Segundo Isaías 4 – «Vinde às águas» (Is., 55, 1–13)
UM CONVITE À VIDA EM ABUNDÂNCIA
«Vinde, todos os que tendes sede, vinde às águas; e vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei! Vinde, comprai vinho e leite sem dinheiro e sem preço» (Is., 55, 1).
O profeta Isaías dirige-se aos exilados na Babilónia, estendendo o convite misericordioso de Deus para regressarem – não apenas à sua pátria, mas sobretudo ao próprio Senhor. Os exilados são retratados como sedentos, famintos e necessitados. São convidados a “comprar” sem custo, porque “não têm dinheiro”, e a não se afanarem por aquilo que não é satisfatório nem duradouro. Este convite revela a natureza da graça divina: é concedida gratuitamente. Em Hebraico, o conceito de graça é expresso como “ḥen” (חֵן), que significa favor ou dom sem preço.
Deus prepara um banquete para selar uma aliança eterna, ecoando a refeição da aliança do Êxodo (cf. Êx., 24, 9–11). Assim como a Sabedoria em Provérbios convida os simples para o seu banquete (cf. Pr., 9, 1–6), também Deus convoca o Seu povo para uma vida abundante. Em contraste com a aliança mosaica, que era condicional e frequentemente quebrada, esta nova aliança será permanente. A promessa feita a David será cumprida (cf. 2 Sm., 7). Deus prometeu a David uma dinastia eterna com um domínio mundial, não para subjugar, mas para abençoar, para trazer paz eterna e reconciliação (cf. Sl., 2, 7–9). Até as nações estrangeiras reconhecerão o Santo de Israel como a fonte da liberdade e da salvação.
Esta passagem recorda-nos que a salvação é sempre uma iniciativa de Deus. Embora o exílio tenha sido a consequência do pecado de Israel, é o Senhor quem prepara o caminho de regresso a casa. O regresso não é meramente geográfico – é espiritual. Terra, aliança e povo são realidades inseparáveis; no entanto, à luz do Novo Testamento, “a terra” já não é uma questão de geopolítica. Não é um território a reivindicar ou a conquistar, como alguns interpretam erroneamente hoje em dia. Pelo contrário, a verdadeira terra de Deus é a comunidade de fé fundada por Cristo: a Igreja. É o coração humano onde Deus habita e reina. Seja na Igreja triunfante no céu, na Igreja peregrina na terra ou na Igreja em purificação, o reino de Deus é amor, redenção e paz eterna.
Convite: «Inclinai o vosso ouvido e vinde a mim» (Is., 55, 3), é um apelo à obediência – a ouvir, a ser instruído pela sabedoria divina e a traduzir o ouvir em acção. Ir ao encontro de Deus é caminhar para a verdadeira terra, reconstruir o templo das nossas vidas e habitar com Ele. Esta peregrinação culmina na oferta do sacrifício das nossas vidas, unidas ao único sacrifício perfeito de Cristo, presente na Eucaristia.
Assim, a visão de Isaías encontra o seu cumprimento na oração que Jesus nos ensinou: «Venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu». Voltar para Deus significa acolher o Seu reino nos nossos corações, viver como povo da Sua aliança e deleitar-nos no banquete que Deus prepara para nós.
DEUS ESPERA A NOSSA RESPOSTA
«Buscai o Senhor enquanto se pode encontrá-lo; invocai-o enquanto está perto. Que o ímpio abandone o seu caminho e o injusto os seus pensamentos; que se voltem para o Senhor, para que Ele tenha misericórdia deles, e para o nosso Deus, pois Ele perdoará abundantemente» (Isaías 55, 6-7).
