Fortaleza

AS VIRTUDES CARDEAIS

3 – Fortaleza

Ao longo de toda a vida, homens e mulheres de todas as idades precisam da virtude humana da fortaleza (ou de coragem). Os cristãos e outros crentes, em particular, estimam a virtude da coragem de uma forma especial.

Hoje, os cristãos e outros crentes são chamados a ser fortes no nosso mundo secular, que parece ser alérgico a Deus e muito receoso das guerras, das pandemias, da violência, da pobreza crescente – da morte. Neste contexto, a virtude da coragem é mais necessária e urgente.

Desde o início do Cristianismo, os discípulos de Cristo são chamados – seguindo o seu único Mestre – a ser corajosos, a testemunhar a fortaleza.

Os Apóstolos, relutantes no início, e pouco-a-pouco depois, aceitaram e acreditaram na ressurreição de Cristo, ou seja, que o Senhor Ressuscitado era o mesmo Senhor Crucificado – gloriosamente diferentes –, o mesmo Jesus de Nazaré. Antes da Páscoa, os discípulos estavam com muito medo e tristes. Depois da Páscoa-Pentecostes, viveram a sua fé no Senhor crucificado e ressuscitado com alegria e coragem, proclamaram-na, sofreram e morreram por ela: «Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor» (Actos, 4, 33). São João Crisóstomo afirma que esta mudança radical nos discípulos é prova da verdade da ressurreição de Cristo.

A fortaleza é definida como “uma força da alma que nos ajuda a controlar a paixão do medo e refreia a paixão da ousadia, para não abandonarmos uma boa acção por causa do sofrimento humano, mesmo o sofrimento da própria morte”. Assim, com a virtude da fortaleza, pode-se suportar o perigo, o sofrimento, a dor e a morte – e enfrentar o mal, combatendo-o!

A fortaleza é a virtude moral que garante firmeza nas dificuldades e constância na busca do bem (cf. Catecismo da Igreja Católica nº 1808).

Resumidamente, podemos definir a fortaleza como “a capacidade de suportar o mal e também de combatê-lo”. Os actos de fortaleza, portanto, são “suportar e combater ou atacar o mal”: resistir sem desmoronar e ousar atacar sem desanimar.

Entre os dois actos principais da virtude da fortaleza, a ordem de classificação é: resistir mais do que atacar. É por isso que o acto mais perfeito de fortaleza é o martírio, que é “a resistência à morte em testemunho da verdade do cristianismo” (São Tomás de Aquino). Os mártires, ou testemunhas (mártir significa testemunha), são os grandes exemplos de fortaleza.

Os inimigos da coragem são os vícios que se lhe opõem. O vício, por defeito, é o medo ou a cobardia: “Aquele ou aquela que tem medo começa a sofrer antes que o sofrimento chegue” (Juan Luis Lorda).

Dois vícios por excesso, a saber: a indiferença ou impassibilidade e a imprudência ou temeridade, que significa coragem excessiva e irracional causada por excesso de confiança, orgulho e estupidez (cf. São Tomás de Aquino).

Indiferença ou impassibilidade significa ausência de medo razoável das coisas que se devem temer; “o medo guarda a vinha!” No entanto, cuidado! O medo descontrolado aumenta o medo e pode tornar-nos escravos de um medo assombroso. Portanto, «não tenhamos medo, mas temamos o próprio medo» (J. F. Kennedy). Agir com medo, sim. Agir por medo, não.

A preguiça opõe-se à ousadia razoável. Por causa da preguiça, “somos menos do que poderíamos ser; fazemos menos do que poderíamos fazer; servimos menos do que poderíamos servir” (Juan Luis Lorda, “Virtudes”).

A fortaleza é uma virtude concreta, mas também uma virtude geral: a prática de todas as virtudes requer a ajuda da virtude cardeal da fortaleza: “Sem a virtude da fortaleza, todas as outras virtudes ficam, por assim dizer, amarradas de pés e mãos e, consequentemente, é difícil praticá-las” (Luis de Granada).

