Segundo Isaías 2 – O Primeiro Canto do Servo (Is., 42, 1–6)
INTRODUÇÃO E CONTEXTO HISTÓRICO
Este é o primeiro dos chamados “Cantos do Servo” no livro de Isaías (cf. 49, 1–6; 50, 4–9; 52, 13–53), dedicado a uma figura anónima que, tal como David, é escolhida e chamada por Deus para uma missão.
Desde os primeiros séculos, a Igreja interpretou estes cânticos numa chave cristológica, aplicando-os a Cristo (cf. Mt., 12, 18–21).
Os profetas anunciavam geralmente acontecimentos que estavam próximos – fossem castigos divinos ou promessas de esperança, como o regresso do exílio – sem se projectarem para além de duas ou três gerações. Só quando falavam do fim dos tempos, em estilo apocalíptico, é que se referiam a um futuro distante. Um exemplo claro é Daniel 7, 13-14:
«Vi alguém semelhante a um filho do homem vindo com as nuvens do céu… A ele foi dado domínio, glória e reinado, para que todos os povos, nações e línguas o servissem».
Esta linguagem transcende a história imediata e aponta para o cumprimento definitivo do plano de Deus.
O último rei babilónico foi Nabonido (555-539 a.C.), que passou grande parte do seu reinado longe da capital. A sua ausência prolongada, combinada com as tensões religiosas entre os adoradores do deus da lua Sin e os devotos de Merodaque, a divindade suprema da nação, enfraqueceu as defesas da Babilónia. Como resultado, a cidade rendeu-se sem resistência ao rei persa Ciro, em 539 a.C. Mais tarde, ele permitiu que os judeus regressassem à sua terra e reconstruíssem o seu templo em Jerusalém.
Ciro respeitou a liberdade religiosa dos babilónios, dos judeus e de todos os povos que conquistou, evitando assim agitação religiosa e rebelião. Mais tarde, organizou o seu império em satrapias – províncias governadas por líderes locais que detinham autoridade, mas não o título real – sob o domínio supremo de um único rei.
O SERVO DE DEUS
«Eis o meu servo, a quem eu apoio, o meu escolhido, em quem a minha alma se deleita. Pus o meu Espírito sobre ele; Ele trará justiça às nações» (Is., 42, 1).
Estes versículos cumprem a promessa anunciada no capítulo anterior: «Não temas, verme de Jacó, verme de Israel! Eu te ajudarei, diz o Senhor; o teu Redentor é o Santo de Israel» (Is., 41, 14).
Assim como o Senhor outrora libertou o seu povo da escravidão no Egipto pela mão de Moisés – que é chamado de «servo de Deus» (Êx., 14, 31) –, assim agora promete a libertação aos cativos da Babilónia por meio de «um arauto de boas novas» (Is., 41, 27). Embora Jacó/Israel seja designado como servo do Senhor, o paralelo com Moisés sustenta a interpretação do servo no cântico como uma figura única e escolhida. Esta perspectiva torna-se mais clara quando o cântico é lido em conexão com os que se seguem: o servo surge como um novo Moisés, chamado para libertar o Israel cativo (cf. Is., 49, 5-6) e para estabelecer uma nova aliança com o povo (cf. Is., 49, 8).
Para compreender o contexto desta passagem, é importante distinguir entre duas figuras: o Servo de Deus e Ciro, o instrumento de Deus na libertação do povo. O primeiro, o Servo (cf. Is., 42, 2-3), é manso e humilde, assemelhando-se ao rei messiânico anunciado em Isaías 11, 1–9 e Zacarias 9, 9-10 – o rei que entra em Jerusalém montado num jumento. Ao Servo de Deus é confiada a tarefa de trazer justiça ao povo, um papel que reflecte a autoridade real exercida por meio da misericórdia e da paz.
Em contraste, o ungido (cf. Is., 41, 2-3, 25), o rei persa Ciro, é um governante estrangeiro, um guerreiro e conquistador que cumpre a sua missão através da força e das armas. Tal como o Senhor tinha anteriormente usado potências estrangeiras para castigar o seu povo, agora chama Ciro para ser o agente da sua libertação. Ambas as figuras são escolhidas pelo Senhor, sustentadas, chamadas e tomadas pela mão, mas encarnam papéis muito diferentes na História da Salvação.
