Ageu: O Apelo à Reconstrução (Ag., 1, 1 – 2, 10)
CONTEXTO HISTÓRICO
Partes do Terceiro Isaías, Ageu, Zacarias e Malaquias marcam as últimas vozes proféticas da era pós-exílio. A profecia fica então em silêncio durante quatro séculos, até ao aparecimento de João Baptista, que dá testemunho do Messias como «o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo» (Jo., 1, 29).
Depois de o rei Ciro da Pérsia ter emitido um decreto em 538 a.C., permitindo que os judeus regressassem à Judeia, fontes históricas indicam que apenas um pequeno número – entre dez mil a vinte mil pessoas – optou por regressar à sua terra ancestral. Muitos já se haviam estabelecido na Babilónia.
Deixar tudo para trás e estabelecer-se na Judeia foi difícil. Outros grupos já tinham reivindicado a terra, incluindo judeus que ficaram e muitos samaritanos. Reconstruir Jerusalém e o seu templo foi difícil. Além da resistência local, as pessoas tinham de trabalhar nos campos e cuidar dos animais para sobreviver.
O templo só foi concluído em 516 a.C. Este ano marca o cumprimento da profecia de Jeremias:
«Porque assim diz o Senhor: Quando se completarem setenta anos para a Babilónia, eu vos visitarei e cumprirei a minha promessa, trazendo-vos de volta a este lugar» (Jer., 29, 10).
Estes setenta anos são contados desde a destruição do templo pelos babilónios em 586 a.C. até à dedicação do segundo templo em 516 a.C. – exactamente setenta anos!
Os acontecimentos relatados no livro de Ageu ocorreram em 520 a.C., ou seja, quatro anos antes da reconstrução do templo. O sétimo mês era normalmente reservado para o templo (ver 1 Reis 8). No entanto, o templo continuava em ruínas, o que tornava a ocasião irónica. Ageu é brevemente apresentado como um profeta do templo em Jerusalém.
O livro de Ageu está estruturado em quatro oráculos, dos quais abordaremos os dois primeiros.
- Chamada para reconstruir o templo (1, 1–11)
- Encorajamento e glória futura (2, 1–9)
- Bênção pela obediência (Ageu 2, 10–19)
- A escolha de Zorobabel por Deus (Ageu 2, 20–23)
UM APELO À RECONSTRUÇÃO DO TEMPLO (1, 2–15) – A mensagem central de Ageu é que a soberania divina e a fidelidade à aliança devem guiar a reconstrução do templo; a verdadeira paz e a plenitude são alcançadas quando a presença de Deus tem prioridade na vida comunitária e pessoal.
«Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Considerai como vos tem ido. Subi aos montes, trazei madeira e construí a casa, para que eu nela me deleite e seja honrado, diz o SENHOR» (1, 7-8).
Pela bondade amorosa de Deus, os exilados regressaram a Jerusalém. Mas quando chegaram, concentraram-se nas suas próprias necessidades. Negligenciaram o que mais importava: a presença de Deus entre eles. O templo era o único lugar onde a Glória de Deus habitava – a mesma Glória que Ezequiel viu deixar Jerusalém quando Nabucodonosor destruiu a morada de Deus no Sião (cf. Ez., 10).
O principal desafio em Ageu é colocar a presença de Deus no centro, e não as prioridades terrenas. Tal como os antigos israelitas, a sociedade actual corre o risco de perder a plenitude ao negligenciar aquilo que realmente nos sustenta: o Senhor como fonte de vida.
«Semeastes muito, mas colheis pouco; comeis, mas não vos saciastes; bebeis, mas não vos embriagais; vestis-vos, mas ninguém se aquece; e quem ganha, ganha um salário para colocar numa bolsa furada. (…) Porque a minha casa está em ruínas, enquanto todos vós vos apressais para as vossas próprias casas. Por isso, os céus acima de vós retiveram o orvalho, e a terra reteve os seus frutos» (1,6.9).
O povo deixou de prestar atenção e esqueceu-se de que é Deus quem dá a chuva e permite que a terra produza alimentos. Tal como eles, podemos dar por nós a trabalhar arduamente por coisas que, em última análise, são fúteis e infrutíferas. Tal como no tempo de Elias (ver 1 Reis 17, 1), Deus adverte sobre uma seca. Sem Deus no templo, a vida na terra prometida não pode correr bem.
