Malaquias (2) – A Última Profecia: A Justiça de Deus (Mal., 3, 13–24)
O DIA DO SENHOR
No capítulo anterior, apresentámos os primeiros cinco versículos de Malaquias. Agora, encerramos o ciclo dos profetas, centrando-nos na promessa e na advertência centrais dos últimos versículos do último livro profético do Antigo Testamento. Aqui, a disputa entre Israel e o Senhor é resolvida quando Malaquias aborda duas questões fundamentais dos quarto e quinto oráculos:
a) «Onde está o Deus do juízo?» (Mal., 2, 17).
O Senhor responde anunciando a vinda iminente do «Dia do Senhor» (Mal., 3, 19), um dia de juízo e de separação dos ímpios dos justos.
b) «Quem poderá subsistir quando ele aparecer?» (Mal., 3, 2).
Aqueles que servem e temem o Senhor serão salvos desse dia terrível: «Eles serão meus, diz o Senhor Todo-Poderoso, a minha posse preciosa no dia em que eu agir. Eu os pouparei, assim como um pai tem compaixão dos seus filhos que o servem» (Mal., 3, 17).
Assim, a vinda do Senhor terá impacto tanto sobre os ímpios como sobre os justos, tranquilizando os justos que, em meio à prosperidade dos malfeitores (cf. Mal., 3, 15), questionavam a justiça de Deus.
O SOL DA JUSTIÇA
«Pois eis que vem o dia, ardente como uma fornalha; e todos os arrogantes e todos os malfeitores serão como palha; e o dia que vem os consumirá, diz o SENHOR dos Exércitos, de modo que não lhes restará nem raiz nem ramo. Mas para vós que temeis o Meu nome, o sol da justiça nascerá com cura nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da manjedoura. Pisareis os ímpios, pois serão cinzas sob as solas dos vossos pés no dia que estou a preparar, diz o SENHOR dos Exércitos» (Mal., 3, 19–21).
Uma questão persistente permanece: por que razão prosperam os ímpios enquanto os justos sofrem? (cf. Mal., 3, 15).
O profeta, deslocando o foco para o futuro, assegura-nos que a justiça divina prevalecerá. Os fiéis de Deus só precisam de viver segundo os Seus preceitos, cientes dos destinos divergentes dos ímpios e dos justos.
Os fiéis de hoje são chamados a tornar visível a justiça de Deus, seguindo o Seu plano e denunciando a injustiça, para que a fidelidade traga alegria e os pobres sejam ouvidos. O compromisso com a justiça é essencial para viver em harmonia com a verdade divina.
As palavras do primeiro oráculo, onde o Senhor expressou o Seu amor por Jacó (cf. Mal., 1, 2), são reafirmadas no final do livro: as lições aprendidas com a história servem como garantia da aliança de amor do Senhor nos últimos dias, no «Dia do Senhor».
Talvez a pergunta mais difícil que Israel faz a Deus esteja em Malaquias 3, 14: «É inútil servir a Deus. De que adianta guardar os seus mandamentos ou lamentar-se perante o Senhor dos Exércitos?».
Malaquias afirma que a fé será justificada naquele dia pelo «sol da justiça», que brilhará sobre os justos, curando-os e dando-lhes força. Esta imagem é utilizada pelo pai de João Baptista, Zacarias, no seu cântico: «Graças à terna misericórdia do nosso Deus, pela qual a aurora do alto nos visitará, para brilhar sobre aqueles que estão nas trevas e na sombra da morte, a fim de guiar os nossos pés pelo caminho da paz» (Lc., 1, 78-79).
O REGRESSO DE ELIAS
«Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, bem como dos estatutos e ordenanças que lhe ordenei em Horebe para todo o Israel. Eis que vos enviarei o profeta Elias antes que chegue o dia grande e terrível do Senhor. Ele fará com que o coração dos pais se volte para os filhos e o coração dos filhos para os pais, para que eu não venha e fira a terra com uma maldição» (Mal., 3, 22–24).
Quando nos lembramos das obras de amor de Deus, as nossas acções alinham-se com a Sua vontade. Nos profetas, “lembrai-vos” orienta as pessoas para o envolvimento de Deus e para as implicações da aliança na vida comunitária, um sinal claro do Seu amor. Os versículos finais de Malaquias referem-se a Moisés e à aliança, concluindo a literatura profética.
O apelo de Deus aos profetas consiste em aplicar a Torá – a Lei – no meio dos desafios morais, religiosos e sociais do Seu povo, em qualquer época e situação histórica específica, reforçando sempre a esperança enraizada no dia vindouro do Messias, «o sol da justiça». Esta visão central divide a Humanidade: os ímpios enfrentam o julgamento, enquanto os justos encontram cura e consolo.
Moisés e Elias representam a Lei e os Profetas, pilares da vida espiritual de Israel: a Lei como modelo para viver com justiça na terra, os Profetas como uma consciência viva que corrige e orienta. Moisés lembra-lhes a aliança e a sua vitalidade no presente; Elias aponta para o futuro. A sua presença evoca continuidade e propósito divino.
Elias, que tinha subido ao céu numa carruagem de fogo (cf. 2 Reis 2, 9–12), regressaria como um mensageiro enviado do céu para desencadear a transformação que se completaria «no grande e terrível dia do Senhor» (Mal., 3, 23). No Evangelho de Lucas, o anjo Gabriel revela que isto se cumpre em João Baptista: «Ele irá adiante dele no espírito e no poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos…» (Lc., 1, 17). Jesus também atesta esta profecia: «Mas eu digo-vos que Elias já veio, e não o reconheceram (…). Então os discípulos compreenderam que ele lhes falava de João Baptista» (Mt., 17, 12-13).
Deus enviará Elias para promover a reconciliação e a unidade numa comunidade ferida pela injustiça e pela discórdia e, finalmente, «Jerusalém habitará em segurança» (Zac., 14, 11).
O AMOR DA ALIANÇA
A aliança une pessoas concretas – pessoas com nomes e histórias – numa comunidade de apoio mútuo, enraizada num contexto histórico: lugar, tempo, história e cultura.
Quando Deus criou Adão, este viu-se sozinho, sem uma ajudante adequada; Deus disse: «Não é bom que o homem esteja só» (Gén., 2, 18). O crescimento na família e na comunidade faz parte da natureza humana. A mulher e o homem são chamados a serem ajuda mútua para a plena realização dos seus seres, numa comunhão destinada a dar fruto e a encontrar o seu lar em Deus.
Por isso, a nova aliança de Jesus no casamento, na família e na comunidade aponta para a redenção que assume forma visível em nós. A verdadeira unidade, inspirada no amor divino do próprio ser de Deus, é essencial para a realidade do Reino dentro de nós – para que viver segundo a justiça de Deus seja tanto o objectivo como a prova da Sua presença.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Reza para renovar a tua aliança com Deus. Recorda as obras poderosas de Deus na tua história pessoal e familiar. Pede graça para permaneceres fiel, mesmo quando a justiça parece demorar a chegar.
. Pede ao Senhor unidade na tua família, na tua comunidade e na Igreja. Reza pela reconciliação onde existe divisão e pela coragem de seres testemunha do amor de Deus e servo da comunhão.
. Tal como Abraão, Maria e José, pede ao Senhor que faça da tua vida uma bênção para os outros. Reza para que as tuas acções revelem a presença de Deus em ti, dando fruto em amor, serviço e esperança.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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