGENDA: D. Jean-Marie Chami encontrou-se com Leão XIV a 12 de Março.

Follow