Nos versículos 6 e 7, o profeta exorta os exilados a responderem ao convite do Senhor no momento oportuno. Este é o “kairos” (καιρός em Grego), o tempo da graça de Deus, que chega com a vinda do Messias, Jesus, que proclama que o reino de Deus – aqui anunciado – já está próximo (“enggiken”, ἐγγίκεν em Grego). O kairos de Deus não é meramente o tempo cronológico, mas o momento decisivo e favorável para acolher o dom de Deus, para receber o Messias, o único Filho de Deus: «Porque Deus amou tanto o mundo que deu o seu único Filho» (João 3, 16). A misericórdia de Deus manifesta-se de formas que nos são misteriosas, e a Sua palavra é eficaz; tem o poder de gerar vida, de nutrir, sustentar e renovar a criação.
«Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Pois assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos do que os vossos pensamentos» (Isaías 55, 8-9).
Esta nova aliança está ligada a este momento oportuno em que Ele está disposto a mostrar misericórdia. O Senhor está disposto a perdoar os pecados daqueles que aceitam o Seu convite, e este convite não é uma coacção, mas um apelo gentil à conversão. O povo é exortado a abandonar os seus velhos caminhos e planos, e a abraçar os caminhos e planos de Deus, que são mais elevados do que os pensamentos e os caminhos humanos. Ao mesmo tempo, são enfatizadas duas questões: a responsabilidade de cada pessoa em responder livremente e a confiabilidade e fidelidade de Deus, cuja misericórdia e perdão são certos para aqueles que se voltam para Ele.
Esta passagem é tanto uma convocação como uma garantia. A palavra de Deus não volta vazia, mas realiza o que Ele pretende. Lembra-nos que o kairos da graça é sempre um momento de decisão, onde a misericórdia e a renovação são oferecidas, e onde a nossa resposta é tanto necessária como transformadora.
EPÍLOGO (IS., 55, 12-13)
«Em vez do espinho brotará o cipreste; em vez do sarçal brotará a murta, e será para o Senhor um memorial, um sinal eterno que não será cortado» (Isaías 55, 13).
Estes versículos finais concluem o que é frequentemente chamado de “Livro da Consolação”, deixando na mente dos ouvintes imagens vívidas do regresso e de um novo Êxodo (cf. Isaías 43, 19; 44, 3-4). O profeta evoca a transformação da própria criação como um sinal da obra salvadora de Deus. O espinho e a sarça, símbolos de maldição e desolação, dão lugar ao cipreste e à murta, árvores de beleza e fecundidade. Esta inversão não é apenas uma promessa de restauração, mas também um memorial para o Senhor, um sinal eterno da Sua aliança que nunca será extinto.
Se Israel responder a Deus e aceitar os Seus caminhos e planos, Ele oferecerá perdão, com as consequências da alegria e da libertação. Toda a natureza se unirá para celebrar este evento de libertação, pois a própria criação é envolvida no drama da redenção. A missão de Israel é trazer fecundidade à terra, como demonstra a metáfora da chuva e da neve nos versículos 10 e 11. Assim como estas águas descem para tornar a terra fértil e produtiva, também Israel é chamado a ser um instrumento de vida e bênção. Isto implica a transformação do deserto árido num lugar de abundância e aponta para a reversão da maldição do pecado original: «Maldita é a terra por tua causa; com trabalho comerás dela todos os dias da tua vida; espinhos e cardos ela te produzirá» (Génesis 3, 17 e 18).
Assim, o epílogo de Isaías 55 não é apenas uma visão do regresso da Babilónia, mas também uma proclamação de renovação cósmica. É uma promessa de que a palavra de Deus, uma vez proferida, cumpre o seu propósito, trazendo perdão, alegria e libertação, e transformando os sinais de maldição em sinais eternos de bênção.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
1. Senhor, ajuda-me a reconhecer o kairos da graça na minha vida, o momento oportuno para responder ao Teu convite com fé e confiança.
2. Ensina-me a abandonar os meus velhos caminhos e a abraçar os Teus pensamentos e planos mais elevados, confiando na Tua misericórdia e fidelidade.
3. Que a minha vida dê fruto para os outros, transformando o deserto do medo e do desespero num lugar de alegria, renovação e bênção.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

Follow