Segundo Isaías 1 – A Boa Nova (Is., 40, 1–11)
CONTEXTO HISTÓRICO
Dois acontecimentos milagrosos marcam o fim da primeira parte de Isaías: a libertação de Jerusalém após o cerco do rei assírio Senaqueribe (cf. Is., 36-37) e a cura do rei Ezequias (cf. Is., 38, 1–20). Mais de um século depois, o poder passou dos assírios para os babilónios. Zedequias, vassalo do rei Nabucodonosor – a quem este tinha colocado no trono de Jerusalém –, rebelou-se. Em 587/586 a.C., Nabucodonosor destruiu a cidade e o seu templo, deportando a nobreza, os artesãos e um grande número de pessoas para a Babilónia. Entre os exilados encontrava-se o profeta Ezequiel, que recebeu a sua vocação numa terra estrangeira.
Os capítulos 40–55, atribuídos a um profeta anónimo conhecido como Segundo Isaías ou Deutero-Isaías, foram escritos no final do exílio babilónico. O próprio Isaías não aparece nesta secção. Em vez disso, Ciro, o Grande, rei da Pérsia, é apontado como aquele escolhido por Deus para derrotar a Babilónia e libertar o Seu povo em 539 a.C. Os judeus são exortados a resistir à assimilação pela cultura e religião babilónicas, a permanecer fiéis à aliança e a alimentar a esperança no seu regresso iminente a Judá, onde o Senhor reinará como Rei (cf. Is., 52, 7).
Esta secção contém poemas que descrevem o amor terno de Deus e o seu desejo salvador. Entre eles encontram-se os quatro “Cânticos do Servo”, que revelam uma verdade profunda e muitas vezes contestada sobre o Messias: ele não virá como um guerreiro, mas como alguém humilhado, levado a uma morte vergonhosa, carregando os pecados do povo (cf. Is., 42, 1–9; 49, 1–7; 50, 4–11; 52, 13–53, 12). O povo é exortado a renovar a sua fé em Deus, cujo amor libertador é simultaneamente misericordioso e poderoso.
TRÊS IMPERATIVOS
«Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ternamente a Jerusalém e anunciai-lhe que cumpriu o seu tempo, que a sua pena está paga, que recebeu da mão do Senhor o dobro por todos os seus pecados» (Is., 40, 1–2).
Consolai o meu povo – O primeiro imperativo é consolar. A misericórdia de Deus revela-se no seu acto de purificação. O amor e a verdade são inseparáveis. Como ensinou o Papa Bento XVI em Caritas in veritate, o amor autêntico deve basear-se na verdade. “Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. (…) A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais”. O pecado é uma mentira, um desvio da nossa verdadeira essência. Israel, ao resistir à Palavra de Deus e aos profetas, desviou-se da sua vocação: ser o povo escolhido de Deus e uma luz para as nações.
Fala ternamente a Jerusalém – O segundo imperativo é falar ternamente a Jerusalém – literalmente, “falar ao coração”. A Palavra de Deus deve penetrar no íntimo do seu povo. A renovação começa no coração, onde a reconciliação e a transformação criam raízes. A Palavra de Deus é simultaneamente criativa e recriadora. Tem o poder de gerar vida, de a restaurar e de a elevar. O dom da Redenção transmite uma vida superior e mais abundante do que aquela de que Adão e Eva desfrutavam antes da queda.
A misericórdia de Deus visa recriar o Seu povo pela Sua Palavra. O castigo não é destruição, mas purificação. A renovação deve acontecer no coração, onde a reconciliação com Deus se torna possível. A própria palavra religião vem do latim “re-ligare” – ligar novamente, reconectar. A iniciativa é sempre de Deus. A Sua justiça e misericórdia não se opõem, mas estão unidas no Seu amor terno.
Proclamai – O terceiro imperativo é proclamar ou anunciar que o tempo do castigo terminou. O pecado tem consequências, mas a reconciliação exige responsabilidade. A dinâmica reflete o Sacramento da penitência: reconhecimento, contrição, confissão, absolvição e penitência. O Senhor está disposto a perdoar, mas os pecadores devem reconhecer o seu pecado e aceitar as suas consequências, pois «o Senhor castiga aqueles que ama» (Hb., 12, 6).
Em harmonia com o Segundo Isaías, Jesus proclamou o Reino de Deus: «O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho» (Mc., 1, 15). A alegre proclamação do Evangelho é inseparável da sua condição essencial: a conversão, ou metanoia em Grego – uma mudança de mentalidade e de modo de vida, e uma disposição para aceitar Jesus, o Filho de Deus, como Senhor e Salvador.
O SENHOR VEM COM PODER
«Eis que vem com poder o Senhor Deus, que governa com o seu braço forte; eis a sua recompensa com ele, a sua retribuição diante dele. Como um pastor, ele apascenta o seu rebanho; nos seus braços reúne os cordeiros, carregando-os no seu seio, guiando as ovelhas com cuidado» (Is., 40, 10-11).
A esperança dos exilados é o Senhor, que une o poder à ternura e a justiça à misericórdia. Como Bom Pastor, Ele nutre, conforta e cura o Seu povo, levando-o junto ao Seu coração, no Seu seio. Tal como o Filho de Deus estava no seio do Pai (cf. Jo., 1, 18), assim também o discípulo amado estava no seio de Jesus (cf. Jo., 13, 23). Também nós somos convidados a encontrar descanso n’Ele: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei» (Mt.,11, 28).
Em Israel, os reis eram frequentemente descritos como pastores do povo, a quem era confiada a responsabilidade de guiar, proteger e cuidar do rebanho de Deus. No entanto, muitos governantes falharam nessa missão, levando o povo à idolatria, à injustiça e, por fim, ao exílio. Sem isentar de responsabilidade o povo que os seguia, o profeta revela que o próprio Senhor vem agora como Rei para cumprir o papel que os governantes de Israel negligenciaram. A Sua misericórdia, a Sua ternura e o Seu “ḥesed” – a Sua constante bondade amorosa – restauram o que os reis humanos corromperam. Em contraste com os pastores falhados, o Senhor reúne o Seu rebanho disperso, cura as suas feridas e os conduz com cuidado, encarnando a união perfeita entre a justiça divina e a misericórdia.
CONCLUSÃO
O Segundo Isaías dirige-se a um povo no exílio, lembrando-lhes que Deus é o Senhor da História, o Redentor e o Libertador. A Sua Palavra consola, penetra no coração e apela à conversão. A promessa de libertação através de Ciro, que derrotou Babilónia em 539 a.C., prenuncia a libertação definitiva trazida por Cristo, que nos redime através da Sua paixão, morte e ressurreição.
Os imperativos – consolar, falar e proclamar – permanecem convites intemporais para receber a misericórdia de Deus, para permitir que a Sua Palavra nos transforme e para proclamar a Boa Nova com coragem.
REZAR COM A PALAVRA DE DEUS
Lê esta passagem em espírito de oração (Is., 40, 1–11).
1. Aceita o convite de Jesus para repousar no seu coração. Pede-Lhe que te console e cure as feridas do teu coração.
2. Convida a Palavra de Deus a penetrar no teu íntimo, renovando e recriando a tua vida na graça.
3. Reza por coragem para proclamar a Boa Nova com alegria, vivendo uma verdadeira metanoia que testemunha Cristo como Senhor e Salvador.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

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