Zacarias 2 – O próprio Senhor pastoreará o Seu rebanho
CONTEXTO HISTÓRICO
A segunda parte do livro (Zacarias 9–14) é atribuída a outro profeta, comumente referido como Deutero-Zacarias. Parece que exerceu o seu ministério durante o período helenístico, após a conquista da Síria e da Palestina por Alexandre, o Grande, em 332 a.C.
A partir do Capítulo 9, o texto passa da prosa para a poesia. O autor expressa profunda decepção com a liderança política e religiosa de Judá, que tinha sido reduzida a uma mera província sob domínio persa, administrada por um governador nomeado pelo império e com autonomia limitada. Após a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C., Judá ficou sob controlo grego, e a pouca autonomia de que gozava sob os persas foi ainda mais reduzida. Nenhum nome de sumo sacerdote ou rei aparece nesta secção. A esperança do profeta, que na primeira parte do livro estava depositada em pessoas como Josué, o sumo sacerdote, e Zorobabel, um descendente de David, repousa agora na intervenção do Senhor como um Rei de um tipo totalmente diferente.
UM REI HUMILDE
(Zac., 9, 9–15)
«Alegra-te muito, ó filha de Sião! Grita de alegria, ó filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; ele é triunfante e vitorioso, humilde e montado num jumento, num jumentinho, o filhote de uma jumenta» (Zac., 9, 9).
Um novo rei, humilde e pacífico, oposto aos pastores corruptos (cf. Zac., 11, 4-5), entra em Jerusalém «montado num jumento». Ele «reinará de mar a mar» (Zac., 9, 10) sobre todas as nações. Com o fracasso das linhagens de Davi e de Levi, Deus estabelecerá o reino e o culto definitivos (cf. Zac., 14, 16).
A imagem do rei a entrar montado num jumento refere-se a um descendente de David, manso e humilde, interpretada no Novo Testamento como uma profecia messiânica cumprida na pessoa de Jesus, filho de David, que fez a sua entrada triunfal em Jerusalém antes da sua paixão, montado num jumento (cf. Mt., 21, 2–7).
«Quanto a vós também, por causa do sangue da minha aliança convosco, libertarei os vossos prisioneiros da cova sem água. Voltai para a vossa fortaleza, ó prisioneiros da esperança; hoje declaro que vos restituirei o dobro» (Zac., 9, 11-12).
Continuando a imagem da restauração, o desânimo de Deutero-Zacarias com os governantes do povo leva-o a olhar para além das soluções políticas e a confiar exclusivamente na intervenção de Deus. Porque um verdadeiro profeta transmite a palavra de Deus, mesmo sem estar plenamente consciente da mensagem que deve transmitir, Zacarias, seguindo os seus antecessores, encoraja os seus ouvintes a regozijarem-se e a depositarem a sua esperança no Messias-Rei que está para vir. Depois de o templo ser reconstruído, o próprio Senhor virá para reinar, quebrando o jugo dos oprimidos, libertando os cativos e restaurando a paz e a esperança em Judá.
A ALEGORIA DOS PASTORES
(Zac., 11, 4–17; 13, 7–9)
«Assim diz o Senhor, meu Deus: Sê pastor do rebanho destinado ao matadouro. Aqueles que os compram matam-nos e ficam impunes; e aqueles que os vendem dizem: “Bendito seja o Senhor, pois tornei-me rico”; e os seus próprios pastores não têm piedade deles» (Zac., 11, 4-5).
Para esclarecer o simbolismo deste texto, precisamos de examinar outros textos proféticos. Em 11, 4–17 e 13, 7–9, encontramos o que os estudiosos chamam de «a pantomima alegórica do pastor». Os pastores simbolizam os reis de Judá e de Israel. Compreender esta comparação envolve Ezequiel 34 e 37, 15–22. Em Ezequiel, dois cajados simbolizam os reinos de Judá e de Israel, representando a unificação sob o rei David.
Enquanto Ezequiel usa esta união para simbolizar a esperança, o oráculo de Zacarias apresenta um acto simbólico que representa a quebra da aliança que Deus estabeleceu com Moisés e o povo.
