Altar virado ao mar

Capela de Santo António de Armação de Pêra

Altar virado ao mar

Estamos no pico do Verão em Portugal e o destino de eleição por estas paragens é o Algarve. Sendo o mês de Agosto o mais concorrido no Sul do País, nem mesmo a calamidade do fogo que afectou Monchique e as praias nas suas proximidades fez com que a multidão fosse menor.

Aquando da nossa deslocação ao Algarve, em Junho, para participar nos eventos de street food de Lagos e Portimão, ficámos dois dias no Parque de Campismo de Armação de Pêra, uma concorrida praia do concelho de Silves, distrito de Faro. Em conversa com os proprietários de um dos restaurantes do parque de campismo, que é originário da mesma vila que me viu nascer, ficámos a saber que por aqui apenas se trabalha dois a três meses por ano. Caso o Verão seja mau, o resto do ano torna-se complicado para a vida das pessoas.

Em 2017, os empresários algarvios não se queixaram mas – segundo ficámos a saber em Junho – este ano não estavam tão optimistas. Volvido quase um mês da nossa primeira visita, acredito que agora estejam bem mais inclinados para uma safra positiva. No entanto, à semelhança de outros sectores sazonais, a restauração e outros afins ligados ao período de Verão sofreram com a oscilação da economia e das temperaturas. Este Verão, principalmente entre finais de Julho e o mês de Agosto, tem sido quente, o que ajuda a que as pessoas saiam de casa, viajem e gastem dinheiro.

Pelo que tivemos oportunidade de comprovar na zona marginal junto ao mar na praia de Armação de Pêra, Agosto está a abarrotar pelas costuras. Já em Junho, pensávamos nós, que o número de turistas era muito bom…

Nas nossas deambulações pela vila de Armação de Pêra, no meio de milhares de turistas, fizemos uma paragem obrigatória, a Fortaleza de Armação de Pêra. Para nossa tristeza, não foi possível entrarmos na pequena estrutura que está construída no seu centro. A capela de Santo António de Armação de Pêra nada tem de pretensiosa, mas a sua localização é soberba. No meio do branco de toda a fortaleza, virada para o mar, impera sem nunca se querer impor. Contudo, o seu posicionamento, o ar impiedoso do mar, a falta de cuidado por parte dos milhares de turistas que por ali passam, e outros factores, deixaram marcas nas paredes, pelo que aquando da nossa visita estava encerrada para obras de recuperação. Ficámos esperançados que em Agosto estivesse aberta e pronta a ser visitada. Infelizmente, tal não foi possível.

Ainda assim, não deixo de vos relatar a nossa visita e contar um pouco da história que se conhece deste local religioso, do forte onde se insere e também um pouco da vila que nasceu em seu redor.

A capela de Santo António foi construída no século XVIII, talvez em 1720, no adro da Fortaleza de Armação de Pêra. Foi dedicada ao padroeiro do forte, Santo António das Areias. A capela é de arquitectura simples, tem pequenas dimensões e planta longitudinal.

Apesar de ter sido construída em honra do padroeiro do forte, hoje é mais conhecida por capela da Nossa Senhora dos Aflitos, dado que no seu interior guarda uma imagem desta santa, ao lado da estátua do seu santo padroeiro (este data do século XVII). Uma pessoa ligada à Igreja Católica em Armação de Pêra explicou-nos que embora o ano oficial da sua construção seja 1720, trata-se da data de uma das obras de renovação realizadas ao local. A fachada principal, voltada para o mar, é rasgada por um portal com verga de asa de cesto. O lado direito, visto de frente, tem uma pequena torre sineira.

A fortaleza onde se encontra esta capela está classificada desde 1978 e a sua construção, de cariz militar, deveu-se às necessidades de uma família mercantil que operava parte da sua frota de pesca de atum nestas águas. A fortificação, que conta com uma plataforma para artilharia, foi mandada construir pela família dos Galegos, que se notabilizou na luta contra a pirataria que assolava a costa. A sua construção terminou em 1667, tendo logo testemunhado o nascer da povoação (actualmente conhecida como Armação de Pêra) em seu redor. A aldeia já foi conhecida como Pêra de Baixo, Armação de Baixo, Pêra da Armação, Santo António da Pêra da Galé e Santo António de Pêra.

Até ao momento, o facto de praticamente não ser utilizada para celebrações religiosas não impede que a capela se mantenha há muitos anos numa zona fortemente influenciada pela construção desenfreada e pela especulação imobiliária.

Posto isto, conclui-se que não há certezas absolutas quanto à data da construção da capela e do forte. Algumas fontes indicam que no local, antes da actual edificação, tenha existido uma primitiva defesa, a qual poderá ter sido um antigo castro dos lusitanos ou um forte romano, com a principal função de defesa da foz da ribeira de Alcantarilha. Só muito mais tarde, em 1571, poderá ter sido erguida a primeira estrutura apelidada de forte, para defesa contra os ataques dos piratas da Barbária e de corsários em geral. Certeza absoluta é que da construção original pouco ou nada existe. O terramoto de 1755 provocou muitos danos, forçando à sua reconstrução muitos anos mais tarde.

No sitio da Internet da Direcção Geral do Património Cultural do Governo Português podemos ler a seguinte passagem: “Pelas datas apontadas, é possível perceber como a Fortaleza de Armação de Pêra é um fiel exemplo das mais importantes fases construtivas, de arquitectura militar, efectuadas no nosso país ao longo da época moderna. Partindo do reinado de D. João III, em que foram levantadas muitas fortalezas costeiras, o segundo impulso deu-se no contexto das Guerras da Restauração, em que a dinastia de Bragança lutou arduamente pela independência do País face a Espanha, e em que se restauraram e modernizaram muitas praças militares fronteiriças e costeiras, constituindo o Algarve um dos locais mais importantes deste processo, com obras desde praticamente Castro Marim à Fortaleza de Sagres. A própria configuração da fortaleza testemunha essa intervenção seiscentista, materializada na secção meridional do edifício, cuja planta define uma pouco pronunciada estrela de cinco pontas. Finalmente, no reinado de D. João V procedeu-se à construção (ou reformulação) da pequena capela do interior, elemento de carácter religioso importante para os efectivos militares da fortificação, mas também para as populações envolventes, que aqui passaram a ver um símbolo de religiosidade e de protecção face aos perigos do mar”.

Apesar de existir uma Igreja Matriz na Vila de Armação de Pêra e mesmo sem haver manifestações religiosas de vulto na fortaleza, é na capela que os pescadores locais manifestam a sua devoção a Santo António e a Nossa Senhora dos Aflitos. A sua importância, desde os tempos da Restauração, continua bem viva na memória das pessoas – pena é que a maioria dos visitantes desta vila piscatória não faça ideia da importância histórica do local.

João Santos Gomes

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