Segundo Isaías 3 – O Quarto Canto do Servo (Is., 52, 13–53,12)

ABRA A SUA BÍBLIA – 32

Segundo Isaías 3 – O Quarto Canto do Servo (Is., 52, 13–53,12)

INTRODUÇÃO

«Eis que o meu servo prosperará, será elevado e grandemente exaltado. Assim como muitos ficaram espantados ao vê-lo – tão desfigurado estava o seu rosto, para além do que é próprio dos mortais a sua aparência, para além da dos seres humanos» (Is., 52, 13-14).

O quarto e último Canto do Servo em Isaías (cf. Is., 52, 13–53, 12) era considerado pela comunidade cristã primitiva como a profecia mais significativa relativa à morte e exaltação de Jesus Cristo (cf. At., 8, 32–35). No início do poema, Deus apresenta o Seu Servo, chamado para uma missão destinada não só a Israel, mas também às nações (cf. Is., 42, 4; 49, 5-6). O oráculo conclui descrevendo o Servo como o inocente e justo que se oferece pelo povo (cf. Is., 53, 11).

O “nós” no poema representa Israel, redimido pelo sofrimento deste Servo inocente que assume o castigo que por direito pertencia ao povo (cf. Is., 53, 4-5). Isto é impressionante, uma vez que a teologia deuteronómica ensinava que o sofrimento era sempre consequência do pecado (cf. Jo., 9, 2). Aqui, porém, o sofrimento do Servo é redentor: justifica o povo rebelde (cf. Is., 53, 5). O Servo é comparado a um cordeiro levado ao matadouro (cf. Lev., 9, 3; 14, 13.21.24; João 1, 29.36; 19, 33). Entre a exaltação anunciada no início e no fim do poema, o texto narra a vida do Servo: as suas origens humildes (cf. Is., 53, 2), o sofrimento (53, 3–7), a condenação e a morte (53, 8), o sepultamento (53, 9) e a exaltação (53, 10-11; cf. Fl., 2, 6–11). O facto de Ele ter sido “transpassado pelas nossas transgressões” (cf. Zc., 12, 10) provoca a conversão e uma mudança de coração no povo.

INOCÊNCIA, REJEIÇÃO E JUSTIFICAÇÃO

«Ele foi desprezado e evitado pelos homens, um homem de sofrimento, que conheceu a dor, como alguém de quem se desvia o rosto, desprezado, e nós não o estimávamos. No entanto, foi a nossa dor que ele suportou, os nossos sofrimentos que ele suportou. Nós pensávamos nele como alguém ferido, abatido por Deus e afligido» (Is., 53, 4-5).

Este Canto do Servo descreve a inocência do Servo, a rejeição, o sofrimento em nome de Israel, o mal-entendido, a condenação e a eventual justificação por Deus. Se as passagens anteriores deixavam margem para identificar o Servo com Israel colectivamente, aqui a distinção é clara: o povo pecador sofre o exílio como castigo pelos seus pecados, enquanto o Servo de Deus, embora justo, carrega o fardo desses pecados.

O seu sofrimento implica uma humilhação tão severa que “a sua aparência estava tão desfigurada, para além da semelhança humana” (cf. Is., 52, 14). No entanto, no futuro, este Servo será justificado e exaltado.

UM NOVO DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO

«Mas ele foi traspassado pelos nossos pecados, esmagado pela nossa iniquidade. Ele suportou o castigo que nos torna inteiros, pelas suas feridas fomos curados. Todos nós nos desviamos como ovelhas, cada um seguindo o seu próprio caminho. Mas o Senhor fez recair sobre ele a culpa de todos nós» (Is., 53, 5-6).

O oráculo revela uma mudança de perspectiva. Israel chega a reconhecer que o sofrimento do Servo não se devia à sua própria culpa, mas era vicário. Tinham acreditado que ele era o alvo da ira divina, mas, na verdade, o castigo era deles. Isto marca um avanço para além da teologia deuteronómica, que ensinava que o castigo estava reservado aos pecadores e a recompensa aos justos. Aqui, o Servo assume obedientemente sobre si os pecados de Israel, sofrendo no lugar deste.

Por fim, o povo reconhece-o como seu salvador e rei: «Ele será elevado e exaltado» (Is 52, 13).

O BRAÇO DO SENHOR E O NOVO ISRAEL

«Quem acreditaria no que ouvimos? A quem foi revelado o braço do Senhor? Ele cresceu como uma muda diante dele, como um rebento da terra ressequida; não tinha aparência majestosa que chamasse a nossa atenção,

nem beleza que nos atraísse para ele» (Is., 53, 1-2).

