CARDEAL D. JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA, EM ENTREVISTA A’O CLARIM

CARDEAL D. JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA, EM ENTREVISTA A’O CLARIM, NO VATICANO

«A Igreja e a China estão a fazer juntos um caminho de esperança»

O cardeal D. José Tolentino de Mendonça recebeu O CLARIM, no Vaticano, para uma entrevista no âmbito dos 450 anos da diocese de Macau. Com humildade, profundidade e clareza falou de Macau, da Missão da Igreja na Ásia, de Educação, Cultura, Tecnologia e Espiritualidade, e acerca do diálogo entre a China e a Santa Sé. Por decisão editorial, reproduzimos, na íntegra, as palavras do Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Governo da Santa Sé.

O CLARIM – Muito obrigado por nos ter acolhido, em nome da diocese de Macau, do bispo D. Stephen Lee e da comunidade d’O CLARIM. A diocese de Macau está a celebrar 450 anos de existência, sendo a mais antiga diocese do Extremo Oriente. Ainda que de longe, que comentário pode fazer a esta realidade única da Igreja Católica no Continente Asiático?

CARDEAL D. JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA – É, antes de tudo, dar os parabéns à Igreja em Macau por este aniversário. Está no Jubileu, digamos assim, que celebra a sua história. Uma história muito importante, porque é o encontro de culturas. Macau é um lugar de encontro e de diálogo; é um lugar extraordinário para escutar o Oriente, para escutar uma cultura e um mundo que são tão fundamentais para a História do Mundo. E, ao mesmo tempo, é um lugar onde o Oriente pode encontrar também, através da sua história, o Ocidente. A história que Macau tem com Portugal fala desse encontro. A Igreja vive sempre estes momentos com grande esperança. Porque pensemos: 450 anos são milhões de mulheres e homens que vivem a sua fé de uma forma inculturada, como um serviço à paz e à esperança. E isso é uma história muito bonita; é também uma história de santidade. E é uma história em que a Educação teve sempre um papel muito importante; uma história que ajuda a construir a identidade de Macau. Eu penso que a Igreja Católica dá um contributo muito grande para contar o que é Macau como história, como expressão da China. Penso que é um contributo muito bonito. E, por isso, estão de parabéns, e alegro-me muito de poder, com estas palavras, testemunhar enorme apreço, seja pela cultura, seja pelos cristãos que vivem naquela região.

CL – Por Macau passaram muitos missionários, entre eles, Mateus Ricci, e foi um foco de evangelização. Considera que Macau pode afirmar-se como um polo missionário da Igreja no Extremo Oriente?

D.J.T.M. – Macau tem todas as condições para o poder ser, porque o foi no passado e é também no presente. Penso, por exemplo, no papel que a Universidade de São José e a Faculdade de Teologia têm também de formar, na Teologia, missionários daquela região asiática. Não são só macaenses; a vocação da Universidade é também uma vocação internacional. E isso indica muito o papel de farol que Macau pode representar como terra missionária, que percebe muito bem como o Cristianismo encontra as culturas e as respeita. O Cristianismo serve para incentivar a expressão cultural dos povos. «Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância», diz Jesus no Evangelho de São João. E é essa abundância de vida que a Igreja é chamada a testemunhar, colocando-se ao serviço da Humanidade, ao serviço de cada povo, e também ali nessa nação extraordinária que é a China.

CL – Em Macau, aproximadamente um terço das crianças e jovens frequenta escolas católicas, sendo que a maioria não é católica. Como vê esta realidade?

D.J.T.M. – Essa é a missão das escolas católicas, que é viver essa abertura. Porque hoje, sociologicamente, grande parte daqueles que frequentam as escolas católicas vêm de outras geografias espirituais, de outras pertenças, de outras culturas. E a Igreja convive muito bem com isso, porque sabe que a Educação é um serviço que a Igreja presta não só às famílias cristãs, mas à Humanidade em geral. Esta abertura que se vive em Macau, a Igreja experimenta também em todos os continentes, para mostrar como a escola católica é credível. E não é por acaso que tantas famílias, que não são católicas, querem que os seus filhos sejam educados nas escolas católicas, porque confiam na qualidade da Educação, seja a educação técnica, seja a visão humana, a empatia, os valores cristãos, que em grande medida são valores também universais. O valor da fraternidade, o valor que se dá à pessoa humana, os valores da interioridade, da espiritualidade, que no fundo são valores partilhados por todas as culturas.

CL – Eu próprio já baptizei filhos de antigos alunos de escolas católicas, que não eram católicos. É uma sensibilidade que nasce ali?

