Terceiro Isaías – Renascimento e Renovação

ABRA A SUA BÍBLIA – 34

Terceiro Isaías – Renascimento e Renovação (Is., 65, 1–25; 66, 18–24)

INTRODUÇÃO E CONTEXTO HISTÓRICO

O livro de Isaías abrange um período notável de cerca de quatro séculos, começando com a pregação do primeiro Isaías no Século VIII a.C., durante os reinados de reis como Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, e estendendo-se até à época do regresso do exílio babilónico no Século V a.C. Este longo arco histórico significa que Isaías não é a obra de um único autor, mas uma colecção de vozes proféticas moldadas ao longo de gerações, reflectindo as circunstâncias em mudança na História de Israel.

O Terceiro Isaías (cf. Is., 56–66) pertence ao período após o exílio babilónico, quando o povo de Judá regressara a Jerusalém e tentara reconstruir as suas vidas e instituições. Demoraram mais de quinze anos a reconstruir o templo. Os repatriados enfrentaram a pobreza, tensões sociais e desilusão. As expectativas não foram satisfeitas, pois precisavam de redescobrir a sua identidade e a sua relação com o culto e a justiça.

Esta secção de Isaías não é uma composição única e unificada, mas sim uma colecção de oráculos, hinos e exortações. Alguns destes oráculos denunciam a hipocrisia, a idolatria e a opressão; outros prevêem um futuro de paz e a integração de todos os povos no plano de Deus; todos são acolhidos na Nova Aliança de Deus (cf. Is., 56, 3–8). Alguns oráculos profetizam sobre um culto renovado de uma comunidade restaurada. Como é habitual nos escritos proféticos, outras passagens denunciam a opressão dos pobres, a idolatria e a hipocrisia. O plano universal de salvação de Deus para todos os povos constitui o epílogo final de todo o livro de Isaías, após a criação de novos céus e de uma nova terra (cf. Is., 65-66). A figura dos “servos do Senhor” surge como um remanescente fiel, em contraste com aqueles que resistem e recusam o apelo de Deus à conversão.

O Terceiro Isaías mostra claramente que os repatriados enfrentaram grandes provações na reconstrução das suas cidades e do templo. Tiveram também de lidar com os próprios fracassos e desilusões às mãos dos líderes sob o domínio persa.

Uma grande visão apocalíptica coroa todo o livro: «Pois estou prestes a criar novos céus e uma nova terra» (Is., 65, 17), expressando directamente um horizonte de fidelidade divina e renovação. Nas suas páginas, a desilusão da comunidade é recebida com tais promessas, chamando o povo a confiar que os desígnios de Deus prevalecerão.

DENÚNCIA E AMEAÇA

(ISAÍAS 65, 1–7)

«Eu estava pronto para responder àqueles que não perguntaram, para ser encontrado por aqueles que não me procuraram. Eu disse: Aqui estou! Aqui estou! A uma nação que não invocou o meu nome. Estendi as minhas mãos o dia inteiro a um povo rebelde, que anda por um caminho que não é bom, seguindo os seus próprios desígnios» (Is., 65, 1-2).

Deus responde ao lamento do profeta: «Aqui estou, aqui estou» (Is., 65, 1). Ele tinha estado à espera do Seu povo, mas eles afastaram-se, abraçando a idolatria. Sacrifícios em jardins e incenso sobre tijolos imitavam o culto pagão, desafiando os mandamentos de Deus. As suas acções equivaleram a adultério espiritual, provocando-O «na Sua cara».

Este oráculo destaca a tensão entre a graça divina e a rebelião humana. Deus estende as Suas mãos, mas o Seu povo rejeita-O. A verdadeira adoração exige obediência e fidelidade, não invenções humanas. A rejeição da Sua aliança aponta para a necessidade de uma nova aliança, cumprida em Cristo, onde a adoração é purificada e centrada no Espírito (cf. Jo., 4, 23).

O DESTINO DOS JUSTOS E DOS ÍMPIOS (ISAÍAS 65, 8–16)

«Não os destruirei a todos. De Jacó farei surgir descendência, de Judá, aqueles que possuirão as minhas montanhas; os meus escolhidos possuirão a terra, os meus servos habitarão nela» (Is., 65, 8-9).

Este versículo menciona um remanescente do povo que possuirá as montanhas do Senhor. A posse da terra é um conceito fundamental para compreender a História Sagrada. A terra definitiva é a alma humana, a comunidade da aliança redimida e reunida pelo Senhor. Uma pessoa e uma comunidade redimidas são governadas pelo amor e pela justiça de Deus; são servos do Senhor que experimentarão a salvação de Deus.