«Então eu disse: “Não serei o vosso pastor. O que tiver de morrer, que morra; o que tiver de ser destruído, que seja destruído; e que os que restarem devorem a carne uns dos outros!”. Peguei no meu cajado Beleza e parti-o, anulando a aliança que tinha feito com todos os povos» (Zac., 11, 9-10).
Para ilustrar isto, numa espécie de pantomima, o profeta deve inicialmente encarnar o papel de pastor de um rebanho abandonado, vendido e pronto para o sacrifício, representando assim o povo oprimido e humilhado por pastores egoístas e hipócritas (Zac., 11, 4-5). Este pastor, justo, segura dois cajados com nomes simbólicos: “Beleza”, que representa a aliança, e “União”, que representa o vínculo entre os reinos do Norte e do Sul. De repente, o rebanho rebela-se. Por isso, no Versículo 9, exclama: «Não vos pastorearei mais…».
O profeta age com rectidão, mas decide abandonar o seu papel pastoral, não sem antes depositar o seu “salário” no tesouro do templo – um gesto simbólico da sua dedicação e honestidade, mostrando que não lucrou com o povo. Note-se que Judas vende Jesus pela mesma quantia de dinheiro (Mt., 26, 14ss).
O profeta parte ambas as varas, simbolizando o fim da aliança mosaica: primeiro, a vara “União”, representando o cisma que ocorreu após a morte de Salomão (cf. 1 Reis 12), e depois a vara “Beleza”, simbolizando a destruição do templo e o exílio para a Babilónia.
«Pois estou agora a levantar na terra um pastor que não cuida dos que perecem, nem procura os que se perderam, nem cura os feridos, nem alimenta os saudáveis, mas devora a carne dos gordos, arrancando-lhes até as patas» (Zac., 11, 16).
Como castigo, o Senhor permite que o povo seja entregue a um pastor incompetente, para que aprenda por experiência própria o que perdeu. Este pastor é a antítese do bom pastor descrito em Ez., 34,16–25, onde o próprio Deus promete cuidar, curar e reunir o seu rebanho disperso.
«Desperta, ó espada, contra o meu pastor, contra o homem que é o meu companheiro», diz o Senhor dos Exércitos. «Fere o pastor, para que as ovelhas se dispersem; voltarei a minha mão contra os pequeninos» (Zac., 13, 7).
O pastor do Senhor, que é também o seu valente «companheiro» (Zac., 13, 7), é alguém próximo do rebanho e, ao ser ferido pela espada, torna possível a restauração da relação de aliança com um remanescente das ovelhas. Quando o bom pastor morre e o rebanho se dispersa, dois terços dele perecerão. Mas do terço restante, purificado pelo sofrimento, Deus suscitará uma nova comunidade fiel a Ele. Esta passagem oferece também uma interpretação da Paixão de Jesus. Quando Jesus é preso, os discípulos abandonam-no com medo: «Então Jesus disse-lhes: “Todos vós me abandonareis esta noite; pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’”» (Mt., 26, 31).
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Lê e medita sobre o texto:
. Reflecte sobre Jesus a entrar em Jerusalém «humilde e montado num jumento» (Zac., 9, 9). Pergunta a ti mesmo: será que acolho a humildade de Cristo na minha vida, ou ainda espero que Ele venha com poder mundano? Reza por graça para reconhecer a Sua presença terna nos momentos do dia-a-dia.
. O profeta estava desiludido com os líderes políticos e religiosos, mas depositava a sua esperança na intervenção de Deus. Na oração, reflecte: será que deposito a minha esperança e confiança em Jesus como meu Senhor e Rei? Como lido com a corrupção e a injustiça?
. Zacarias condena os líderes corruptos que oprimem o povo. Ao contrário deles, Jesus, o Bom Pastor, dá a Sua vida pelo rebanho (Jo., 10, 11). Será que sigo a voz dos falsos pastores ou escolho seguir Cristo? Em tempos de provações e sofrimento, estou disposto a carregar a minha cruz ou a desistir?
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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