D.J.T.M. – É muito interessante. E as escolas são lugares onde a Igreja se dá a conhecer também; são um cartão de visita da Igreja Católica, e é bom! Como diz o Papa Leão XIV, as escolas ajudam a traçar novos mapas de esperança, no sentido de que devem chegar a todos. E depois, padre Eduardo, vou-lhe deixar aqui – está também em Inglês e em Italiano – a Carta Apostólica do Papa Leão. Foi a primeira Carta Apostólica que o Papa Leão escreveu sobre a Educação.

CL – Ah, que bom, obrigado!

D.J.T.M. – Vou-lhe deixar para si. Isto é desenhar novos mapas de esperança. Ele diz: “Cada escola católica é uma estrela. E essas estrelas, todas juntas, formam uma constelação”. É muito belo saber que, na diocese de Macau, há uma constelação educativa, quer dizer, que as escolas estão presentes, que têm diálogo entre si, que se ajudam e que constituem um património de esperança. Isso é muito importante!

CL – Os jovens preferem ecrãs, vídeos, redes sociais. Como incentivar a formação literária e espiritual?

D.J.T.M. – É muito importante colocar dois tesouros juntos. O tesouro da tradição, porque a literatura, e penso numa cultura como a cultura chinesa, que é uma cultura milenar, o valor da tradição, o valor da poesia, o valor da literatura, deve continuar a ser como um rio vivo que nutre, que alimenta o nosso coração. A tecnologia tem um papel poderoso, mas pode ser também um grande limite se se tornar um fim em si mesmo e não ser um instrumento ao serviço da promoção da pessoa humana.

CL – Como animar a contemplação numa realidade tão acelerada?

D.J.T.M. – A vida, para ser plena, para ser uma vida feliz, tem de ser uma vida integral. Como dizia o teólogo Karl Rahner: “O Século XXI será místico, ou não será”. De maneira que precisamos muito de desenvolver a espiritualidade para podermos construir mundos com esperança.

CL – Como analisa a nomeação de novos bispos na China: será um sinal de aceitação da Igreja?

D.J.T.M. – É muito importante fazer um caminho comum. Este caminho que a Igreja e a China estão a fazer juntos, que a Santa Sé está a fazer com as autoridades chinesas, penso que é um caminho do qual nós estamos a ter frutos muito positivos e é um caminho de esperança, é um caminho de esperança!

CL – Será possível recebermo-lo em Macau?

D.J.T.M. – Eu já pude visitar Macau há uns anos, quando trabalhava na Universidade Católica Portuguesa, como vice-reitor. Tive a grande alegria de visitar a Universidade de São José. Mas, com certeza, Macau é uma diocese tão importante e tão querida que está muito no nosso coração.

CL – O legado português é grande…

D.J.T.M. – Muito forte, muito forte!

CL – Em Macau temos portugueses, chineses e africanos que falam Português, e também gentes de Timor-Leste, etc…

D.J.T.M. – Para a cultura portuguesa, Macau é muito importante; pensarmos nos grandes poetas, pensarmos em Camões…

CL – Camões, que passou por lá…

D.J.T.M. – Passou por lá. De maneira que a cultura portuguesa deve muito também a Macau. Macau é uma referência, Macau é uma luz!

CL – Muito obrigado, Senhor Cardeal, reze por nós!

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NOTA DO DIRECTOR

Como sacerdote e jornalista, tive a alegria de participar, em Roma, na 10.ª edição, em Inglês, do seminário “The Church Up Close: Covering Catholicism in the Age of Leo XIV”, realizado na Universidade Pontificia da Santa Cruz.

A iniciativa reuniu profissionais do sector da Comunicação de todos os continentes, tendo oferecido formação, diálogo e uma visão ampla dos desafios actuais da Comunicação da Igreja.

Durante os dias dedicados ao seminário, entre conferências, debates e momentos de oração, tive a oportunidade de entrevistar diversas personalidades da vida eclesial, cujo conteúdo será publicado pel’O CLARIM nas próximas edições.

A conversa com o cardeal D. José Tolentino de Mendonça, Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, foi um dos momentos mais significativos do caminho que percorri em Roma.

A conversa com D. José Tolentino revelou a profundidade espiritual, cultural e pastoral de uma das vozes mais luminosas da Igreja contemporânea. As suas palavras sobre Macau – terra de encontro, diálogo, missão e esperança – são um convite a reconhecer o papel único desta diocese na História da Evangelização do Oriente. O Cardeal fala com a serenidade de quem conhece a força da tradição e a urgência da inovação, defendendo uma aliança entre Cultura, Educação, Tecnologia e Espiritualidade. A sua visão sobre a China, sobre a missão educativa e sobre a necessidade de uma vida interior profunda é um apelo à esperança e à fidelidade.

P.E.E.A.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

Na Santa Sé

Foto: © Lorenzo Moscia

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