Assim como aqueles que aceitam o domínio de Deus serão restaurados em Jerusalém, aqueles que resistem e recusam o convite de Deus são os chamados “ímpios”, que serão destruídos. Essa é uma escolha errada da parte deles.

Jesus nasceu de Maria, a quem Deus olhou com amor: «Olhou para a humildade da sua serva» (Lc., 1, 48). José era «um homem justo» (Mt., 1, 19), e Isabel e Zacarias eram justos (Lc., 1, 5-6). Jesus veio para reunir «as ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt., 15, 24; cf. Mc., 6, 34), escolhendo apóstolos e missionários de entre os israelitas para levar a salvação a todas as nações.

A visão de Isaías sobre o remanescente encontra o seu cumprimento em Cristo. Os poucos fiéis tornam-se a semente da renovação, enquanto a rebelião conduz ao julgamento. A justiça e a misericórdia de Deus encontram-se na Sua preservação de um remanescente, através do qual as Suas promessas se estendem ao mundo.

NOVA CRIAÇÃO

(ISAÍAS 65:17–25)

«Vede, estou a criar novos céus e uma nova terra; as coisas anteriores não serão lembradas nem virão à mente. Em vez disso, gritai de alegria e alegrai-vos para sempre naquilo que estou a criar. Na verdade, estou a criar Jerusalém para ser uma alegria e o seu povo para ser um deleite» (Is., 65, 17-18).

A corrupção causada pela apostasia penetrou tão profundamente na criação que só a misericórdia divina poderia trazer renovação. Deus promete novos céus e uma nova terra. Ele oferece ao seu povo uma nova oportunidade, um novo começo. Se a infidelidade gera sofrimento, aceitar o convite de Deus trará alegria e esperança. Jerusalém será recriada como um lugar de deleite, onde a presença de Deus restaura a harmonia.

A promessa de uma nova criação revela o compromisso inabalável de Deus. O pecado humano não pode anular o Seu plano. Para os cristãos, esta profecia encontra o seu cumprimento em Cristo, que inaugura uma nova criação através da Sua morte e ressurreição. A Igreja é chamada a encarnar esta renovação, vivendo como um sinal de esperança e reconciliação. A palavra definitiva de Deus não é a destruição, mas a vida renovada.

REUNIÃO DE TODAS AS NAÇÕES (ISAÍAS 66, 18–24)

Vou reunir todas as nações e línguas; elas virão e verão a minha glória (cf. Is., 66, 18).

Nesta visão, o Senhor convoca uma assembleia universal, reunindo os vizinhos de Israel e enviando mensageiros a todas as nações, mesmo as mais distantes, para que a sua glória seja proclamada. Assim, todas as nações serão reunidas em Jerusalém. Esta visão prenuncia a missão de Jesus, na qual Ele enviou os seus discípulos para «fazerem discípulos de todas as nações» (Mt., 28, 18–20).

A promessa de um novo céu e uma nova terra, juntamente com o ritmo das luas novas e dos sábados, representa um espaço e um tempo sagrados renovados para os quais todos os povos são convidados (cf. Ap., 21, 22–27).

O livro termina também com um grito de vitória: os inimigos do Senhor enfrentam a condenação perpétua (versículo 24). Estes inimigos não são apenas forças externas – hostilidades, perseguições e tentações –, mas também as lutas internas que enfrentamos: vícios, preguiça, tibieza, orgulho, ganância e doenças semelhantes da alma. Tanto por dentro como por fora, eles opõem-se à obra de Deus em nós, e o texto chama-nos à vigilância e à fidelidade perante essas ameaças.

A visão final de Isaías afirma que a salvação de Deus não se limita a Israel, mas estende-se a todas as nações, que são convidadas a adorá-Lo na criação renovada. Ao mesmo tempo, reconhece a realidade do julgamento para aqueles que persistem na rebelião. A tensão entre esperança e advertência reflecte a convicção profética de que a justiça e a misericórdia de Deus são inseparáveis.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

1. O Chamamento Persistente de Deus: Reflictamos sobre como o Senhor estende as Suas mãos mesmo quando nos afastamos. Em que aspectos resistimos ao Seu convite?

2. O remanescente e a renovação: Consideremos como Deus preserva um remanescente fiel. Estamos dispostos a aceitar o Seu chamamento à conversão e a fazer parte dessa semente de renovação através da fidelidade e da confiança?

3. Esperança da nova criação: Meditemos na promessa de «novos céus e uma nova terra». Como posso viver hoje como um sinal da alegria e da reconciliação de Deus?

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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