Temperança

AS VIRTUDES CARDEAIS

4 – Temperança

O estilo de vida de Jesus distingue-se pela oração, compaixão, moderação e generosidade. E assim deve ser o estilo de vida dos seus seguidores – seguidores do Caminho.

Reflictamos sobre a quarta e última virtude cardeal: a temperança.

A virtude, como já dissemos anteriormente, é a categoria moral por excelência, o princípio interior dinâmico das boas acções humanas, um bom hábito operacional, um traço de carácter que “molda a nossa visão da vida, ajudando-nos a determinar não só quem somos, mas também como vemos o mundo” (G. Mailaender). As virtudes são o caminho da felicidade – e para mais felicidade. Na verdade, as virtudes são o caminho alegre e esperançoso para Deus, para o céu.

Aristóteles e São Tomás de Aquino dizem-nos que a verdadeira felicidade é encontrada na prática das virtudes. O cristão feliz é aquele que possui e pratica as sete virtudes magníficas [as três virtudes teologais e as quatro virtudes cardeais, incluindo a temperança] (São Tomás de Aquino).

Em geral, pode-se dizer que a moderação é uma condição de todas as virtudes. A temperança é a virtude moral que “assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade” (Catecismo da Igreja Católica n.º 1809).

Lemos na Bíblia: “Não sigas os teus desejos vis, mas refreia os teus apetites” (cf. Livro de Eclesiastes). O amor a si mesmo é bom, desde que esteja na devida ordem do amor e não exclua o próximo e a criação. Jesus diz: amai-vos uns aos outros, como amais a vós mesmos. A temperança não é apenas uma questão de ascetismo, mas também uma questão de amor a Deus e ao próximo (Lorda).

A palavra “temperança” significa “viver com moderação”. É a virtude moral que modera a atracção pelos prazeres e proporciona equilíbrio no uso dos bens criados (cf. CIC n.º 1809).

O que devemos moderar?

As paixões, os desejos de prazer. Na verdade, ou se controla as paixões e os instintos ou eles controlam a pessoa. Podemos tornar-nos viciado em prazeres sensuais e sexuais e, portanto, ser por eles controlados. Sem moderação, mais cedo ou mais tarde, a pessoa começa a desperdiçar a vida. O grande filósofo grego Sócrates colocou esta questão da seguinte forma: Temperança significa ser moderado, ser o seu próprio senhor e dominar em si mesmo as paixões e os desejos.

É classicamente representada por um freio (não confundir com rédea). Assim como o freio ajuda o guia a dirigir e controlar os cavalos que movem a carroça, o mesmo acontece com a razão/vontade em relação às nossas paixões e desejos, particularmente com os prazeres corporais. A razão e a vontade também moderam os desejos espirituais – pela santidade, justiça e paz, etc. Quão verdadeiro é o ditado popular latino: “Ne quid nimis” (nada em excesso). Somos “animais racionais”, mas temos de aprender a ser racionais na nossa vida, ou seja, a fazer bom uso da razão, praticando as virtudes, incluindo a temperança.

Nos nossos dias, ascetismo não é uma palavra que está em moda. Geralmente as pessoas procuram formas de evitar sofrimentos e encontrar conforto. O nosso mundo digital convida-nos constantemente a procurar prazeres e oferece-nos, de diferentes maneiras, a “solução” de aproveitar a vida, tendo o máximo de prazeres possível. Para nós, cristãos – e para muitas outras pessoas religiosas –, como provam os santos, “menos é mais”: “não há necessidade de comer tanto, de beber tanto e de alimentar tantos desejos” (Lorda). Sócrates: “Se quiseres fazer um homem feliz, erradica os seus desejos”.

Para poder ter uma vida plena, é preciso ter paz interior e serenidade. Tentar incessantemente satisfazer os nossos desejos não nos dá paz interior. Esta vem da prática da moderação, regida pela razão/vontade. Então, seremos capazes de desfrutar da paz interior, de um dia agradável, de uma bela paisagem. Ser governado pela medida, o meio-termo da razão/vontade, que julga, decide e nos ordena a fazer a coisa certa aqui e agora. Ninguém pode dar essa medida ou moderação a outra pessoa, mas podemos aconselhar, dar conselhos aos outros sobre o caminho certo: cada um de nós é responsável pela sua vida, e ninguém deve ser forçado. Como se costuma dizer, aprende-se a nadar nadando, e aprende-se a rezar rezando.

Há duas áreas a moderar. Primeiro, os impulsos instintivos em relação à comida, bebida, sexo e curiosidade. Segundo, os gostos e inclinações adquiridos. Estes são necessários e bons na medida adequada. Por exemplo, leitura, música, jogos, desporto… No entanto, existe uma ordem de importância, a que Santo Agostinho chama de “ordo amoris” (ordem do amor): Deus, nós mesmos, o próximo, a criação. O nosso gosto pelos prazeres não deve tirar o tempo que precisamos para as nossas obrigações e os desejos mais elevados de verdade, beleza, bondade… As virtudes – incluindo a temperança – estão no meio: nem excesso à direita, nem defeito à esquerda. Por exemplo, comer é bom, mas comer demais ou de menos não é bom. Para alcançar uma certa felicidade, lutamos para não sermos escravizados pelo nosso desejo de dinheiro, poder, prazer, honras, etc. Estes são bons na medida certa, conforme ditado pela razão, realizado pela vontade – e pela fé vivida.

