Apelo às responsabilidades morais de um cristão
No passado dia 25 de Julho, a Igreja Maronita e todo o Líbano celebraram a beatificação do Patriarca Elias Hoyek. A liturgia de beatificação, presidida pelo cardeal D. Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, foi realizada na residência de verão do Patriarcado Maronita em Dimane, com vista para o Vale de Qannoubine.
Amplamente considerado um dos pais fundadores do “Grande Líbano” e um líder espiritual que moldou profundamente a História do País, Elias Hoyek nasceu a 4 de Dezembro de 1843, em Helta, no Norte do Líbano, numa família maronita profundamente enraizada nas comunidades montanhosas, onde a vida eclesial e o vínculo com a terra são inseparáveis.
Aos oito anos de idade ingressou na Escola de São João Maron, em Kfarhi, antes de prosseguir os estudos no Seminário de Ghazir. Em 1866, o Patriarca Boulos Massaad (1806-1890) enviou-o a Roma para completar a formação teológica no Colégio Pontifício Urbano para a Propagação da Fé. Foi ordenado sacerdote a 5 de Junho de 1870, doutorou-se em Teologia a 9 de Agosto e, pouco depois, regressou ao Líbano.
De regresso à terra natal, Hoyek foi nomeado secretário do Patriarca Massaad, em Bkerké, no ano de 1872, o coração institucional do Patriarcado Maronita. Durante estes anos, concebeu a ideia de estabelecer uma congregação apostólica de religiosas dedicada a chegar às periferias da Educação e da Saúde, ao serviço do povo em nome do Evangelho.
A 14 de Dezembro de 1889, foi sagrado bispo, tornando-se Arcebispo Titular de Araca e Vigário Patriarcal. O seu ministério combinava a governação eclesial, a promoção da Catequese e a preocupação prática com as necessidades sociais do Líbano.
Em 1895, na localidade de Jbeil, juntamente com a Madre Rosalie Nasr e a Irmã Stéphanie Kardouch, fundou a Congregação das Irmãs Maronitas da Sagrada Família, o primeiro instituto religioso apostólico feminino da Igreja Maronita. A Congregação cedo se estabeleceu em Ebrine e dedicou-se à Educação, ao Desenvolvimento Humano e à Evangelização.
Em 1908, Hoyek ergueu o Santuário de Nossa Senhora do Líbano em Harissa, onde o Papa Leão XIV se encontrou com bispos, padres, consagrados e consagradas, e agentes pastorais, durante a viagem apostólica que efectuou ao Líbano, em Novembro de 2025.
A 7 de Dezembro de 1899, Elias Hoyek foi eleito o 72.º Patriarca Maronita de Antioquia, assumindo a liderança da Igreja num momento histórico decisivo, marcado pelo declínio do Império Otomano e depois pela crise da Primeira Guerra Mundial e pela ascensão de novas aspirações nacionais no Levante.
Durante a fome que assolou o Líbano entre 1915 e 1917, ordenou aos mosteiros e conventos que abrissem as portas para acolher os famintos, independentemente da sua religião. As autoridades otomanas decidiram deportá-lo, mas a medida foi impedida pela intervenção do Papa e pela diplomacia austro-húngara.
Como resultado, o Patriarca passou a ser considerado não só o líder espiritual da Igreja Maronita, mas também um defensor do povo libanês e da sua dignidade.
Em 1919 representou o Líbano na Conferência de Paz de Versalhes, liderando uma delegação que apelava à independência do País e ao reconhecimento das “fronteiras naturais e históricas” do Líbano, de acordo com o artigo 22.º do Pacto da Sociedade das Nações.
Numa altura em que o projecto de uma “Grande Síria”, apoiado pelo Rei Faisal e pelo emergente sistema de mandatos, estava em voga, Hoyek argumentou veementemente que a autonomia do Líbano deveria ser garantida à luz da História, da Cultura e da composição religiosa única da Nação.
Entre os escritos mais significativos do Patriarca conta-se a carta apostólica “Amor à Pátria”, publicada em 1930, na qual exortava cada cidadão a assumir a responsabilidade pela Nação.
“Quer seja humilde ou importante”, escreveu, “não lhe é permitido afastar-se do destino da Nação e do progresso da sociedade a que pertence”, ligando o amor à Pátria e à Justiça para com os outros e ao compromisso com o bem comum.
No mesmo texto, acrescentou que “aqueles que se recusam a ajudar o seu país pecam não só contra a caridade, mas também contra a justiça”, insistindo que a participação na vida cívica faz parte das responsabilidades morais do cristão.
A 1 de Setembro de 1920, a partir da varanda do quartel-general do Mandato Francês em Beirute, o General Henri Gouraud proclamou a criação do Estado do Grande Líbano, abrangendo as montanhas, as planícies e o acesso ao mar. Segundo os relatos históricos, o Patriarca Hoyek encontrava-se à sua direita, rodeado de dignitários e representantes das diversas comunidades religiosas do País.
A decisão do Papa Leão XIV de aprovar a beatificação de Hoyek, após o reconhecimento das suas virtudes heroicas pelo Papa Francisco em 2019, coloca-o entre os grandes santos libaneses que a Igreja propõe como modelos universais de vida evangélica, incluindo São Charbel Makhlouf.
O milagre reconhecido para a beatificação diz respeito à cura, em 1965, de Nayef Abou Assi, um oficial druso do Exército Libanês que sofria de uma grave doença na coluna vertebral. Segundo o testemunho, acordou completamente curado depois de sonhar com o Patriarca.
Durante os últimos anos de vida, o Patriarca acompanhou de perto o crescimento da Sagrada Família Maronita, aprovando as suas Constituições em 1928 e acompanhando as religiosas com palavras de conforto e de encorajamento. Hoyek faleceu na véspera de Natal, a 24 de Dezembro de 1931, em Bkerké. Os seus restos mortais repousam em Ibrine, na capela da Congregação que fundou, selando simbolicamente o vínculo entre o seu ministério patriarcal, a sua vida consagrada e a sua missão educativa.
Com o decreto de beatificação promulgado pelo Dicastério para as Causas dos Santos e autorizado pelo Papa Leão XIV a 22 de Maio de 2026, a Igreja reconhece formalmente a santidade de um pastor que uniu o amor à Pátria, à sabedoria política e ao compromisso evangélico para com os mais vulneráveis, numa altura em que o Líbano aguarda ainda sinais de renovação e ressurreição social e institucional.
Joaquim Magalhães de Castro

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