Zacarias 3 – Olhando o Traspassado (Zac., 12-13)
INTRODUÇÃO
Zacarias 12-13 faz parte de uma secção mais ampla do livro do profeta que fala da acção de Deus na História. Começa com uma lembrança de que Deus é o Criador e desenvolve-se em torno da expressão “naquele dia”, que assinala um momento decisivo na História da Salvação.
Neste contexto, destacam-se três temas:
a) As nações a lutar contra Jerusalém;
b) O luto por aquele que é traspassado;
c) A purificação do povo de Deus.
UM DEUS TRASPASSADO
«A palavra do Senhor sobre Israel: Assim diz o Senhor, que estendeu os céus e fundou a terra e formou o espírito humano no seu interior. Vede, estou prestes a fazer de Jerusalém um cálice de embriaguez para todos os povos vizinhos; será também contra Judá no cerco contra Jerusalém» (Zac., 12, 1-2).
Após uma referência ao tempo da criação, Jerusalém está cercada por nações inimigas. Neste momento, Deus, como um guerreiro, vem defender o seu povo. Inesperadamente, no meio desta cena, a imagem de um traspassado surge como o centro do texto: «Eles olharão para mim, aquele a quem traspassaram» (Zac., 12, 10b).
O profeta transmite a palavra do Senhor, e um oráculo profético tem Deus como orador. Não há aqui excepção; Deus declara literalmente: «Olharão para mim, aquele a quem traspassaram». Para os israelitas, isto é difícil de aceitar. Deus é espírito; nenhuma imagem Dele poderia ser feita. Como poderia Ele ser traspassado e afligido se não tem corpo?
Esta questão continua a preocupar intérpretes e tradutores até aos dias de hoje. A prova disso pode ser encontrada nas diferentes traduções deste versículo obscuro e controverso. A “Septuaginta”, a tradução grega da Bíblia hebraica, feita por rabinos alexandrinos cerca de dois séculos antes de Cristo, partiu do princípio de que se tratava de um erro do copista. Alteraram o verbo “traçar” para “dançar”. A Nova Bíblia de Jerusalém mantém o texto literal. A Nova Versão Padrão Revisada diz: «Eles olharão para aquele que traspassaram», tal como muitas outras traduções.
Para interpretar a Bíblia na forma católica, precisamos de ver que ela narra a História da Salvação. Esta história desenrola-se gradualmente. As figuras do Antigo Testamento são cumpridas, visualizadas e finalmente compreendidas no Novo Testamento, especialmente em Cristo e na sua Páscoa, o “Mistério Pascal” da sua morte e ressurreição. Podemos então compreender os elementos da profecia, que permanecem enigmáticos para os judeus e alguns cristãos.
É o quarto evangelista que nos ajuda a compreender este mistério: a morte de Deus. João cita esta passagem para mostrar como a profecia se cumpre em Jesus. Jesus está pendurado na cruz e é traspassado pela lança (cf. Jo., 19, 37). É agora possível compreender aquele que Zacarias apresenta como um pastor intimamente ligado a Deus, que é morto e provoca a dispersão das suas ovelhas (cf. Zac., 13, 7). Em Jesus, o Filho de Deus feito homem, o próprio Deus é traspassado. As três pessoas actuam no acto supremo da redenção humana: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
O DERRAMAMENTO DO ESPÍRITO
«Derramarei sobre a casa de David um espírito de compaixão e de súplica» (Zac., 12, 10a).
No Evangelho de João, Jesus não expira na sua morte, como em Marcos 15, 37. Ao invés, «entrega o seu espírito» (Jo., 19, 30). Este é um sinal do dom do Espírito Santo sobre a Igreja nascente, representada por aqueles poucos aos pés da cruz, na sua maioria mulheres. O Senhor derramará um espírito de compaixão e conversão sobre os líderes e sobre toda a nação. Os habitantes de Jerusalém olharão para Ele e chorarão «aquele que [eles próprios] traspassaram». A conversão é um dom gratuito de Deus. Permite-nos ver a verdade e experimentar o Seu amor insondável.
Chorar aquele que eles próprios traspassaram, como fazemos na Sexta-feira Santa, faz parte do processo de renovação do povo de Deus. Depois, a seguir a este tempo de luto, lemos: «Naquele dia, será aberta uma fonte para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, para os purificar do pecado e da impureza» (Zac.,13, 1).
Outro sinal do dom do Espírito Santo é a água que jorrou do lado aberto do Salvador (cf. Jo., 19, 34). Como se vê em Ezequiel 47, 1–12, o corpo de Jesus é o templo (cf. Jo., 2, 19). Dele jorram águas vivas.
O Senhor é o traspassado e ferido que se identifica com os justos que sofrem por causa do Evangelho (cf. Mt., 5, 11-12). O “transpassado” também se refere ao pastor, ferido e morto, que é companheiro ou assistente de Deus em Zacarias 13, 7; Jesus é o Filho unigénito de Deus, enviado pelo Pai, para que o mundo, por meio Dele, possa alcançar a vida em abundância (cf. Jo 3, 16; 10, 10b).
OLHAR PARA O TRANSPASSADO
Lamentar e chorar por um filho único (cf. Zac., 12, 10c) mostra que os enlutados reconhecem a sua culpa. Também admitem a responsabilidade pela sua crueldade para com ele. Olhar para aquele que é levantado remete para Números 21, 9, onde Moisés colocou uma serpente numa haste para que o povo olhasse para ela e fosse curado do seu pecado. Partindo daí, em João 3, 14, Jesus afirma: «Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também o Filho do Homem deve ser levantado, para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna».
No deserto, olhar para a serpente trouxe cura aos que se queixavam contra o Senhor. Aqui, olhar para o traspassado traz perdão e vida nova para aqueles que O traspassaram com os seus pecados.
ESPERANÇA E PURIFICAÇÃO
«Naquele dia, será aberta uma fonte para a casa de David e para os habitantes de Jerusalém, para os purificar do pecado e da impureza» (Zac., 13, 1).
Somente no Senhor Jesus Cristo, fonte de salvação para toda a Humanidade, podemos ser purificados e renovados por dentro. Do Seu lado aberto, podemos saciar a sede mais profunda das nossas almas: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, “da sua interioridade correrão rios de água viva”» (Jo., 7, 37-38).
Estes dois capítulos transmitem-nos uma poderosa mensagem de esperança. Em particular, é Deus quem vence a batalha que liberta a cidade – não com armas, mas ao suportar as feridas causadas pelas armas que nós mesmos criámos. Embora os sumos sacerdotes e os reis tenham falhado, o Senhor libertará o Seu povo através do precioso sangue do Seu Filho unigénito. Não há amor maior do que este (cf. Jo., 15, 13).
O capítulo 13 começa com a promessa de purificação. Uma fonte de purificação será aberta para Jerusalém, lavando o pecado e a impureza. Desta forma, o próprio Deus proporciona a salvação.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
. Esta passagem convida-nos, em última análise, a olhar para aquele a quem traspassámos; por isso, dediquemos algum tempo a contemplar o lado ferido do nosso Salvador num crucifixo.
. Durante este tempo, permanece em silêncio e acção de graças, louvando Aquele que se ofereceu por ti e morreu na cruz para selar uma nova amizade com a Humanidade através da mediação da Sua Igreja.
. Pede o dom do Espírito Santo para te transformar e fazer da tua vida uma oferta de amor ao Pai, pelo mundo em Cristo.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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