O amor próprio é bom, desde que não se torne exclusivo. Para nos realizarmos como seres humanos, precisamos sair de nós mesmos e abrir-nos aos outros, a quem devemos amar e ajudar. Os prazeres são bons em si mesmos, porque foram colocados por Deus nas nossas potencialidades. No entanto, quando usados de forma desordenada – abusados –, os prazeres podem tornar-se maus ou pecaminosos – como os actos dos quais procedem. Por exemplo, o consumismo. Entre as acções contrárias à dignidade humana estão “os gastos excessivos e o desperdício” (cf. CIC n.º 2409).

A temperança é uma virtude humana e cristã. Na perspectiva humana, a virtude da temperança modera principalmente a saúde do corpo, “o prazer ligado às faculdades nutritivas e geradoras”, concretamente o tacto e o paladar; a luxúria e a gula.

Na perspectiva cristã, a temperança infundida é para o bem do corpo e da alma. Tradicionalmente, a temperança é descrita como uma virtude sobrenatural que “modera a inclinação para os prazeres sensíveis, particularmente do tacto e do paladar, contendo-os dentro dos limites da razão iluminada pela fé” (A. Royo-Marin, “Teología Moral para seglares”). Às vezes, a temperança infundida (temperança humana elevada pela graça divina e pela caridade) exige “abstinência completa de bebidas alcoólicas para o bem da alma; às vezes, exigirá jejum ou virgindade”. Depende do nosso estado de vida, da nossa vocação.

Os vícios opostos à temperança são: por defeito, a insensibilidade e, por excesso, a intemperança.

A insensibilidade não é humana – sem sentimentos, sem prazeres. Algumas heresias ao longo da história defenderam que a carne, o corpo, é mau, como os maniqueístas, os albigenses, os gnósticos (firmemente condenados pela Congregação para a Doutrina da Fé na Carta Placuit Deo – “Agradou a Deus”, 2018). A insensibilidade implica uma abnegação irracional. Nós, seres humanos, não somos pedras. Temos sentimentos e paixões que devem ser controlados ou moderados pela razão e pela fé, contribuindo assim para a nossa felicidade. Deus criou-nos como corpo e alma. O corpo não é mau, nem uma prisão, mas um parceiro que contribui para a nossa felicidade.

A intemperança cega a razão. É fácil tornar-se escravo dos sentidos e do seu desejo incontrolável por prazeres físicos. Tal arruinou a vida de muitas pessoas no mundo e na Igreja. O ascetismo – a mortificação – é essencial para que todos os seres humanos possam ter o corpo sob o espírito e o espírito sob Deus (Santo Agostinho).

Como fortalecer a virtude da temperança! A teologia moral e espiritual recomenda o seguinte: oração (a melhor arma contra todas as tentações), moderação na comida e na bebida; guardar os nossos olhos, que são a janela da alma (veja-se o que aconteceu com Eva, com David e com muitas pessoas que se destacavam em muitos aspectos). Com cuidado perseverante, devemos evitar as ocasiões de pecado, que nos podem levar a cometer pecado (cf. Luis de Granada, “Obra Selecta”).

A temperança é uma virtude pessoal com importantes dimensões sociais. Sem dúvida, podemos dizer que a temperança é também uma virtude social próxima da justiça e da solidariedade. São João Paulo II: “Em matéria económica, o respeito pela dignidade humana exige a prática da virtude da temperança, para moderar o apego aos bens deste mundo, a prática da virtude da justiça, para preservar os direitos do próximo e dar-lhe o que lhe é devido, e a prática da solidariedade, de acordo com a regra de ouro e em consonância com a generosidade do Senhor, que ‘embora fosse rico, por nossa causa… se tornou pobre para que, pela sua pobreza, vocês se tornassem ricos’” (cf. Veritatis Splendor n.º 100; CIC n.º 2407).

Alguns números mais adiante, o Catecismo da Igreja Católica determina: “A corrupção, os salários injustos, a fraude, o trabalho mal feito, a fraude fiscal (…), o desperdício de coisas, etc., são contrários à dignidade humana” (cf. CIC n.os 2408–2413). Além disso, “os jogos de azar (jogos de cartas, etc.) não são, em si mesmos, contrários à justiça (…). No entanto, a paixão pelo jogo pode tornar-se uma escravidão” (cf. CIC n.º 2413).

E para concluir! A temperança – como outras virtudes – deve ser medida e movida pelo amor, o amor de Deus em nós, a caridade.

Pe. Fausto Gomez, OP

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