A metáfora do “braço do Senhor” transmitia tradicionalmente força militar e poder divino na batalha. Neste Canto do Servo, porém, assume um significado radicalmente novo: uma força que é não violenta, misericordiosa e redentora. O Servo encarna um poder que não destrói, mas cura, um poder enraizado na obediência e no amor.

O primeiro Canto do Servo de Isaías já antecipava este novo estilo de reinado: «Não quebrará o caniço partido, nem apagará a mecha que ainda arde» (Is., 42, 3). A missão do Servo é suave, mas transformadora, formando a partir do remanescente de Israel um povo renovado – um novo Israel.

A frase “Não tinha aparência majestosa que chamasse a nossa atenção” sublinha este paradoxo. Israel não reconheceu o seu rei salvador precisamente porque ele não correspondia às expectativas de grandeza ou majestade mundana. A sua realeza é oculta, humilde e marcada pelo sofrimento.

O Servo descrito neste cântico parece insignificante, “como um rebento da terra ressequida”. Lembra a pergunta céptica de Natanael: «Pode alguma coisa boa vir de Nazaré?» (João 1, 46). Nazaré era uma pequena aldeia escondida, nunca mencionada no Antigo Testamento, situada numa região associada aos gentios. No entanto, o próprio nome pode derivar do Hebraico “neser” (נֵצֶר), que significa “rebento” ou “brotinho”, ligando-o simbolicamente à imagem messiânica de um novo crescimento da linhagem de David. Isto torna as palavras de Isaías – “Ele cresceu como um rebento diante dele” – ainda mais marcantes.

O próprio Jesus descreveu a sua missão como a de alguém enviado «para reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mateus 15, 24). Os seus doze apóstolos remetem para as doze tribos de Israel, simbolizando a restauração do povo de Deus. Como Messias, ele é o rei da paz que entra em Jerusalém «humilde e montado num jumento» (Zacarias 9, 9).

Esta visão contrasta fortemente com a expectativa generalizada de um Messias guerreiro, conquistador e vingativo. Em vez disso, o Servo revela um novo tipo de reinado – um que triunfa não através da violência, mas através da humildade, do sofrimento e do amor. É neste paradoxal “braço do Senhor” que reside a verdadeira salvação e a renovação de Israel.

O MOVIMENTO DESCENDENTE E ASCENDENTE

O Canto do Servo ressoa com o hino cristológico em Filipenses 2, 6–11. Jesus Cristo «esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo» (Fil., 2, 7) e, em obediência ao Pai, aceitou a morte, «até a morte na cruz» (Fil., 2, 8). Por causa desta obediência, «Deus o exaltou soberanamente e deu-lhe o nome que está acima de todo o nome» (Fil., 2, 9).

Este movimento descendente e ascendente – humilhação seguida de exaltação – capta o paradoxo da paixão e da glória do Servo. O seu sofrimento não é sem sentido; é o caminho para a redenção e a revelação do poder salvador de Deus.

CONCLUSÃO:

O quarto Canto do Servo de Isaías apresenta uma visão teológica profunda: o Servo inocente sofre vicariamente pelos pecados do povo, trazendo a sua redenção. A sua humilhação conduz à exaltação, e a sua obediência revela o verdadeiro poder do braço de Deus – não na violência, mas na misericórdia e no amor. Para a Igreja primitiva, esta profecia tornou-se a lente através da qual a paixão e a ressurreição de Jesus Cristo foram compreendidas, confirmando-o como o Servo que redime e o Rei que reina em glória.

REZAR COM A PALAVRA DE DEUS

Pontos para oração e reflexão:

Reconhecer Cristo nos pobres

1. O Servo é descrito como alguém sem beleza nem majestade, rejeitado e desprezado. Na oração, somos convidados a reconhecer Cristo nos pobres, nos marginalizados e naqueles que sofrem em silêncio. A sua presença oculta chama-nos à humildade e à compaixão.

O verdadeiro poder da cruz

2. O sofrimento do Servo não é sem sentido, mas redentor. Pelas suas feridas somos curados. A cruz, outrora símbolo de humilhação, torna-se o verdadeiro poder da salvação, resgatando-nos do pecado e reconciliando-nos com Deus.

O Braço de Deus

3. O “braço do Senhor” revela um novo tipo de força – misericordiosa, gentil e transformadora. Somos chamados a confiar neste poder paradoxal, que nos renova e liberta através do amor, em vez da violência.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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