Malaquias (1) – A Última Profecia a Israel (Mal., 1, 1–5)
CONTEXTO HISTÓRICO
O Livro de Malaquias é uma obra profética tardia, datada de meados do Século V a.C., que se dirige à comunidade pós-exílica de Judá durante o domínio persa. Salienta a fidelidade à aliança, critica o sacerdócio corrupto e antecipa a vinda do “mensageiro do Senhor”. O profeta critica também a injustiça social e a imoralidade nas relações conjugais.
Malaquias funciona como uma ponte entre a profecia e a expectativa messiânica, salientando a fidelidade à aliança e preparando para a esperança escatológica que se cumpre no Novo Testamento. O livro aponta para a vinda de Cristo, que estabelecerá uma nova aliança. Antecipa a vinda de um profeta no espírito de Elias, que preparará o caminho do Senhor, mais tarde interpretado como João Baptista.
UM ORÁCULO PARA ISRAEL
Malaquias, o último livro profético do Antigo Testamento, começa com «Um oráculo», especificando: «a palavra do Senhor a Israel por meio de Malaquias» (Mal., 1, 1). O nome Malaquias significa “Meu Mensageiro”. Neste livro, Deus transmite a sua mensagem final do Antigo Testamento a Israel antes da chegada de João Baptista.
Esta mensagem centra-se em chamar Israel – agora entendido na sua identidade pós-exílica, para além da tribo de Judá – de volta à renovação da sua aliança com Deus. Tendo isto em conta, a referência a “Israel” resume a sua identidade comum, desde Abraão até ao exílio e ao regresso, enquadrando todo o argumento em torno da relação duradoura de Deus com o Seu povo escolhido.
A ALIANÇA E A ESCOLHA DE DEUS
«Eis a Palavra profética do Senhor, contra Israel, anunciada por intermédio de Malaquias, “Meu Mensageiro”. “Eu sempre vos amei”, assegura o Senhor. “No entanto, vós me questionais: ‘De que maneira nos tens amado?’. Ora, não era Esaú irmão de Jacó?”, relembra o Eterno. “Ainda assim, amei Jacó, e rejeitei Esaú. Transformei as suas montanhas em terras arrasadas e entreguei a sua herança aos chacais do deserto”. Embora os descendentes de Esaú, isto é, os edomitas, aleguem: “Estamos devastados, mas voltaremos e reedificaremos as nossas ruínas!”. Assim diz o Senhor Todo-Poderoso: “É possível que consigais reconstruir, mas Eu demolirei tudo outra vez! Eles serão chamados Rish’âh Gebûl, Terra Perversa, um povo contra quem o Senhor está irado para sempre. E com os vossos próprios olhos havereis de contemplar tudo que vos afirmo e exclamareis: Grande, é o Senhor, até mesmo muito além das fronteiras de Israel!”» (Mal., 1, 2–5).
O primeiro oráculo (cf. Mal., 2–5), apresentado como uma disputa entre Deus e Israel, centra-se na declaração de amor de Deus e na resposta céptica do povo. Malaquias dirige-se aos líderes civis e religiosos e ao povo de Judá no contexto da restauração pós-exílica, desafiando-os a reconhecer o amor duradouro de Deus como a base para a renovação da aliança.
Tal como em Deuteronómio-Zacarias, a desilusão com a situação sócio-política do povo leva-o a duvidar do amor de Deus. As visões de Sião no livro de consolação do Segundo Isaías, que também se encontram no Primeiro Zacarias e em Ageu, parecem simplesmente não corresponder à realidade.
Deus recorda a sua escolha: «Amei Jacó, mas odiei Esaú». Isto não significa animosidade pessoal para com Esaú, mas sublinha a escolha de Jacó por parte de Deus. Da mesma forma, em Lucas 14, 26, Jesus fala de odiar a família para realçar a escolha de Deus acima de tudo. Aqui, “não amado” significa simplesmente “não escolhido”. Israel foi escolhido entre os povos, destinado a ser uma bênção para todos. Deus não rejeita os outros; revela-Se através de mediadores, alcançando todos no tempo certo. Isto culmina no Messias, nascido num contexto específico, que abre a salvação a todos ao enviar os seus Apóstolos ao mundo (cf. Mt., 28, 19-20).
O Senhor desafia-nos a olhar para o passado e a admitir a nossa desobediência à aliança. Deus escolheu Israel e amou profundamente o seu povo com fidelidade e bondade. Mas uma aliança, tal como o casamento, implica aceitar o amor da pessoa amada e responder com amor. Não com indiferença e, certamente, não com adultério. A condição para permanecer na aliança é o amor a Deus acima de tudo: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt., 6, 5).
O SENHOR DA HISTÓRIA
Malaquias desenvolve o tema da soberania de Deus: Israel deve reflectir sobre as suas experiências históricas e aprender com elas; o mesmo Senhor que conduziu à destruição das fortalezas de Edom – os edomitas eram descendentes de Esaú – é Aquele que liberta Israel e o traz de volta à sua Terra do exílio.
Esta argumentação conclui que o amor constante de Deus por Israel continua a ser central. A queda de Edom, inimigo de Israel, demonstra a soberania e o poder de Deus para redimir e despertar espiritualmente o seu povo, reforçando o argumento principal da relação de compromisso e da libertação por parte de Deus.
A ALIANÇA NAS NOSSAS VIDAS
Uma questão prática: o que tudo isto significa hoje para nós?
No nosso próprio contexto, constatamos que o Senhor nos põe à prova e nos purifica, apesar das nossas falhas, dando-nos a oportunidade de regressar à “nossa terra”, o nosso verdadeiro lugar de pertença. Tal como aconteceu com Israel, a nossa caminhada e a reconstrução da Cidade de Deus devem ser um esforço conjunto. O individualismo não tem aqui lugar; a aliança, embora exija uma resposta pessoal, pressupõe também uma acção colectiva. Somos, tal como Israel, um povo em caminhada – um “caminho sinodal”. Em contraste com a fragmentação de Babel, somos agora chamados à unidade da Jerusalém Celestial, o dom prometido por Deus à Igreja aperfeiçoada (cf. Ap., 21, 2–4), que culmina a História da Salvação.
As nossas comunidades de fé e as nossas famílias têm histórias marcadas pelo amor de Deus, pelas nossas infidelidades e por momentos de conversão. Ao restaurar a aliança, testemunhamos a compaixão, o perdão e o encorajamento de Deus.
Malaquias apresenta Deus como Senhor da História, agindo com actos visíveis nas nossas vidas. Precisamos de despertar, contemplar e entrar nessa relação de amor chamada “aliança”. A Bíblia utiliza a metáfora do casamento ao longo de todo o texto para testemunhar o amor fiel e compassivo de Deus – amor que, em Jesus, nos chama “amigos” e já não “servos” (cf. Jo., 15, 14).
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Louvai o Senhor e agradecei-Lhe por vos ter escolhido e chamado para participar na Sua aliança de amor.
. Rezai com força para responder ao amor de Deus com fidelidade, evitando a indiferença ou a tibieza. Pedi ao Espírito Santo os dons da piedade e do temor do Senhor.
. Conclua reafirmando a sua confiança na orientação duradoura e na soberania amorosa de Deus. Comprometa-se a seguir em frente com fé, confiante de que o Senhor, que tem sido fiel ao longo da História, permanece presente consigo, com a sua família e com a sua comunidade – chamando todos à esperança, à unidade e à renovação contínua no âmbito da Sua aliança.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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