Todas as virtudes são bons hábitos operacionais ou disposições habituais firmes nas faculdades de uma pessoa para o bem. Elas estão conectadas. A coragem está ligada às outras três virtudes cardeais: prudência, justiça e temperança. Está intimamente e directamente ligada às virtudes da paciência (contra o vício da impaciência), perseverança (contra a inconstância) e magnanimidade (contra a mediocridade).

Todos os seres humanos precisam da virtude da fortaleza para enfrentar adequadamente os perigos e sofrimentos que fazem parte da vida na terra, incluindo especialmente a morte pessoal e a morte dos entes queridos. Além disso, precisamos da virtude da coragem para sermos capazes de lutar como bravos pelos nossos ideais e convicções dignas. A posse da fortaleza, além disso, ajudar-nos-á a viver pacientemente com pessoas que são agressivas, ou falam demais e não ouvem, ou são excessivamente críticas dos outros.

A virtude da coragem também é muito necessária na vida espiritual. No contexto cristão, a fortaleza é virtuosa quando, uma vez fundamentada na fé, inspirada pela esperança e vivificada pelo amor, é capaz de afastar o medo irracional, a cobardia e a impaciência. Na vida, todos temos de lutar contra tentações internas e externas – da carne, do mundo e do diabo. O diabo é o tentador: «Disciplinem-se, mantenham-se alertas. Como um leão rugindo, o vosso adversário, o diabo, ronda, procurando alguém para devorar. Resistam-lhe, firmes na vossa fé» (1 Pedro 5, 8-9).

Os santos, em particular os místicos, mostram-nos, por meio das suas vidas e dos seus escritos, como é bela a visão do final feliz e como é difícil – mas possível com a graça e o amor infalíveis de Deus – progredir em direcção a esse fim que todos ansiamos. A perigosa jornada da vida torna-se mais suportável e até alegre com a ajuda necessária da virtude da fortaleza permeada pela caridade ou amor. Os cristãos sabem que a virtude infundida da coragem é aperfeiçoada pelo correspondente dom do Espírito Santo e pelos frutos do Espírito, que são a paciência e a perseverança.

Além dos males internos e externos habituais que nos ameaçam, muitos cristãos hoje enfrentam na vida social o ódio, a violência, as mentiras, a marginalização, o ridículo: uma cruz pesada! Precisamos de ser fortes, pacientes e compassivos. E, portanto, precisamos de ajuda: a ajuda sempre disponível de Deus, Uno e Trino: o poder misericordioso do Pai, através do amor salvador de Jesus e da graça divina do Espírito Santo, e (com e através de Cristo) a intercessão de Nossa Senhora e dos santos.

Colocamos a nossa vida nas mãos misericordiosas de Deus. Jesus diz aos seus seguidores: “Não tenham medo (…) Eu estarei convosco até ao fim dos tempos” (cf. Mt., 28, 10.20). Os seres humanos admiram muito os guerreiros como heróis. Para os cristãos, o seu único herói e modelo é Cristo crucificado e ressuscitado. Os mártires, em particular, continuam a dar a vida pela sua fé.

No contexto da virtude da fortaleza, não permitimos que a amargura ou a raiva invadam os nossos corações, nem permitimos que o medo irracional paralise a nossa alma: «Ainda que eu ande pelo vale mais escuro, não temo nenhum mal, pois tu [Senhor] estás comigo; a tua vara e o teu cajado me dão coragem» (Sl., 23, 4); «O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?» (Sl., 27, 1); O Senhor é a minha força e o meu poder (Sl., 118, 14).

São Paulo dá-nos as armas que devemos usar na nossa batalha espiritual: “Fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder (…) Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do diabo (…) Portanto, permaneçam firmes e cingam-se com o cinto da verdade, e vistam a couraça da justiça. Calcem os pés com o que os tornará prontos para proclamar o evangelho da paz. Tomem o escudo da fé (…) Tomem o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. Rezem no Espírito em todos os momentos” (cf. Ef., 6, 10-11, 14–18).

Cristo é, de facto, o nosso modelo de fortaleza e a fonte da nossa força: «Sem mim, disse-nos Ele, nada podeis fazer». Com Deus, diz-nos o salmista, podemos escalar qualquer muro.

Pe. Fausto Gomez, OP

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