MISSÃO UNIVERSAL
A missão do Servo não se limita a Israel; como governante pacífico, ele trará justiça a todas as nações:
«Ele não clamará, nem levantará a voz, nem fará ouvir a sua voz nas ruas. Não quebrará o caniço quebrado, nem apagará a mecha que ainda arde. Ele trará fielmente a justiça» (Is., 42, 2-3).
A cana ferida simboliza aqueles que têm o coração partido e são oprimidos, tornados vulneráveis tanto pelo pecado do povo como pela dureza da sua situação. A mecha que arde fracamente representa a sua fé vacilante e fraca, a sua esperança à beira de se extinguir. O Servo não descarta nem rejeita essas pessoas; pelo contrário, vem para as curar e reacender o fogo da sua fé, esperança e amor – tal como Jesus faz.
O evangelista Mateus cita este texto (cf. Mt., 12, 20), identificando o Servo Sofredor com Jesus. Ele, que «é humilde e manso de coração», chama a si os cansados e oprimidos, assegurando-lhes: «Eu vos darei descanso» (Mt., 11, 28).
O Servo é retratado como escolhido e apoiado por Deus (versículo 1), sobre quem repousa o Espírito (versículo 2), capacitando-o a ser aliança e luz (versículo 6) e a trazer libertação (versículo 7).
No seu baptismo no Jordão, Jesus é oficialmente apresentado como esse Servo de Deus antes de iniciar o seu ministério público:
«E quando Jesus foi baptizado, subiu imediatamente da água, e eis que os céus se abriram para ele, e viu o Espírito de Deus a descer como uma pomba e a repousar sobre ele; e eis que uma voz do céu disse: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”» (Mt., 3, 16-17).
Como parte integrante do ministério de Jesus, a mesma identificação ocorre novamente no Monte da Transfiguração (cf. Mt., 17, 2.5) como prelúdio da sua paixão.
Jesus Cristo é o mediador da revelação de Deus: Ele não recorre à violência nem à coerção, mas sustenta os pobres e os oprimidos (versículos 3 e 4) e oferece-lhes a salvação (versículo 7; cf. Lc., 4, 17–19). A Sua missão, iniciada pelo único Deus Criador (versículo 5), destina-se a todas as nações (versículo 6).
A IGREJA COMO SACRAMENTO DA SALVAÇÃO – Nós, como discípulos de Cristo Ressuscitado, tendo experimentado o poder curativo e transformador da vitória pascal do Filho de Deus, somos chamados a ser o “Bom Samaritano”, aproximando-nos dos feridos e excluídos que sofrem a indiferença daqueles que passam (cf. Lc., 10, 25–37). Somos a Igreja que Ele construiu sobre os pilares dos Apóstolos.
A missão da Igreja é universal, decorrendo directamente do mandamento de Cristo de proclamar o Evangelho a todos os povos. Ela dá continuidade à obra do Servo, sendo simultaneamente sinal e instrumento de comunhão com Deus e de unidade entre a Humanidade. A sua própria natureza é missionária, estendendo a presença salvadora de Cristo a todas as culturas e nações, e servindo como sacramento da salvação através do qual o reino de Deus se torna presente na História.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Reflicta sobre este cântico e coloque-se diante do Senhor em silêncio:
. Gratidão: Agradeça ao Senhor por tê-lo escolhido e chamado, por purificá-lo e fortalecê-lo através das experiências da sua vida, especialmente nos momentos de sofrimento e tristeza.
. Humildade: Reconhece-te como uma “cana ferida” e uma “mecha que arde vagamente”, e pede ao Senhor que cure as tuas feridas e renove as tuas forças.
. Testemunho alegre: Alegra-te como membro de um povo libertado do pecado, chamado a dar testemunho da redenção de Deus perante todos. Reza por aqueles que ainda não conhecem Jesus e por todos os que sofrem injustiça, o flagelo da guerra e a dor da exclusão.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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