Jesus, no Evangelho de João, fala de habitar «n’Ele» – «Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós» (Jo., 15, 4), de «permanecer n’Ele» – «Quem permanece em mim e eu nele dará muito fruto» (Jo., 15, 5), e de «permanecer no Seu amor» – «Como o Pai me amou, assim eu vos amei. Permanecei no meu amor» (Jo., 15, 9). São Paulo transmite a mesma experiência quando diz: «Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim» (Gal., 2, 19–20).
ENCORAJAMENTO E GLÓRIA FUTURA (2, 1–10) – «Então Zorobabel, filho de Salatiel, e Josué, filho de Jeozadaque, o sumo sacerdote, juntamente com todo o remanescente do povo, obedeceram à voz do SENHOR, seu Deus, e às palavras do profeta Ageu, tal como o SENHOR, seu Deus, o tinha enviado; e o povo temeu o SENHOR» (1, 12).
Ageu dirige-se aos líderes, Zorobabel e Josué, que regressaram após o exílio. Ele diz-lhes que o templo deve ser reconstruído e afirma que Deus mostrará o Seu poder quando o templo for restaurado.
Mais tarde, tanto os líderes como o povo começam a reconstrução. Esta resposta rápida a Ageu é rara entre os profetas. Permite que Deus os guie. Quando iniciam o trabalho, Deus diz-lhes que está com eles.
«Quem resta entre vós que tenha visto esta casa na sua antiga glória? Como vos parece agora? Não é aos vossos olhos como nada? Contudo, agora, coragem, ó Zorobabel, diz o SENHOR; coragem, ó Josué, filho de Jeozadaque, o sumo sacerdote; coragem, todo o povo da terra, diz o SENHOR» (2, 2–4a).
O templo que construíram era mais pequeno do que o de Salomão. Ainda assim, por mais simples que parecesse, era um sinal ou um passo em direcção ao verdadeiro templo: o corpo de Jesus (cf. Jo., 2, 19): «A futura glória desta casa será maior do que antes» (2, 9).
O NOVO TEMPLO
Jesus Cristo é o verdadeiro lugar de encontro com Deus (cf. Jo., 1, 14). O templo de Jerusalém era a morada da Glória de Deus. A «Hora» da «Glorificação» de Jesus chega quando Ele entrega a Sua vida por aqueles que ama (cf. Jo., 13, 1; 17, 1). Este evento da Nova Páscoa supera e transcende a restauração do santuário no Monte Sião.
«Povo da terra: trabalhai, pois eu estou convosco, diz o Senhor dos Exércitos, segundo a promessa que vos fiz quando saístes do Egipto. O meu Espírito permanece entre vós; não temais» (2,4b-5).
A Igreja, o novo templo, chama-nos a encarnar a tese de Ageu: trabalhar, com o poder do Espírito Santo, para construir uma comunidade na presença de Deus e lutar pela reconciliação, justiça e paz.
Tal como no Êxodo, o Senhor permaneceu com o Seu povo enquanto atravessavam o deserto para viver no Monte Sião. Deus promete que está connosco. O novo templo acolherá todas as nações, que trarão os seus dons a Deus, que dará paz ao mundo a partir da Sua santa morada:
«Abalarei todas as nações, para que o tesouro de todas as nações venha, e encherei esta casa de esplendor, diz o SENHOR dos Exércitos» (2, 7).
Em todas as culturas e nações, há sementes da Palavra, que podem crescer e dar fruto na Igreja e enriquecê-la como a bela esposa de Cristo. Vimos como os profetas não falam apenas de castigos ou calamidades, mas, acima de tudo, transmitem uma mensagem de esperança, paz universal e reconciliação.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
- Reconheço a presença de Deus como algo central na minha vida, ou concentro-me mais nas minhas próprias necessidades e prioridades, tal como as pessoas no tempo de Ageu?
- De que forma a fidelidade de Deus me convida a confiar Nele, especialmente quando os meus próprios esforços parecem infrutíferos ou incompletos?
- Como posso responder ao apelo de Deus – pessoalmente ou em comunidade – para edificar a Sua morada, seja no meu coração, na minha família ou na Igreja?
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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